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O que pensa o aluno Cláudio Ferreira sobre a escola após 12 anos de ensino público?

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Gosto muito de ver alunos pensarem e escreverem sobre Educação. Eles raramente têm voz e é uma pena, eles conseguem analisar e sentir as coisas de uma forma diferente do resto da comunidade educativa. 5 de outubro é o dia mundial do professor, para mim que sou professor prefiro encará-lo como o dia da escola, da educação e indiretamente o dia dos alunos. Como tal quero partilhar convosco um artigo de um aluno que acabou de terminar o ensino secundário. Uma opinião entre muitas outras, mas vale a pena ler.

“O Ensino de Hoje, a Sociedade de Amanhã”

ensino_em_portugalÉ através do Ensino, que é feito em grande parte, embora não exclusivamente, nas escolas, que se prepara uma nova geração que terá, no futuro, a responsabilidade de continuar o trabalho das gerações mais velhas na construção de um país e de uma sociedade solidárias, inclusivas, felizes e harmoniosas. Por isso, é papel da sociedade investir na formação dos mais novos, para que estes possam continuar o seu legado. Para tal, é necessário dotá-los de conhecimentos que lhes permitirão a sua sustentabilidade, e consequentemente a sustentabilidade do país, ao formá-los para o exercício de uma profissão. No entanto, a formação de um jovem não pode descurar valores sociais, como a amizade e o amor, outras capacidades que serão indispensáveis na vida adulta, como cozinhar e discursar em público, entre várias atividades.

De facto, o Ensino de hoje em Portugal é restrito, e não dinâmico, é desencorajador, e não motivador, é antiquado, e não progressista. Atualmente, o Ensino de hoje passa por um conjunto de disciplinas que é definido para cada ano, tendo cada disciplina um programa de conteúdos a serem abordados que serão posteriormente avaliados. Ou seja, aquilo que se diz a uma criança ou jovem quando está na escola é que deverá “decorar” aquilo que lhe foi ensinado para que debite no teste, sem que este entenda o propósito ou a utilidade daquilo que está a aprender. Pois bem, este método só tem dois resultados possíveis: ou o jovem faz o sacrifício de “decorar” o que lhe foi pedido, debita aquilo no teste e elimina imediatamente tudo da sua mente ou simplesmente não se interessa, desmotiva-se e deixa-se afundar. E isto para não falar dos anos de Exame Nacional, que esses então são uma verdadeira luta contra o tempo na tentativa de preparar o aluno para um exame que não o avalia enquanto cidadão de uma sociedade, mas sim enquanto uma máquina de cuspir palavras, apenas lhe trazendo angústia e stress.

Efetivamente, aquilo que no meu entender deveria ser feito era dar mais liberdade ao estudante de escolher aquilo que realmente quer aprender. Em vez de existir um conjunto de disciplinas pré-definidas que o aluno tem de frequentar, deveríamos ter um leque muito mais vasto de disciplinas em que o aluno escolhe aquelas que mais lhe interessam. Por exemplo, culinária e oratória poderiam ser duas disciplinas a implementar no Ensino Básico, pois sempre seriam mais úteis do que as equações de terceiro grau ou funções sintáticas que se aprendem. Eu tive que as aprender, mas não lhes dou uso nenhum e já só me lembro dos seus nomes. Se fizesse um teste do Ensino Básico neste preciso momento, certamente que não tirava positiva. Então, qual foi afinal a utilidade do ensino de certos conteúdos para mim? Nenhuma. Por outro lado, outras disciplinas teriam de ser reestruturadas. No caso de Português, porquê que temos de analisar tão exaustivamente cada obra literária? E tantas num só ano? Porquê que não nos limitamos a lê-las e a analisar a mensagem que transmitem, como toda a gente faz com os livros que lê por livre e espontânea vontade? E já agora, porque não são essas obras da escolha do estudante? O tempo que se poupava poderia ser investido na componente da escrita, pois isso sim será uma ferramenta importante para o futuro adulto. A disciplina de Formação Cívica, que foi descontinuada, deveria ser reintroduzida, com mais carga horária, com a abordagem de conteúdos mais abrangente, desde o voluntariado à cidadania, coordenada com atividades enriquecedoras e motivadoras dos alunos.

Quanto aos Exames Nacionais, esses não deveriam ter o peso que têm e apenas deveriam ser realizados, no meu ponto de vista, ao nível do Ensino Secundário. Os exames apenas deturpam o ensino e não permitem aos docentes explorarem os conteúdos e trabalharem com os alunos de forma motivadora e saudável, pois apenas enfatizam as metas a comprimir para a sua realização. No Ensino Secundário devem ser feitos como forma de seleção para o Ensino Superior, apesar de, ainda assim, não deverem ser o único método de seleção de alunos, como o são até então. O Ensino Superior é o último nível de preparação académica para o exercício de uma profissão, pelo que deve valorizar todos os componentes que as profissões dos diferentes cursos têm em conta. Assim, não podem apenas valorizar os conhecimentos científicos, mas têm também de valorizar a pessoa enquanto cidadão e ser humano. Na verdade, a par do que já acontece em vários países na Europa, a candidatura ao Ensino Superior deveria ser como uma candidatura a uma vaga de emprego, contemplando também a elaboração de um currículo.

Em suma, é através do Ensino que podemos transformar a nossa sociedade, tornando-a cada vez melhor, daí que a maneira como o proporcionamos às nossas crianças e jovens deva ser muito bem reestruturada. No futuro, gostaria de ver uma sociedade formada por pessoas e não por máquinas programadas para executar tarefas.

Cláudio Ferreira

Aluno de Ensino Superior

*artigo retirado daqui com a devida autorização do seu autor.

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