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O Triunfo Dos Ímpares – Paulo Guinote

Assim como tem sido problemática a imposição da frequência de formações (para efeitos de progressão ou apenas de inculcação ideológica) que pouco ou nada trazem de novo para além de se apresentarem acções de propaganda política como se tratando de outra coisa

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Há teses que, de forma recorrente, voltam à superfície por falta de melhores pensamentos. Acerca do evidente “mal-estar” ou “mau ambiente” que se vai espalhando por muitas salas de professores, reaparece a desnecessária e inútil teoria sobre uma guerra velhos/novos, em especial quando quase não há “novos” no corpo docente da generalidade das escolas. E porque alguns de meia-idade de hoje já estão mais velhos do que os “velhos” de outros tempos e há velhos que são tantas vezes bem mais jovens do que os mais novos. Há alguns anos levei à minha escola o mestre José Ruy (já na altura com mais de 80 anos) para fazer uma palestra sobre banda desenhada a alunos de 10-11 anos e, acreditem, não há idade limite para a capacidade comunicativa e pedagógica.

Outra tese sobre o evidente alastrar do desconforto entre os docentes, que tem algum fundamento mas que dificilmente se pode considerar como uma novidade, é que a avaliação do desempenho está a contaminar as relações no interior das escolas, agora que o descongelamento começou a revelar de forma mais clara as injustiças do “modelo” em vigor, nomeadamente do efeito perverso das quotas. Mas, como escrevi, desde 2008 se sabe que, mesmo com as sucessivas simplificações e adaptações, é um modelo de avaliação sem verdadeira capacidade para recompensar de forma justa o mérito, ficando muito vulnerável a políticas internas de distribuição de favores quanto às progressões.

Assim como tem sido problemática a imposição da frequência de formações (para efeitos de progressão ou apenas de inculcação ideológica) que pouco ou nada trazem de novo para além de se apresentarem acções de propaganda política como se tratando de outra coisa. Mesmo em iniciativas de outro âmbito, ouvi nas últimas semanas pelo menos duas prelecções que pareciam decalcadas do mesmo molde que tem feito escola um pouco por todo o país e que só contribuem para azedar os espíritos, ao exigirem sempre mais aos docentes dando em troca umas palmadinhas nas costas ou uns títulos honoríficos para quem aceita replicar esse discurso nas escolas e fazer parte das equipas de “coordenação”. Porque a replicação do discurso oficial da “inovação” e da “diferenciação”, quando sustentada em práticas “clientelares” locais, tem criado divisões perfeitamente desnecessárias, pois em muitos casos apenas temos a opção por fazer marketing do que é rotina há décadas.

Paulo Guinote, in Público, 16-02-2020

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