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O que pensa quem aconselha o Governo sobre as escolas

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O JN fez três perguntas a uma mulher e um homem, ela presidente do Conselho Nacional de Educação e ele presidente do Conselho das Escolas, que atuam junto do Ministério da Educação com aconselhamento para a tomada de decisões sobre escolas e ensino:

1. Considera que as escolas estão mais bem preparadas para o ensino à distância comparativamente com o período em que estiveram fechadas em 2020?
2. A falta de computadores para muitos alunos é o maior constrangimento ao ensino à distância?
3. O regresso ao ensino presencial devia ser gradual, por níveis de ensino ou por regiões com taxas de incidência menores?


Maria Emília Brederode, presidente do Conselho Nacional da Educação

1. Estão certamente mais bem preparadas porque tiveram pelo menos essa experiência anterior.
Para muitos professores, alunos e pais houve uma extraordinária experiência de autoaprendizagem digital. Foi um pouco aquele método antigo de aprender a nadar atirando-se ou sendo atirado à água. Neste caso, foi um pouco melhor porque houve uma grande solidariedade, criaram-se redes de professores que se ajudaram e aos alunos, professores de Informática deram o apoio possível a colegas, etc. De um modo ou de outro, adquiriram-se e foram distribuídos muitos mais dispositivos, recolheram-se e selecionaram-se programas e aplicações, houve intercâmbio de experiências. Os professores aprenderam mais sobre os seus alunos e respetivas famílias e que a organização, articulação e coordenação entre todos é necessária para as coisas correrem, não direi bem (não há boas soluções nesta situação!) mas o melhor possível.
Também terá havido o reconhecimento de que as aulas à distância não podem ser a mera reprodução das aulas presenciais, que as capacidades de atenção e concentração requerem muito mais estímulos e interações e ainda que se corre o risco de estar a reforçar um modelo de ensino excessivamente transmissivo e expositivo que nem “ao vivo” consegue motivar os alunos.

2. Para o ensino à distância via Internet é claro que a condição mínima é que haja um dispositivo (pode ser um tablet ou um telemóvel) e rede. Não é seguramente condição suficiente, mas é condição necessária. A formação – tecnológica, pedagógica e mediática – é também fundamental. Há outras formas de ensino à distância por via de outros média (televisão, rádio – para já não falar nos materiais escritos, impressos ou não) como o que tem sido ensaiado no estudiosas. Nenhuma destas soluções é a ideal. Procura-se a menos má, mas convém lembrar que, mesmo sem pandemia, não há situações ideais para todos.

3. Sim. A menos que as coisas melhorem muito globalmente, a reabertura deverá ser gradual e diferenciada – por graus de ensino (logo que possível abrir os jardins de infância e os dois primeiros anos do 1.º Ciclo e depois ir “subindo” por aí fora com a idade dos alunos) e por regiões (onde não haja casos, porquê manter as escolas fechadas?).

José Eduardo Lemos, presidente do Conselho das Escolas

1. Penso que estarão pouco melhor. Temos mais experiência organizacional e os professores aumentaram as competências de gestão das aulas e de domínio dos meios e tecnologias de ensino à distância. Uma boa parte dos alunos beneficiários da Ação Social Escolar, do Ensino Secundário, já terá computador e hotspot para acesso à Internet mas, relativamente à maioria dos alunos, não se evoluiu praticamente nada. E, quanto aos meios à disposição dos professores, tudo se mantém como antes, continuando estes a ter de emprestar os seus bens pessoais ao Estado e a colocá-los ao seu serviço.

2. Penso que sendo um importante constrangimento, não será o maior. Parece-me que os maiores constrangimentos advêm do deficiente planeamento do cenário de ensino não presencial. Repare que dos dois regimes previstos para aplicar numa situação de agudização da pandemia, se transitará diretamente para o mais radical e prejudicial – ensino à distância – sem passar pelo regime misto. Tal só pode ter uma de duas leituras e nenhuma delas abonatória para o planeamento efetuado: ou o regime misto é inadequado e nem sequer deveria ter sido previsto ou as escolas estiveram demasiado tempo em regime presencial e, nesta altura, já seria contraproducente a transição para o regime misto.
Não se percebe bem que, desde março de 2020 e até ao momento, ainda não se tenha resolvido a falta dos equipamentos, que inviabilizou o acesso de muitos alunos ao ensino à distância; não se percebe bem a resposta a dar aos alunos que não têm condições para terem aulas em casa; não se percebe bem a atual pausa letiva, poucos dias após os alunos terem a pausa de Natal. São muitos os ziguezagues no capítulo da avaliação dos alunos, etc.

3. Nesta matéria, entendo que devemos seguir as orientações dos médicos e dos cientistas, mas não tenho nenhuma objeção a que o regresso às aulas presenciais seja gradual, tendo por base o grau de ensino e/ou a situação pandémica a nível regional. Deve acontecer mal seja possível, onde for possível.

Fonte: JN

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