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Onde andas tu agora, Paulo Gonzo?

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A sala de espera é cinzenta e sombria. Tem aquele tom pardo e difuso do horizonte em dias de chuva e não se consegue definir em que altura o cinza da tinta se mistura com o encardido das paredes. Cheira a febre e a vómito. As cadeiras de plástico que não estão estropiadas estão todas ocupadas. Um coro desarrumado de tosses, choros e queixumes impacientes amplia os males de cada um naquela plateia forçada.

partirO bebé dormita no seu ombro, a cabecita aninhada na curva do pescoço, quebrado de sono e de febre. Ajeita-o suavemente e escuta o chiado do peito. Ao amparar-lhe as costas sente na mão o rendilhado irregular da respiração. Com a outra mão, acaricia gentilmente a cabeça do mais velho, que repousa na sua perna, e aconchega o corpo pequenino, enrolado na cadeira ao seu lado.

Fecha os olhos e procura dentro de si um reduto de calma, tenta resguardar-se da impaciência queixosa que sente nos gestos e nas vozes que a rodeiam. Numa televisão fixa lá no alto, quase no tecto, um canal de coisas antigas passa um programa musical com grandes êxitos do passado.

A voz cava do cantor romântico entoa em surdina e ferra-lhe no peito, à má-fila, a dor fininha da nostalgia. Cada um daqueles versos, – “sei de cor cada traço do teu rosto, do teu olhar”- mil vezes repetidos, transporta-a para o universo longínquo da sua juventude, tão desfasado agora da realidade que lhe parece terem passado mil anos, como num sortilégio de conto infantil.

Cada palavra cantada acirra-lhe a memória com imagens antigas, dos seus tempos de saltimbanca, dos sítios onde viveu – com a mãe e com o pai, com a mãe apenas, com a mãe e a avó, com o pai, com o pai e a madrasta, com o pai e outra madrasta, com a mãe e o padrasto – num eterno e extenuante acartar de bagagens e sonhos, à mercê de vontades e interesses que nunca eram os dela.

Nesses tempos, sentada sozinha à janela – gostava muito de se sentar à janela, qualquer janela, onde quer que estivesse – ouvia canções de amor e pensava que um dia, quando fosse crescida, iria fazer diferente. Tudo diferente. Iria procurar um amor assim, como o da canção. Um amor forte, indestrutível, onde cada um adivinhasse o outro – “cada sombra da tua voz e cada silêncio, cada gesto que tu faças, meu amor sei-te de cor” – um amor tricotado com cuidado e intimidade, um casulo de atenção e mimo tecido com linhas suaves mas fortes, que os resguardasse dos rigores do mundo.

A primeira vez que encontrou um amor, teve a certeza que era o tal. Era tudo o que sempre sonhara: calado e meigo, bonito, de grandes olhos tristes, desde que se conheceram nunca mais a largara. Nenhum compromisso familiar, nenhuma festarola com amigos, nenhum evento desportivo, por mais empolgante que fosse, o aliciava quando ela solicitava a sua presença. Ouvia-a com atenção e paciência quando ela lhe contava as coisas lá dela, sorria com ternura quando lhe confiava os seus planos de uma fortaleza a dois. Nunca renegava as suas próprias fragilidades, nem se envergonhava de chorar no colo dela os obstáculos do seu caminho.

Não sabe precisar muito bem em que momento se começou a aperceber que “saber cada traço do seu rosto, do seu olhar” não era necessariamente bom. Talvez começasse a notar um bocadinho quando se tornou difícil pagar as contas do casulo, que apesar de exíguo e modesto, carecia de manutenção regular. Depois nasceram os meninos, dois preciosos caprichos do acaso, seguidinhos em dúzia e meia de meses. Nessa altura, não houve como não reparar que no casulo afinal talvez não coubessem tantos, talvez só coubesse mesmo ele, as fragilidades dele, as agruras lacrimosas dele. E em cada traço do seu rosto, do seu olhar, ela lia o enfado e o melindre por não poder já fruir em exclusividade do abraço dela, onde as suas lágrimas outrora encontravam sempre amparo e conforto.

E quando houve necessidade de arregaçar as mangas e providenciar, ele foi embora sem aviso, à procura de outro colo. Nessa altura já ela definitivamente o sabia de cor, mas não conseguia vislumbrar qualquer vantagem nisso.

MC

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