Início Rubricas “Ora mexa lá nas minhas coisas, para ver o que lhe acontece!”

“Ora mexa lá nas minhas coisas, para ver o que lhe acontece!”

73
0

mochilasA chuva miudinha escorrega pelas vidraças largas da sala de aula. O sonzinho suave das gotas a bater provoca, sobretudo àquela hora da sesta, uma madorna gostosa de canção de embalar. A voz serena do professor eleva-se na explicação do exercício que se espraia quadro fora, em irrepreensíveis carreirinhas brancas. Alguns alunos concentram-se na resolução do problema, a testa franzida e o olhar inseguro a denunciar confusão. Outros, há muito cederam à preguiça da tarde morna. Sentam-se alheados, a rabiscar gatafunhos nas margens do manual, a extirpar pequenos pedaços de borracha que amontoam delicadamente sobre a mesa, dois ou três a tentar manusear o telemóvel semi-camuflado dentro do estojo.

O rapaz sentado no último lugar da segunda fila lança aos vizinhos olhares furtivos de impaciência. Um ligeiro catarro simulado atrai a atenção de dois ou três outros, que se entreolham com um sorriso malicioso e entendedor. Num repente, uma cacofonia simultânea de cadeiras a arrastar no chão surpreende o professor, que interrompe a articulação do raciocínio para apreender o motivo da barulheira. Mas quando os seus olhos percorrem a sala, nada se passa já – apenas encontra entreolhares vagos e inocentes.

O raciocínio retomado, a aula segue. Não tarda, soltam-se na sala pequenos trinados, piu-piu-piu, num chilreio camuflado de origem indefinível que prende a atenção de todos e acaba por provocar risos generalizados. O professor lança ao rapaz do fundo um olhar directo e prolongado. O moço sustenta-lhe o olhar sem embaraço, e diz: “não fui eu”. Perante o semblante céptico da maioria, ainda reitera: “eu não fiz nada”.

Torna a equação, ninguém sabe já onde encontrar y, retrocedem-se os passos. Pouco minutos passados, balem agora ovelhas, béééé, bééééé, como se fosse a sala um verde prado bucólico onde um rebanho pastasse. A turma desmancha-se a rir e o professor zanga-se a sério. Quer saber quem prevarica, quer apurar responsabilidades. Todos os olhos vagueiam desorientados pela sala, arregalados de candura e inocência. Nada. Ninguém. O professor, amofinado, recorre à cartada triunfal da responsabilização colectiva: em não havendo um culpado, toda a gente sabe, são todos culpados.

Um burburinho indignado eleva-se na sala. Os justos raramente estão interessados em pagar pelo pecador. Uma voz alterada ressoa difusamente de entre as outras: “… são os toques do telemóvel do menino Miguel…” Imediatamente, todas faces agastadas se viram na direcção do rapaz sentado no último lugar da segunda fila. O ‘menino Miguel’ sustenta com altivez e tranquilidade os olhares críticos de todos, questionando a plateia com ar entendido: “e provas, alguém tem provas de que sou eu?”

O professor respira fundo, dividido entre a relevância de dar um seguimento adequado à situação e a necessidade de consolidar os conteúdos do teste da próxima semana. Está incomodado com o tempo perdido e dirige-se ao rapaz com impaciência: “Ó Miguel, deixa-te lá de palermices. Com essas brincadeiras parvas, não deixas fazer revisões para o teste e não tarda está a tocar! E se eu for aí à tua mesa procurar na tua mochila e encontrar o telemóvel ‘dos barulhos engraçados’? Depois não vais gostar de ter uma participação disciplinar, não é verdade?”

O Miguel soergueu-se ligeiramente e sustentou o olhar do professor sem qualquer acanhamento. “Era o que faltava”, disse, com um sorriso carregado de desdém a arreganhar-lhe os lábios. “Você não tem autoridade para mexer na minha mochila nem para tocar em nada que seja meu. Pensa que me assusta com essa conversa? Eu conheço os meus direitos, ok? Olhe que o meu pai é advogado e ele já me avisou que ninguém pode revistar as minhas coisas sem a presença dele, porque eu sou menor, ok? Fartinho está ele, de lidar com os chico-espertos dos professores! Ora mexa lá nas minhas coisas, para ver o que lhe acontece!”

MC

Professora e autora do blogue Estendal

COMPARTILHE

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here