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Oficina de Psicologia | Os meus pais acham que tenho medo da escola…

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Uma distinção importante – Fobia Escolar vs. Ansiedade de Separação

Chamo-me João, tenho 6 anos e comecei a frequentar o 1.º ano em Setembro. De manhã, quando se aproxima a hora de ir para a escola, começo a ficar com dores de barriga, enjoado e até já cheguei a chorar a pedir aos meus pais para não ir à escola. No outro dia ouvi-os falar em “fobia da escola”. Acho que pensam que não gosto da escola e que não me estou a conseguir adaptar à mudança do jardim-de-infância para a escola primária. A verdade é que até estou muito contente por ir aprender a ler e escrever. A minha professora parece simpática e os meus colegas até me chamam para ir brincar com eles. O que eu não gosto é de deixar os meus pais. Se pudesse escolher levava-os para a escola comigo!

 

Ansiedade de separaçãoEste relato fá-lo de algum modo lembrar alguma criança que conhece? Parece legítimo que os pais do João pensem que este não quer ir à escola e que, na génese desta recusa, se encontre um medo irracional e excessivo de enfrentar o contexto escolar, que poderá ser facilmente ultrapassado. Em alguns momentos podem até pensar que se trata apenas de preguiça ou birra. Se o João se recusar exclusivamente a ir à escola – sobretudo neste momento de transição de ciclo escolar – com apresentação de mal-estar físico e até mesmo quando, no contexto escolar, evitar interagir e brincar com os colegas, poderemos estar de facto perante um caso de fobia escolar. Mas reparemos na última observação do João. Ao contrário do que sucede com muitas crianças, já percebeu que a sua ansiedade está fortemente relacionada com a ausência dos progenitores, ou seja, não se circunscreve ao tema ‘escola’.

É indiscutível que o João está a sentir dificuldades em ir à escola. O que é fundamental é perceber como tem sido a sua história de vida no que respeita aos momentos de separação dos pais. Será a primeira vez que tem este tipo de reação? Qual é o seu padrão de comportamento perante situações novas e interação com estranhos? Como reage quando os pais se afastam ou ausentam?

Este excerto permite ilustrar e fazer a diferenciação entre dois quadros – fobia escolar e perturbação da ansiedade de separação – que são muitas vezes confundidos e, inclusive, utilizados indiferenciadamente para descrever situações que mereciam distinção. É também verdade que muito frequentemente as crianças com fobia escolar apresentam também perturbação da ansiedade de separação, como o João, mas é importante fazer um diagnóstico diferencial. Estas perturbações estão relacionadas, mas não é forçoso que sejam concomitantes.

A fobia escolar manifesta-se sob a forma de resistência em ir ou permanecer na escola com a manifestação de sintomas como angústia, falta de concentração, medo, suor, tremores, choro, irritabilidade, vómitos, diarreia, dores de cabeça – isolados ou em associação – no contexto escolar ou ainda em casa, perante a mera perspetiva de ter que ir para a escola. Estamos perante fobia escolar como uma perturbação independente quando esta recusa se fica a dever ao medo de algum aspeto relacionado com a escola ou com o ambiente que a envolve e se circunscreve apenas a este. Os pais do João parecem estar a fazer uma leitura neste âmbito. As crianças com fobia escolar podem não ter qualquer dificuldade em separar-se dos progenitores em outras situações, como deslocações para casa de familiares ou amigos, o que não será tão linear e acessível para uma criança com ansiedade de separação.

A perturbação da ansiedade de separação é mais ampla, incluindo a dificuldade em conceber e vivenciar o afastamento das figuras de vinculação nos mais diversos contextos, dos quais a escola poderá fazer parte. Trata-se de uma ansiedade excessiva, não adequada ao nível de desenvolvimento, que pode levar ao aparecimento de sintomatologia física de diversa ordem e que se define pela presença de mal-estar excessivo e recorrente quando ocorre ou é antecipada a separação de casa ou das figuras de vinculação; pela preocupação persistente e excessiva com a possível perda dessas figuras ou com algo de mal que lhes possa suceder; pela relutância ou medo persistente e excessivo em estar sozinho ou sem as principais figuras de vinculação em casa ou, noutros locais, sem adultos significativos; por pesadelos repetidos que envolvem o tema da separação, entre outros (APA, American Psychological Association).

É também importante referir que a ansiedade de separação pode surgir desde a idade mais precoce, na qual a sua prevalência é maior, até à adolescência.

Tendo em consideração os prejuízos e sofrimento que estes quadros causam às crianças e adolescentes, esteja a fobia escolar inscrita num quadro de perturbação da ansiedade de separação ou se apresente isoladamente, é importante que a intervenção seja o mais precoce possível. Deste modo, como é que os pais de “um João” o podem ajudar?

Em primeira instância, sendo pacientes, afectuosos e firmes, conversando com os filhos e procurando chegar a acordos sobre objetivos a cumprir tendo como meta a permanência na escola sem sofrimento, e tentando que os filhos os cumpram. A psicoterapia pode ser um recurso indispensável em alguns casos. A readaptação à escola pode ter que ser lenta e gradual – mediante a técnica psicoterapêutica de exposição, por exemplo – com respeito pelo ritmo e necessidades da criança em causa. O estabelecimento de um vínculo afetivo com o professor deve ser uma estratégia muito importante a considerar, bem como o reforço das competências e conquistas da criança. Neste âmbito, a articulação com a escola é fundamental.

Uma vez que estamos perante um quadro com uma leitura relacional inequívoca, a terapia familiar pode ser uma abordagem muito útil e eficaz.

Rita Fonseca de Castro

Psicóloga Clínica e Terapeuta Familiar

Oficina de Psicologia

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