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O Terrível

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O Ivan entrou na sala chamando a si todos os holofotes, como sempre faz: a porta aberta de rompante, as cabeças a virarem-se, o discurso interrompido do professor. Caminha bamboleante e desarticulado, os ombros puxados à frente, como se fosse defender-se de um golpe a qualquer instante. A camisola de mangas à cava, de um vermelho puído, demasiado grande para o seu corpo de rapazelho franzino, espicha nas pontas com os vincos das molas do estendal. Nas sapatilhas, uma arrojada combinação de cores berrantes que atrairia todas as atenções, não fora o cheiro pestilento a peúgas em decomposição que delas voluteava a roubar para si todo o protagonismo.

Arrastou a cadeira teatral e ruidosamente e sentou-se de viés, com as pernas esticadas e afastadas, um braço apoiado no encosto da cadeira demasiado pequena, numa pose descontraída de esplanada. ‘Qué que foi?’, lançou para a plateia, a curva da sobrancelha levantada, os lábios arrepanhados a um canto num sorrisinho pretensamente sarcástico.

Na frente da sala, o professor, perdida a linha de raciocínio, apercebe-se do braço imóvel a caminho do quadro e deixa-o repousar ao longo do corpo. Os seus olhos cruzam-se com os do Ivan, como num duelo ao entardecer. A cena não é nova, é recorrente e cansativa.

Desde que começou o ano escolar, o Ivan já recebeu todos os castigos que a escola tem para comportamentos como o dele. Já ouviu repreensões de todos os professores, da directora de turma, do director da escola; já foi expulso da sala em todas as disciplinas, já foi castigado com tarefas na escola, já foi suspenso três vezes: primeiro um dia, logo em Outubro, depois três no segundo período e finalmente oito dias. Nenhum destes castigos o incomodou, assim como lhe será completamente indiferente o que o professor lhe disser ou fizer agora. Todos naquela sala, todos naquela escola, sabem disso. O Ivan tem dezasseis anos e está, pela terceira vez, no sétimo ano. Também reprovou uma vez no quarto, outra no quinto.

Não há nada na escola que o Ivan valorize. Não conhece ninguém para quem a escola tivesse sido uma mais-valia. Não consegue lembrar-se de uma pessoa – nem umazinha – cujo sucesso na vida admire ou cobice e que tenha tido o percurso escolar como ponto de partida. Acalenta secretamente o sonho de ser rico e famoso, de preferência antes dos vinte. Não sabe ainda bem como vai conseguir tal proeza, mas imagina-se a passear-se pelo bairro, em noite quente de arraial, a cumprimentar vizinhos e conhecidos que lhe dão palmadinhas nas costas e a quem paga cervejas e caracóis e frangos assados, como o primo Edgar, que cedo deixou a escola (lá está!) e foi trabalhar de servente de pedreiro para a França, de onde volta a cada a verão, a transpirar ‘eurrôs’ por todos os poros.

O Ivan não sabe como vai conseguir concretizar os seus sonhos, mas tem a certeza que o caminho para o futuro farto que ambiciona para si não passa pela escola. Também não sabe como irá o professor reagir desta vez, mas o descaso empossa-o de uma exaltação libertadora de super-herói: ainda o professor não esboçou um gesto e já o Ivan agita no ar os braços, brindando o respeitável público com dois portentosos piretes.

MC

Estendal

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