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Ontem os divorciados, hoje o género e o mundo continua a rodar

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Os miúdos de agora são espetaculares. Os meus alunos sabem que penso isso. Eu adorava viver os meus 14 ou 16 anos agora e ter as possibilidades que eles têm. E ter o mundo que eles têm. Mesmo com jogos e telemóveis a mais. E o que eu gosto mais é que adotam geralmente, com generosidade, o lema: live and let live (e escrevo em inglês de propósito). Se certos adultos não se puserem de permeio são, em geral, alegremente liberais para os comportamentos dos outros e ativamente defensores da liberdade. E gosto de ver isso, mesmo quando possa incomodar certas almas menos libertárias. E, curiosamente, acho que, em geral, por serem adeptos da liberdade individual, têm mais ética e sentido de responsabilidade do que julga quem não convive com eles. Um dos grandes ganhos de ser professor é conviver com essa energia libertadora.

A liberdade incomoda os que não gostam dela.

Este foi o meu pensamento ao ver a notícia, que gerou larga polémica, sobre o cidadão (e o termo não é revanchista, é de admiração, que sempre tenho pelos inconformistas) que se zangou com uma professora por esta perguntar num teste de inglês quais as peças de roupa de roupa que são masculinas ou femininas. E ter corrigido, o que no seu (dela) alto critério, não corresponde ao seu (dela) padrão de indumentária correto.

A coisa foi parar às redes sociais. E não sei se isso é bom ou mau.
Mas, estando no espaço público, legitima-se aqui comentário, com a informação que está disponível. Podem ver o link para a notícia no DN aqui, no SOL aqui ou no JN aqui. O print do post no Facebook retirado da página do DN está acima. E naturalmente algum elemento de visibilidade e projeção individual do aluno envolvido (que tem militância política), não afasta o problema essencial.

Perguntar às vezes ofende…

O disparate foi a pergunta. Ensinar inglês pode incluir falar de roupa. Mas uma coisa é saber que skirt é saia, cap é boné. Outra coisa, é impingir que bonés não são para mulheres que é o que aparece nas redes sociais.

Especialmente na disciplina de Inglês (por exemplo, para ser mesmo simplista, a Escócia fala inglês, embora a pronúncia possa ser discutível).

Vivi o preconceito contra divorciados na escola. Se fosse mais novo, já não o viveria. O meu irmão, 3 anos mais novo, acho que não viveu tanto como eu. As coisas felizmente mudaram.

Os meus pais divorciaram-se quando eu tinha 4 anos e era muito doloroso, de todas as vezes que preenchia a ficha identificativa para os professores, ter de explicar que eram divorciados e que não sabia a profissão do pai (porque ele nunca falara comigo, nem sabia dele). O dia mais triste do ano, para mim, era sempre o dia de anos, porque esperava o cartão que nunca veio. E no dia do Pai, muitas vezes ficou pendurada a questão do que ía fazer em Educação Visual, quando os outros faziam o cartãozinho para os pais. Fiz cartões para a avó, para o irmão, para a mãe, para o tio avô e nunca esquecerei a sensibilidade do professor Aguinaldo de EV que, no 5º ano, quando chegou o dia, me mandou para a biblioteca ler um livro e disse com um sorriso largo: “escolhe o que queres ler e diverte-te. E faz um desenho sobre o livro.” Flexível, o meu professor Aguinaldo.

Imaginem um miúdo (tímido, acreditem…) de 9 anos, em todas as disciplinas no 5º ano, a ter de explicar às professoras ao entregar a ficha: “o pai, não sei a profissão”. Os outros olhavam o extraterrestre (era o único filho de divorciados na turma e dos poucos na escola). E chegou a haver professores que, antes de eu sequer conseguir explicar, me ralhavam: “então não sabes o trabalho do teu pai?”. Ou perguntavam explicitamente “Porque não preencheste a profissão do pai?”. A sensibilidade não joga bem com burocracia que não admite espaços em branco ou zonas “cinzentas” da realidade.

A diferença é diferente em cada tempo….

