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O sonho molhado de professores e diretores portugueses…

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dormir-relaxar-sonharA frase é forte e chama a atenção. É intencional, o artigo que se segue, bem como a frase, é da autoria de Alexandre Homem de Cristo e revejo-me em tudo o que ele escreveu. Um esclarecimento: sobre  a questão da escolha de professores por parte das escolas sou a favor, MAS, não em Portugal… Enquanto formos uma sociedade de “tachos” e cunhas, onde é mérito é substituído por favores, mais vale deixar um organismo central responsável pela colocação dos professores, mesmo que este se revele incompetente em determinados momentos.

O SONHO FINLANDÊS DOS PROFESSORES PORTUGUESES

Hoje é dia da criança. Como falar de crianças é discutir o futuro, e este é em grande medida construído pelas crianças nas escolas, aproveito a ocasião para uma reflexão: o nosso sistema educativo elege os alunos como sua prioridade?

A dúvida ressurgiu-me na leitura da interessante reportagem de Isabel Leiria, publicada no jornal Expresso, acerca do sistema educativo finlandês e das razões que enquadram o seu reconhecido sucesso internacional. Por terras dos mil lagos, as escolas são pequenas, a indisciplina residual, os professores respeitados, os alunos gostam das suas escolas, a avaliação não vive dos exames, há espaço para a inovação e, no geral, respira-se motivação pelos corredores. Ou seja, a educação finlandesa é o sonho molhado de professores e directores portugueses.

Mas se há tantos a sonhar com o sistema finlandês, o que nos impede de absorver algumas das suas características para o nosso sistema educativo? Sim, já se sabe, a Finlândia não é Portugal, e muito do que nos distingue tem raiz nas nossas diferenças culturais – por exemplo, a sociedade finlandesa é mais homogénea e tem muito menos desigualdades sociais do que a nossa. Mas isso não justifica todo o resto, e só quem se recusar a ver deixará de constatar que várias das nossas diferenças resultam, afinal, de opções de ordem política ou social. Exemplos? Na Finlândia, o sistema está descentralizado (o português é dos mais centralizados da OCDE), a formação e o acesso à profissão de professor são extremamente exigentes (entre nós é uma formação menos exigente e com falta de reconhecimento social), e a autonomia existe mesmo para professores (na forma como organizam as aulas) e directores (que escolhem os seus professores, em vez de os terem atribuídos por via de um concurso centralizado de colocação, como o português). A lista de diferenças é longa e não é necessário esgotá-la para salientar o que dela sobressai evidente: na educação, o que nos separa da Finlândia é fruto das nossas escolhas, não de um qualquer fatalismo cultural.

Ora, visto que falamos de escolhas, a situação poderia ser só irónica mas tem o seu quê de trágico. É que tantos dos que invejam as maravilhas educativas na Finlândia são os que rejeitam, em Portugal, a adopção de algumas das suas boas práticas, como se o que funciona lá fora estivesse condenado a fracassar cá dentro. Nem vale a pena recuar muito no tempo, pois apenas nos últimos meses de debate político isso ficou esclarecido: a descentralização da educação para as câmaras municipais é criticada como uma desresponsabilização do ministério, elevar a exigência na formação dos professores é comprar uma guerra de greves e boicotes com os sindicatos, e se todos os directores pedem mais autonomia, nenhum quer ter o ónus de seleccionar os seus professores por receio das consequências (desde manifestações a impugnações em tribunal). Não há milagres, e por mais que se inveje o que os outros alcançam, quem recusa mexer-se acabará no mesmo sítio.

Podemos discutir por que é assim, sendo que me parece inegável que há uma razão que se destaca das demais. Por culpa de todos os partidos políticos, em Portugal, a educação é um espaço de luta ideológica onde o consenso parece impossível. Seja porque quem estiver na oposição vê aí uma oportunidade ideal para desgastar ministros. Seja porque a esmagadora maioria dos agentes educativos está alinhada com os partidos mais à esquerda do nosso parlamento – que cultivam o centralismo político e representam apenas uma pequena percentagem do que são as preferências políticas dos portugueses. Ao pé de Mário Nogueira, todos os ministros da educação dos últimos 15 anos foram uns perigosos neoliberais e a resistência sindical à mudança é tal que muitas medidas benéficas para os alunos têm sido arquivadas para prevenir as suas consequências sociais e políticas. De facto, não sei como é em todos os outros países, mas sei que, sem surpresa, na Finlândia as coisas são bem diferentes: por lá, a educação não serve de arma de arremesso no debate político.

É chegado aqui que retomo a pergunta de partida – o nosso sistema educativo elege os alunos como sua prioridade? – para lhe dar a minha resposta: não elege. Ele está, sim, ao serviço de uma guerra política interminável, que contamina cada decisão à medida dos calendários eleitorais e dos interesses de uns ou de outros. O que, inevitavelmente, afasta a discussão e as prioridades do que é essencial: a educação dos miúdos e a preparação do nosso futuro.

Podemos ficar fascinados com o sistema educativo finlandês e dissertar durante horas sobre todas as diferenças que nos separam da Finlândia, mas nenhuma é tão fundamental quanto esta: eles põem a defesa dos alunos em primeiro lugar, nós não. Hoje, no dia da criança, se há lição que devíamos mesmo aprender com os finlandeses é essa. Porque o futuro não se constrói numa trincheira.

Alexandre Homem de Cristo (2015). “O sonho Finlandês dos professores portugueses”. http://observador.pt/, 1 de Junho.

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