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O Que Nos Reserva O Futuro?

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«Faz poucos dias, coube-me em sorte ser chamado ao que, inicialmente, pensava ser uma substituição numa turma do terceiro ciclo, mas estava enganado; fui exposto a um momento de revelação.

O que reside atrás da testa de cada um tem o seu quê de mistério, até que abram a boca para falarem sobre os seus pensamentos. E que pensamentos!

Por motivos que agora não vêm ao caso, impôs-se a necessidade de abordar com os alunos a importância de os professores estarem na escola para os preparar para o futuro; para um tempo que será mais difícil para eles do que foi para a nossa geração.

Perguntei-lhes se saberiam qual o motivo das dificuldades que se preveem para eles. Após alguns segundos em que venceu o silêncio, eis senão quando alguém deixou escapar uma ideia: futuramente, a sua vida iria ser mais árdua, porque teria de pagar as reformas dos mais velhos. Reformulei a pergunta mais duas vezes, mas uma e outra vez, irrefutavelmente, voltaram a dizer que a população estava a envelhecer e que, por esse motivo, eles teriam de trabalhar mais para poder pagar as reformas dos idosos; que, por terem de pagar as reformas desses idosos, que são cada vez mais, a sua vida iria ser mais dura.

O seu discurso exalava um perfume de ingratidão infantilizada cuja profundidade eles próprios desconheciam.

Então, tentei fazer chegar até eles que, a meu ver, as coisas não se apresentam assim.

Calma, a minha voz atreveu fluir palavras inesperadas que pairaram sobre os seus pensamentos antes de pousarem com estrondo.

Perguntei-lhes se já tinham pensado que muitos desses idosos, com a idade deles, que ali estavam sentados, já trabalhavam arduamente e fizeram-no durante toda a vida. Que não puderam estudar, porque há umas décadas atrás as pessoas só estudavam até à 4ª classe, atual 4º ano, por falta de condições económicas, uma vez que o ensino não era gratuito, nem universal e destinava-se apenas às elites ou a pessoas com posses. Que muitos deles iam descalços para a escola ou percorriam quilómetros a pé para chegar a um espaço com poucas condições que, na maioria dos casos, não dispunha de aquecimento nem de todas as mordomias e equipamentos de que eles desfrutam. E que, mesmo que quisessem, não tinham oportunidade de seguir os estudos académicos.

Fitaram-me parecendo não perceber a destino das minhas palavras. De uma forma ainda mais incisiva, questionei-os se sabiam quem tinha contribuído com o dinheiro dos seus impostos e o fruto do seu trabalho para pagar o mobiliário, os meios audiovisuais, o edifício escolar, os transportes e os técnicos, professores e auxiliares, para que hoje eles possam usufruir de uma escola com a qualidade que outros não tiveram.

Com a exceção de um único aluno que aparentava ter ideias próprias, o vazio de opiniões, a parvoíce e a infantilidade atitudinal para aquela faixa etária tomaram conta daquela sala.

Prossegui, dizendo-lhes que não serão eles quem terá de pagar as reformas da população mais idosa, pois essas pessoas trabalharam uma vida inteira e fizeram os seus descontos para terem direito a uma aposentação. A reforma que estão ou irão desfrutar é obtida com o dinheiro de impostos que descontaram e que lhes pertence.

Por muito tempo olharam-me deixando-me na dúvida se tinham entendido o que dissera ou se estariam a meditar.

Acreditando que nenhum conhecimento se impõe, não pretendia convencer ninguém, apenas apresentar-lhes outras paisagens, levá-los a confrontar ideias e a olharem em redor com outros olhos.

Por alguns instantes, deixando-os falar, permaneci calado conversando com os meus pensamentos, perguntando-me:

Como seria possível chegar-se ao ponto de uma sociedade pensar em mandar os velhos morrer longe?

Como pode um individuo ter tanta dificuldade em se colocar na posição do outro?

