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“Os alunos estão sempre prontos a atacar”

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mediação de conflitosDepois do último texto recebi um contacto que visava um esclarecimento mais aprofundado sobre a construção de expetativas e representações e o modo como estas podem efetivamente influenciar o sucesso da relação pedagógica em sala de aula.

E assim, surgiu a ideia de esclarecer este processo neste novo texto.

Na maioria das escolas hoje foi dia de apresentações e amanhã o ano letivo irá começar a valer.

Partindo do modelo desenvolvido por Good e Brophy é importante termos consciência de que as nossas expetativas em relação ao aluno influenciam o seu desempenho, tanto a nível comportamental como a nível do desempenho académico. Por exemplo, isto significa que os alunos mal sucedidos são encarados, à partida, como alunos incapazes e com dificuldades, o que leva a que estes alunos se assumam como tal, construindo ciclicamente crenças de fracasso e de incapacidade acerca de si mesmo, o que pode levá-los ao insucesso ‘crónico‘.

Vamos tentar perceber isto por etapas:

  • O professor espera determinados comportamentos do aluno
  • O professor age com base nessas mesmas expetativas
  • Essas expetativas são comunicadas ao aluno de forma indireta, por exemplo, através do comportamento do professor (ai, a importância do não verbal)
  • O comportamento do professor influencia o aluno, afeta-o
  • O aluno age de acordo com as expetativas do professor
  • O comportamento do aluno reforça as expetativas do professor
  • O professor espera determinados comportamentos (repararam que voltamos à etapa 1?)

Assim se compreende porque é que com expetativas negativas, os professores, de forma inconsciente e involuntária interagem menos com estes alunos de forma proativa e positiva (a maioria das interações são fruto de algum comportamento desadequado por parte do aluno) e acabam por sujeitar mais vezes os alunos a comentários negativos, levando ao reforço das expetitivas e à manutenção de representações negativas sobre a relação pedagógica que se constrói neste contexto.

Ora vejamos isto com este exemplo prático:

Um professor que tenha uma crença de desconfiança em relação aos alunos, pensando frequentemente “os alunos estão sempre prontos a atacar”, adotará uma atitude de desconfiança, refletindo a sua expetativa de ataque ao seu estatuto/reputação/personalidade. Isto, por sua vez, fará com que assuma ao longo das suas aulas uma postura de hipervigilância relativamente ao comportamento dos alunos (“é preciso estar atento, pois a qualquer momento poderá acontecer algo”). Esta hipervigilância poderá, em determinados casos, levar ao enviesamento na perceção, análise e avaliação de um comportamento de um aluno (por exemplo, “está a bocejar de propósito para gozar comigo”), o que por sua vez, naturalmente, levará a uma reação (visível pela postura, olhar, gestos) por parte do professor a este comportamento.

Os alunos são extremamente sensíveis aos comportamentos e pistas não verbais dos professores (nunca se esqueçam que o não verbal chega a substituir a linguagem verbal), podendo reagir a esta mudançano comportamento do professor de forma agressiva (“oh stôr, está a olhar pra mim assim porquê? Não fiz nada”), levando assim ao reforço da crença inicial do professor de que “os alunos estão sempre prontos a atacar”…

Como já tive oportunidade de referir anteriormente, o adulto como autoridade na relação pedagógica deve estar consciente de que reações habitualmente automáticas contribuem para manter padrões de interação disfuncionais e, por isso, deve reagir com base numa estratégia (remediativa, preventiva ou conciliadora) e não com base em disposições automáticas para a ação. Pode por exemplo, supreender o aluno (quebrando a crença que este tem relativamente ao adulto) e assim melhorar a qualidade da relação. É muito importante basear a nossa decisão de ação em taxas reais de ocorrência de um determinado comportamento e não numa suposta intenção do aluno ou em boatos e testemunhos de terceiros.

Lembrem-se, o que nos incomoda é o comportamento e não o aluno; o que podemos rejeitar são os comportamentos e não os alunos.

Fácil? Claro que não (ou não falássemos de relações humanas), mas é possível, viável e altamente eficaz!

Bom regresso!

Mónica Nogueira Soares
Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora

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