Não andava a dormir, como uma vez um disse, mas era “diferente”. O divórcio, para casados pela Igreja, passou só a ser legal em 1977 e sei bem que este meu “sofrimentozinho” foi bem pequeno, face ao que a minha mãe suportou. Ser filho de pais divorciados, ou de uma mãe que usava muitas vezes calças ou lia o jornal no café, em tempos, foi ser diferente. E quem tem 9 anos não vê as coisas com o orgulho com que as vejo hoje.

Hoje o divórcio já é “normal”. Mas há quem ainda não tenha “normalizado” a existência de alunos homossexuais (ou de professores), de alunos transgénero (ou de professores) ou de “outras diferenças” que estão na escola como estão na sociedade. Ou a diferença simples de que cada um veste o que lhe apeteça, dentro de uma latitude mesmo muito larga. E o limite é, por exemplo, engriparem-se no Inverno…

A coisa, pelos vistos, esteve tremida na relação professora/aluno no caso concreto. E a professora, pelos vistos, diz a notícia do DN, no meio da discussão, ameaçou (ou até concretizou, que a notícia não é clara), uma ordem de saída de sala de aula. Uma punição, face ao Estatuto do aluno.

Não sei se o aluno foi indelicado ou rude com a professora. Mas se fosse comigo, numa divergência opinativa dessas, mesmo que chegasse à rudeza, nunca usaria a arma disciplinar. Encerraria a discussão com um acordo em discordar. Havia um adulto na discussão? E, cá por dentro, até achava graça a ter um aluno corajoso para discutir, mesmo com rudeza, comigo. Foi dessa massa que eu fui feito.

Mas também nunca faria a pergunta disparatada, porque sou capaz de entender o ponto do aluno, que tem razão no essencial. Já fui diretor, e mesmo se o aluno se passou com a professora (e não parece ter esse perfil), que base haveria para o punir, perante a pergunta disparatada?

Recentemente, no Parlamento, na sessão de audição da ILC, acho que me passou pela cabeça algo parecido com o que ele terá sentido. E, também aí, uma Senhora Professora, investida em deputada, me ameaçou com alguma coisa, que não registei, pela minha falta de respeitinho…

Educar para a cidadania… mas com “muito respeitinho”?!

Educar para a igualdade e para a liberdade de expressão, não é só proclamação gongórica. Tem de ser coisa concreta. E pode começar numa discussão séria sobre roupa e em saber se ela vale a pena, antes do mais. Aliás, roupa é expressão.

E o argumento da idade da professora (subtilmente enunciado pela direção da escola), que desculparia o seu preconceito, é ofensivo. Eu tenho 47 anos, dentro de dias. A minha mãe teria 75 agora, e 25 anos atrás, já abordava questões de igualdade de género e de orientação sexual nas suas aulas. Por exemplo, nessa altura as temáticas transgénero ainda eram misteriosas para muitos, mas ela introduzia o tema no seu “programa” (flexível e fora do programa oficial). Já encontrei ex-alunos que me falam disso e me dizem que essa abertura os ajudou em questões familiares.

Eu sei como foi, porque sou feliz proprietário de vários livros caríssimos, na altura de vanguarda, hoje inúteis, que importou do estrangeiro para saber o que dizer e explicar aos alunos. Como ela não seria, se tivesse os recursos da internet. Por isso, ter 50 anos não é desculpa para se ser limitado.

A coisa resolvia-se com sensatez.

E começava por nem se ter feito a pergunta. Serviu que objetivo pedagógico?

Como eu gostava que não me tivessem perguntado a profissão do pai nas dezenas de fichas que preenchi na escola….

Por sensibilidade humana às sensibilidades particulares. Só isso, se não for por mais nada. E essa sensibilidade não se produz em “grelhador”, mas sim em vida e empatia com outras pessoas (mesmo jovens ou pequenas). E talvez mais pensamento e reflexão. Ou só cuidado ….no sentido de “cuidar”.

3 COMENTÁRIOS

    • “E naturalmente algum elemento de visibilidade e projeção individual do aluno envolvido (que tem militância política), não afasta o problema essencial.” Ninguém aqui é ingénuo…. mas quem se põe a jeito e não percebe as regras dos novos tempos queima-se a si e aos que consigo partilham a profissão…. E a asneira está documentada por escrito: não é errado que um chapéu seja peça de roupa de homens e mulheres…. ou vamos discutir o óbvio?

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