Início Editorial Os alunos memorizam conteúdos como quem mastiga pastilha elástica

Os alunos memorizam conteúdos como quem mastiga pastilha elástica

703
3

Acham que a sociedade é a mesma de há 15/20 anos atrás? Acham que escola acompanhou a evolução social? Estará a escola realmente interessada em preparar alunos para a sociedade, ou focada apenas em médias e classificações?

A tendência atual e não é apenas em Portugal, é de criar uma escola que esteja mais ligada à realidade social/empresarial e não tanto baseada nos resultados escolares. Um aluno pode ser um aluno mediano, mas ser um excelente profissional, mas também pode ser um excelente aluno e não passar de um profissional mediano. A escola precisa de valorizar outras competências além do conhecimento académico, competências que são fundamentais para a execução de tarefas e integração no mercado de trabalho.

Desculpem a frontalidade, mas ninguém quer trabalhar com um colega que é uma besta e ninguém quer contratar alguém que não consiga adaptar-se ou ser capaz de resolver problemas do quotidiano laboral. A genialidade cognitiva pode estar lá, mas se o trabalhador for um analfabeto social, de que adianta tanto conhecimento?

A escola em Portugal continua demasiado formatada, com palas nos olhos, onde “marrar” matéria continua a ser a melhor aposta para atingir boas médias.

É evidente que os conhecimentos têm de ser assimilados, é evidente que a escola não pode ser só coisas “fofinhas”, onde o aluno é quem lidera e o professor é apenas um consultor de recurso. Não, o professor e a escola devem ser catalisadores do conhecimento, ajustando estratégias para que esse conhecimento seja adquirido, criando dificuldades que permitam ao aluno ajustar-se, adaptar-se, atingindo um sucesso sustentado, fulcral para um processo de crescimento escolar e pessoal.

Blá, blá, blá, dirão alguns, os miúdos não têm de ser felizes na escola, a escola é obrigação e eles só têm de “comer” o prato que lhes colocamos à frente.

Quem assim pensa, simplesmente já não faz parte deste filme, já não faz parte desta realidade, encravou num tempo de obediência cega, onde o aluno não argumentava, não questionava, não pensava. Aquilo que muitos chamam de facilitismo, mais não é que uma metodologia promotora de aprendizagem em cooperação e investigação, orientada por especialistas em educação, os professores.

Subscrevo por isso o que disse a “melhor professora do mundo”, se é que é possível alguém ser o melhor professor do mundo…

Muita gente ainda não percebeu quão importante é a Arte em termos de transformação da vida, em termos de oferecer aos alunos competências essenciais de que necessitarão ao longo da sua vida. Por exemplo, competências como a curiosidade, como comunicação, como trabalho em equipa, como auto-expressão. Ou, ainda, como a criatividade, uma das competências cada vez mais relevantes nos locais de trabalho – os empregadores valorizam cada vez mais as pessoas que têm essa visão criativa, uma vez que esta é essencial para quem quer liderar nos mercados onde se insere. Se retirarmos as disciplinas artísticas do currículo, se não valorizarmos estas disciplinas, estaremos a prejudicar os nossos filhos e alunos, em especial no momento em que, à saída da escola, entrarem no mercado de trabalho. Não estou a sugerir que todos devem tornar-se actores, músicos ou artistas, não é esse o ponto. O ponto é valorizar o conjunto de competências que estas disciplinas desenvolvem nos alunos, incluindo até para a sua saúde mental. As Artes ajudam a encontrar uma paz emocional própria dos momentos criativos. As Artes dão-lhes instrumentos para que conheçam melhor a sua personalidade, para que definam o que gostam e o que não gostam, para que desenvolvam o seu processo de tomada de decisão. As disciplinas artísticas são, nessa medida, essenciais para a formação pessoal dos alunos.

Vários são os que estão a criticar a redução de conteúdos nas Aprendizagens Essenciais, ao mesmo tempo que existe uma inversão no discurso e de maior aposta nas Expressões.

Estou cansado de ver alunos memorizar conteúdos como quem mastiga pastilha elástica. Mastiga e deita fora e a escola fica tão satisfeita que até lhe atribui um bom ou muito bom.

Gostaria de ver uma escola mais prática, mais ligada à sociedade, uma escola onde os alunos saíssem de lá a dizer que querem voltar no dia seguinte. Não pode ser normal ouvir os alunos a desabafar que estão fartos disto e daquilo, que o professor tal é uma seca, que as aulas são chatas e pouco estimulantes. Compreendo que é muito difícil competir com os estímulos externos, mas caramba, será que não podemos fazer algo mais?

Acredito que uma escola pode ser exigente, repito, exigente, mas também mais apelativa aos interesses e motivações dos seus alunos.

As tecnologias, as expressões, a cidadania, a criatividade, o empreendedorismo, as línguas, os relacionamentos interpessoais, são determinantes para um sucesso profissional a curto e médio prazo. São, mas não só, a escola também tem a capacidade de incutir competências pessoais determinantes para o sucesso social, determinantes para aquilo que no final do dia é o que mais interessa… ser-se feliz!

E quem não quer ser feliz?

Alexandre Henriques

Um professor deve estar disponível para aprender com os seus alunos

(Observador)

 

COMPARTILHE

3 COMENTÁRIOS

  1. ”A escola precisa de valorizar outras competências além do conhecimento académico, competências que são fundamentais para a execução de tarefas e integração no mercado de trabalho.”
    Mas então não era tudo por um ensino mais progressista e libertário? Então o objetivo não era uma formação mais harmoniosa, humanista e integrada??? Formar operários… eis o objetivo da ”NOVA ESCOLA???
    Sim senhor… desvalorizar conhecimento académico em detrimento de colaboracionismo empresarial… Que belos objetivos para a formação académica!
    Depois , desculpe lá, tudo é contraditório… Então o Alexandre Henriques quer ”colaboradores” ou ”artistas”, como advoga a melhor professora do mundo? O empreendedorismo ??? Cativante??? Ou apenas um chavão gasto???
    Por fim… Ponha lá , por favor, os dados do PISA sobre quem gosta e quem não gosta da Escola por essa Europa fora… Mostre lá o que dizem os alunos da tão amada Finlândia e, já agora, compare-os com os portugueses…
    Quanto ao Observador, e ao Homem Cristo, está tudo dito… Todos sabem o que é o Observador e quais são os seus objetivos… Só não vê quem não quer e a quem servem!

  2. P.S. Quem dera que os alunos memorizassem conhecimento como quem masca pastilha elástica…. mas ”népia”…

  3. A Europa foi, outrora, líder do mundo ocidental porque se serviu do pensamento abstracto. Hoje, como se fôssemos os nossos próprios inimigos, advogamos visões do mundo que não vão além das chamadas operações concretas.
    Como alguém diria: “É a ECONOMIA, pá!”.
    Interessa a formação integral? Qual quê!!!!
    Querem-se é trabalhadores eficazes e acéfalos, gente sem valores humanistas, e sobretudo sem sentido crítico.
    Quanto à maldição encetada contra os conhecimentos académicos, nunca pensei que, neste mundo às avessas, o preconceito fosse tão profundo. Espero que, apesar do absurdo destas ideologias, haja lugar para a diversidade e para todos todos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here