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O trabalho não letivo (sem alunos) deve ser teletrabalho… Para defesa das aulas!

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Ontem, num debate, o “diretor dos Diretores”, Filinto Lima, pessoa que até estimo pelos valores, em especial depois de lhe ler as memórias, apesar da hiperativa deriva propagandistica presente, reagiu a umas críticas que fiz à minha “ex-classe”, dizendo que estava a ser injusto porque os “Diretores são excelentes.” Elogio em boca própria é vitupério. Há os excelentes, os abnegados, os trabalhadores e os medíocres e até os mal intencionados. E eu sei porque vi de perto. Fui um deles. Na gestão da pandemia está-se a ver bem a separação do trigo do joio. Sendo excelentes, não precisaria de explicar devagarinho. Mas, como a dose de excelentes em muitos casos é inversamente proporcional à duração dos mandatos ilimitados em anos vou explicar por passos.
1. Os tempos não são normais.
2. As escolas são pontos críticos de risco de transmissão do vírus por serem um lugar central para fluxos de circulação de pessoas nas localidades, com fluxos internos e contactos entre pessoas de volume elevado. Em alguns sítios valem mais de 50% dos fluxos de circulação da localidade e com raio territorial de dezenas ou centenas de kms.
3. O contágio pelo vírus é uma questão estatística, de risco probabilistico: quanto mais contactos maior a probabilidade. Um professor em 6 horas de aulas (um dia) tem contactos longos nas aulas com 120 a 200 pessoas. Numa semana de aulas podem ser milhares de contactos numa rede territorial larga.
4. As aulas são e devem ser presenciais porque isso assegura melhor o direito fundamental dos alunos à educação.
5. O risco de contágio gerado pelas aulas presenciais, ao promover tantos contactos, vale a pena em nome do direito fundamental à educação e em nome do futuro. É um serviço público essencial como manter hipermercados ou consultas médicas.
6. Tudo o resto, que se faz nas escolas e implica contactos pessoais, não tem esse valor promotor de um direito fundamental e põe em risco outros direitos fundamentais dos participantes (insisto, sem vantagem nenhuma ou nenhum interesse público relevante em ser presencial em contexto de pandemia).
7. A burocracia não prevalece sobre os direitos à saúde e segurança.
8. Nenhuma tarefa burocrática ou não letiva corre pior em teletrabalho.
9. Quanto mais contactos presenciais mais o risco. Estatística. E a protecção falha. E pode calcular-se o risco de falhar. Por isso, é sensato reduzir. Teletrabalho não letivo é como uma solução em espelho adaptada às escolas.
10. O teletrabalho para burocracia e reuniões é recomendado há anos, reduz burocracia, aumenta a eficiência e a motivação.
11. O teletrabalho docente não letivo reduz contactos potencialmente contagiantes e ajuda a sustentar a manutenção do objetivo principal das aulas que poderão acabar, se existirem surtos.
12. Se os ajuntamentos com mais de 10 pessoas estão proibidos, qual a coerência de manter os ajuntamentos da “reunite” escolar? Que podem muito bem ser realizados em teletrabalho.
Perceberam, Ex.mos/as Senhores/as Diretores/as?
Luís Braga, 18 de setembro de 2020

4 COMMENTS

  1. Não podia estar mais de acordo. A diversidade toca a todos, ignorá-lo é já um sintoma de que algo não está bem…
    O problema é que ouvir foi deixando de ser regra, o autoelogio moda e o debate caiu em desuso! Numa palavra, tudo o que fragiliza a tomada de decisão mais racional em função do contexto.

  2. Só lá ia com uma diretiva do ME a obrigar os diretores a fazerem isso.

    Achas que o ME se dava a esse trabalho? Nope… Portanto esquece.

  3. Subscrevo inteiramente a opinião de Luís Braga. É, aliás, a única lógica de atuação que deveria ser adotada. Além do trabalho burocrático, as sessões de acompanhamento de alunos, vulgo “apoio”, resultam de forma excelente em trabalho a distância. Haja coragem para vivenciar convenientemente a “autonomia” das escolas…

  4. A parte mais interessante da notícia é a que se refere ao tele trabalho… Até rolei pelo chão a rir a bandeiras despregadas… Mas qual te letra alho qual carapuça! Nós meses de confinamento estivemos a trabalhar, em casa, para o Estado! Aconselho, vivamente, a reverem o conceito de teletrabalho no Código do Trabalho antes de usarem a terminologia. Caso contrário, onde anda o computador e a rede de Internet que deviam ter colocado aqui em casa?

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