Qual será o futuro de uma sociedade alicerçada em tão desmedido egocentrismo?

E tanto egoísmo, nasceu de onde?

Quem poderia, todavia, iludir estes jovens levando-os a acreditar nesses valores?

Não serão os jovens a ter de pagar a reforma a ninguém, muito menos estes que, provavelmente, nunca na vida terão sentido o suor da labuta.

Mais importante ainda, são os tais idosos quem paga e pagou para que eles possam ter aquelas condições para poderem estudar e, por isso, mereciam todo o respeito.

Perante o olhar atónito daqueles adolescentes que, na reação às minhas palavras ficaram em silêncio, por quanto parecia não compreenderem inteiramente o significado do que eu acabara de dizer, fiquei com a impressão de que só lhes tinham feito ver as coisas por um único ângulo.

Depois, a conversa desenrolou-se por outros caminhos, mas o teor daquelas ideias não conseguiu desapegar-se de mim.

O que mais me preocupou, foi a constatação de uma geração que nunca fez nada, antes sequer de ingressar no mundo do trabalho, já estar a criticar a geração que trabalhou tanto na vida para que nada lhes faltasse.

Nós e os nossos pais, desde criança sabíamos qual era o valor do trabalho, pois ajudávamos os nossos pais e trabalhávamos nas férias. Nos países nórdicos os adolescentes realizam 4 horas semanais de trabalho comunitário para aprenderem o valor do trabalho e prepararem-se para a vida ativa. No nosso país, temos a geração mais mimada e superprotegida de sempre por pais helicópteros, que nunca fizeram nada nem sabem o que é trabalho, a terem uma opinião crítica para com quem trabalhou toda uma vida. E isto é verdadeiramente preocupante, uma vez que é demonstrativo da forma como esta juventude encara os idosos e irá olhar para nós daqui a uns anos. Considerar-nos-ão como uma despesa, uma sobrecarga para eles e para a sociedade, na essência, um peso a descartar.

Enquanto conversavam, como um caçador furtivo, fugi do conforto de mim mesmo para encontrar uma explicação. Olhei-os nos olhos e infiltrei-me no seu âmago percorrendo o caminho que me levou até à fonte daquelas ideias. Trilhando por aquela senda, fui conduzido até às suas casas, lugar onde estavam as respostas para todas as perguntas.

O impressionante é que esta maneira de pensar não nascera do nada, veio de lá, dos seus lares; é o reflexo daquilo que os pais julgam, fruto do que muita comunicação social vem veiculando, pelo que, mais do que preocupante, é grave, pois demonstra o que pensam da geração aposentada que tanto se sacrificou por eles. Uma classe política que se reforma ao fim de poucos anos de serviço público, é a mentora desta ideia que se propaga facilmente numa população desinformada.

Avós que foram a tábua de salvação para tantos filhos e netos e que, ainda hoje, contribuem nessa ajuda, serem olhados desta forma, não é justo nem aceitável.

A noite caíra com pesar sobre o dia e, algum tempo depois, todos esvaziaram a escola deixando-me imerso no enorme vazio que aqueles jovens deixaram para trás.

Neles, a multiplicidade de ideias estava defunta como água num deserto, num espaço onde vagueou à solta de boca em boca um pensamento único que me atemorizou e perseguiu até agora.

Até que os pensamentos se calassem, não deixei de refletir que algo de muito errado se está a passar nos valores e ética numa sociedade com excesso de egoísmo e falta de humanidade.

Será isto que nos reserva o futuro?»

Texto do colega Carlos Santos

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1 COMENTÁRIO

  1. Excelente e clarividente texto, que traça a ferro e fogo, o que nos espera. Já há muito tempo que observo a avidez com que os jovens ocupam os lugares nos transportes públicos, ignorando ostensivamente os idosos que por ser mais lentos, fazem o seu trajeto de pé.

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