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O que vai no espírito de Mário Nogueira? (A opinião de um professor esquecido nas suas palavras)

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Obviamente não sei o que vai na cabeça do nosso endeusado líder sindical. O máximo de acesso ao seu pensamento é, além de ver as suas entrevistas, ler-lhe as palavras e estar atento.

Recentemente, deu uma entrevista ao DN que mostra bem as limitações efetivas aparentes do seu conhecimento concreto do problema que está a negociar. Ou, se não for ignorância dos dados, é pior, indicia o rumo que “a coisa negocial do tempo e do modo” está a levar.

Leiam a citação e, aparentemente, toda gente concorda com o que diz. Mas uma análise de conteúdo, mais atenta, mostra a fragilidade.

Como quase sempre, nestes exercícios de análise de discurso, conta mais o que não se diz do que o se diz.

Vejam o sublinhado da citação abaixo.

E acreditem que não é manipulação: nem minha, nem do jornalista. Quem quiser confirmar ao vivo e a cores, pode ver o vídeo aqui.

“DN- A possibilidade de parte do tempo ser devolvida sob a forma de créditos para a aposentação, que os sindicatos tinham proposto e o governo agora admite, é uma boia de salvação para este impasse negocial?

MN- Não é uma boia de salvação. Essa é uma questão que nós, sindicatos, pusemos desde o primeiro momento ao governo. Achei curioso, quer a senhora secretária de Estado [Alexandra Leitão], em entrevista que deu, quer o senhor primeiro-ministro, também em entrevista, terem referido isso, quando na reunião negocial – naquelas que contam, que valem, em que nós estamos a negociar os termos de um eventual acordo -, quando surgiu essa hipótese, essa proposta, a senhora secretária de Estado, com presença das Finanças, o que nos respondeu foi: “Isso está liminarmente posto fora de hipótese.”

DN- Mas agora é ou não uma hipótese negocial concreta?

MN- O que já dissemos foi que, por opção das pessoas, por opção dos professores, nós concordamos que parte ou a totalidade do tempo possa ser recuperado sem ser na carreira. Convenhamos que um professor que tem cerca de 60 anos, que trabalha há 38 ou 39, evidentemente tem vantagem e certamente optaria por recuperar esse tempo para efeitos da aposentação. Nomeadamente para despenalizar aquele que é o prejuízo que terá por não ter ainda 66 anos. E poder ter um impacto nessa despenalização. Agora, admito que a um professor com 20 e tal anos e que trabalha há meia dúzia o que lhe importa é que seja para efeitos de carreira, caso contrário não progride.

Os sindicalistas fanáticos dos grupos da “luta tremenda” dirão: qual é o ponto? “Muito bem dito” e gritarão contra mim e o mais suave que levarei será “traição” (veremos o balanço de traição, a seu tempo…).

O meu ponto é simples:

Referência detalhada, e de caso concreto, aos que têm cerca de 60 anos (Mário Oliveira Nogueira nasceu em Tomar, a 11 em Janeiro de 1958, 60 anos) e que trabalham há 38 ou 39 (deve ser o caso próximo ao de Mário Oliveira Nogueira). Engano sintomático na idade da reforma (que é realmente cerca de meio ano mais que 66 anos).

O uso curioso da palavra “admito” para os outros por contraponto ao “optaria”  (no caso dos 60, sabe de ciência própria, que há segurança da escolha). Desvalorização dos mais novos (“meia dúzia” de anos de serviço face aos impressionantes expressos 38/39 ou “20 e tal”).

E, finalmente, o uso de um exemplo limite (e inexistente) para contraponto: quantos professores de 20 “e tal” anos estão na carreira? Gente com 20 “e tal” anos é toda contratada e, na linha das suas prioridades, infelizmente não está a carreira, está o emprego e a precariedade (eu sei porque tenho em casa alguém de 30 “e tal”, como diria Mário, com o rigor e cuidado linguístico que o caracteriza).

Mas o mais grave é o que Mário Nogueira esquece no discurso: o contraponto aos que podem agarrar a concessão de 9 anos, ou parte, para a reforma, não são realmente os de “20 e tal” são os de “40 e tal” e mais (mas menos que 60) que não têm “meia dúzia de anos de serviço” (a maioria tem duas dúzias ou mais) e que foram apanhados a início/meio da carreira. É curiosamente essa maioria dos professores, a quem a negociação interessa, que Mário esquece na formulação do discurso.

E nestas análises linguísticas, em especial, tendo por objeto o discurso de uma pessoa cujo tempo profissional é todo dedicado a isto, esquecer a questão principal, elidindo-a no discurso público, até pode ser ato falhado, mas tem significado.

No limite, significa que Mário Nogueira já não entra numa escola há muito tempo e sonha acordado com salas de aulas rejuvenescidas. Como se diria noutros contextos: já não é deste mundo….

Se não se lembra de nós (a maioria de quarentões/onas e cinquentões/onas) no discurso, irá lembrar-se na ação?

Por isso, é que me parece que este dia 7 de Setembro, se for dia de alguma coisa, vai ser dia de desilusão.

Apesar de até gostar de pizzas…mas nem todas.

9 COMENTÁRIOS

  1. Fiz um “skimming” deste seu comentário, é certo. Mas dá para questionar:

    Mas afinal, qual é o seu ponto?

    Eu diria que o seu ponto é um processo de intenções, ligando as propostas referidas na entrevista à situação pessoal de um dirigente sindical, o que me afigura muito pouco honesto.

    Os professores sindicalizados responderam a um inquérito sobre a situação. E, se bem me lembro, uma boa maioria considerou que a recuperação do tempo de serviço devia ser considerada em negociação para uma reforma antecipada sem os cortes em vigor, e por opção do professor.

    Mas basta ouvir a escola para se ficar com uma ideia que é o que muitos professores pretendem e estão à espera.

    • Mais ainda,

      Mas que grande problema é esse dos verbos “admito” e “optaria”, da idade da reforma ser de 66,6 messes e não 66 anos (erro gravíssimo!) e da desvalorização dos professores mais novos por se referir a 30 anos e tal, 20 anos e tal, etc?

      É este o seu grande argumento, o seu grande ponto? – esta análise linguística?

      Olhe que francamente! Nesta altura? Quando precisamos de mais união e força, vem com esta análise linguística que é o seu “grande ponto”?

  2. às vezes conta mais o que não se diz, do que o que se diz….
    E como a Ana (será mesmo Ana?) deve ser falante de português fácil será perceber se se esforçar um bocadinho….
    E não previ bem o que os fanáticos sindicais viriam dizer…. pelo menos aí acertei….

    • Luís,

      Quer saber se me chamo mm Ana? É isso?
      Se acha que é importante para uma troca de palavras sobre o assunto, dir-lhe-ei que é o middle name.

      Já me dou ao direito de não me esforçar a entender o que o Luís, regra geral, escreve. Basta um en passant.

      O seu ponto de vista não é “simples”. É simplista. Basta avançar com argumentos de “fanatismo sindical” colando-o a quem discorda de si e, mais, prevendo que tal aconteça.

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