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“Oh Ricardo, a sério?!”

Afinal isto dos cadernos foi só obra da silly season, das feministas histéricas e dos revoltados que não têm mais nada que fazer…

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Quando tive oportunidade de ouvir o Ricardo Araújo Pereira a propósito dos livros de atividades, pensei “Oh Ricardo, a sério?!”.
Ri-me, confesso, pelo menos na primeira parte… Adoro a forma como ele faz humor…
E sim, também já tive oportunidade de dizer que a recomendação e a posterior retirada dos livros, não foi de todo adequada (soa a censura e pouca liberdade, sim).. E claro, as questões nas redes sociais tomam proporções gigantescas, mas isso não invalida a discussão importante que isto gerou…
Pouco me importa se é a Editora X ou Y, se são ou não manuais oficiais, se há ou não exercícios mais difíceis ao longo do livro.…
A discussão deve centrar-se à volta dos estereótipos de género que estão presentes.. Vejo nos comentários tantas crenças erróneas, tanta argumentação mal sustentada em que se confunde género com sexo, em que se confunde cavalheirismo com falta de feminismo, em que o conceito de feminismo é mal utilizado.. enfim. E naturalmente discussões com premissas erradas, não podem ser discussões saudáveis e bem argumentadas.
E RAP, os filmes da Disney ou de outras companhias não devem ser retirados… Simplesmente porque ninguém diz o “Frozen” é para meninas; ou o “Cars 3” é para meninos… Nós, sociedade, é que dizemos ao menino que gosta da Frozen “deixa-te de coisas de meninas” ou à menina que delira com o Faísca “és mesmo Maria rapaz”. Quando etiquetamos com feminino e masculino determinadas atividades, objetos, tarefas ou até mesmo características pessoais, é que estamos a errar. As princesas não são para meninas, assim como os carros não são para meninos… O cor de rosa não é só para meninas, nem o azul só para meninos. Se eles quiserem, claro que sim… Aí estamos a falar de gostos e não de imposições. Se o menino veste rosa, notamos, comentamos… E mais tarde a criança nota que comentam e sente-se inferiorizada e às vezes até é mesmo posta de parte por ter gostos fora do padrão. As cores, os filmes, as atividades são para todos, para quem quiser e para quem gostar. As mensagens por mais subtis que pareçam, também passam, também ficam e também são passadas de geração em geração… E assim promovemos a desigualdade e assim fazemos com que crianças que não se enquadram no dito “padrão” se sintam diferentes e sejam tratadas como diferentes mesmo não o sendo.. As crianças são esponjas e absorvem tudo e depois admiramo-nos com os números de violência no namoro ou violência no geral nas escolas e na sociedade.. pode parecer sensacionalista e exagerado, mas quem está nas escolas sabe bem as preocupações que temos relativamente a estas questões e outras que advém desta..
O feminino não é melhor que o masculino, assim como o masculino não é melhor que o feminino… As pessoas é que diferem entre si e o que as torna melhores ou piores não passa certamente pelo que trazem à vista quando nascem. E mesmo o “melhor” e “pior” tem uma carga elevadíssima de subjetividade…
Quando se fala em promover a igualdade de género, não se trata de combater o “ser masculino”, mas sim de combater a desigualdade salarial, a violência no namoro, a violência doméstica, o desprestígio de determinadas profissões com conotação de género e tantos outros exemplos.. A mensagem de desigualdade está presente em tantas valências do nosso quotidiano, que é preciso começar por algum lado, alertar, insistir e acreditar que a mentalidade irá mudar.. Não é fácil contrariar estas tendências.. são crenças, valores, hábitos, experiências pessoais.. portanto quem tem impacto, quem pode fazer mais deve fazê-lo… pela positiva.
E não é por isso estar presente em tantas outras esferas da nossa sociedade que devemos desvalorizar a questão, aliás é precisamente por esse motivo que devemos insistir nesta discussão!!!
O RAP acabou com uma “piada”, dizendo que as meninas são mais intelectuais… muitos se riram, mas também isso não pode acontecer, pois a intelectualidade naturalmente não está associada a qualquer género, mas sim a pessoas…
Ou seja, o RAP brincou, muitos se riram e aproveitaram para dizer “espetacular, finalmente alguém com bom senso” mas foi nesse bom senso que o Ricardo tocou na grande questão desta polémica, que há estereótipos de género presentes nos livros, (como em tantos outros, bem sei) mas parece que ninguém reparou; a maioria riu, desvalorizou o que há dias era valorizado e voltamos todos ao mesmo… Afinal isto dos cadernos foi só obra da silly season, das feministas histéricas e dos revoltados que não têm mais nada que fazer…

 

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora

3 COMMENTS

  1. Muito bem! Já li , inclusive, que O Estado devia intervir na criação de um novel ”Index Librorum Prohibitorum” de obras menos próprias , ou de cariz misógino, ou racista… Os proponentes tinham vários títulos na lista amorosa encabeçada pelo ” Livro da Selva ” de Rudyard Kipling…
    Sugiro, até porque não aparece nas listas que vou consultando, que se comece o Índex Lusitano pelos ”Lusíadas”. O autor , segundo opinião que também já li, além de marialva, apologista do Imperialismo Lusitano, chauvinista , misógino; perdedor de olhos em intentonas usurpadoras, era um conhecido escravocrata … Conta a lenda , ou a realidade, que um javanês, escravo, mendigou para o velho bardo nas ruas de Lisboa..
    PS: Tenho os ditos livros, duas criancinhas de tenra idade que irão ter acesso à perigosa imprensa … Eu acho que o RAP tem razão ! Qual será o meu viático ?

  2. ”mas também isso não pode acontecer”… E está tudo dito sobre liberdade e sobre o que RAP tentou explicar a algumas pessoas…

  3. Não, não “foi só obra da silly season”
    Mas não sei se foi obra das feministas.
    Temo que tenha sido apenas das “histéricas revoltadas”.
    Entretanto, e à socapa, já fui comprar uma boneca e umas coisitas da Hello Kitty para dar à minha neta quando ela crescer um bocadinho, não vão as “histéricas” estribadas no ministro Cabrita recomendar a retirada do comércio das ditas.
    Isto da censura, sabe-se como começa mas não como prossegue!!!

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