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“O que menos interessa nas escolas são as aprendizagens significativas só não podem faltar os papéis” – Ruy Ventura

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As escolas fecharam. A vozearia acalmou. O povo parece mais sereno. A gerência da nação fez o que lhe competia (sem convicção, obrigada pela “opinião pública” e pelos “especialistas”). As vozes acalmaram? Não. Infelizmente, não. Para espanto de muitos, há agora quem proteste por não continuar a dar aulas “online” (essa maravilha “fatal” da nossa idade…), há quem resmungue prevendo menos dias de paragem carnavalesca ou uma interrupção da Páscoa resumida aos dias centrais da Semana Santa, há quem espume por ser tudo uma tramóia destinada a encobrir negociatas, há quem estrebuche (por tudo e por nada, como é costume)…

Infelizmente, vejo muito poucos a dizer que esta paragem, seja de quinze dias ou de mais tempo, poderia ser assumida como uma espécie de “ano zero” do sistema educativo. Um tempo oportuno. Ninguém avançaria (qualquer avanço nas circunstâncias actuais será sinónimo de avanço coxo ou de faz-de-conta). Todos parariam para pensar no muito (muitíssimo!) que é preciso mudar na instrução e na educação em Portugal. Ninguém morreria por demorar mais um ano a chegar à faculdade. Todos ganharíamos se se fizesse uma discussão séria dos problemas que estão a apodrecer (que digo? … a gangrenar…) as escolas portuguesas.

Sem saudades do passado (que não foi brilhante) e sem futurismos de pacotilha (que, na realidade, não passam de exercícios de recauchutagem de “teorias” velhas e vãs, promovidos por interesses inconfessáveis de alguns influentes das “ciências” da educação), no nosso sistema educativo é preciso mudar quase tudo. Começando na formação inicial dos professores, essa mudança passaria pela alteração das habilitações para a docência, avançaria pela humanização dos curricula (despindo-os de gorduras ideológicas e perigosas), pela criação de rigorosos, justos e equilibrados modelos de avaliação das aprendizagens, continuaria pela modificação do sistema de acesso ao ensino superior e terminaria na reorganização das escolas, agilizando-as e apagando nelas todos os instrumentos de reprodução social aí existentes, para nossa vergonha (se vergonha ainda temos).

Embora haja quem tente disfarçar, o actual sistema de ensino é, na sua essência, uma ferramenta nas mãos de uma “cultura de descarte”. Só não é pior porque, graças a Deus, ainda há pessoas conscientes e resistentes nos diversos estabelecimentos de ensino. As escolas precisam de ser um contraponto eficaz à cultura tecnocrática e argentária que promove a mediocridade e o relativismo ético. Deveriam promover uma cultura humanista, um pensamento informado e o espírito crítico, elevando pilares que sustentassem em cada cidadão um discernimento válido, sem o qual ninguém sobreviverá mentalmente no meio do vendaval que caracteriza a mudança de civilização que nos rodeia. Para se chegar a tal meta, parece-me necessário repensar quase tudo, ajustar imenso, corrigir o que está mal (e é tanto!) e introduzir nas instituições uma lógica completamente distinta da que tem estado em vigor e nos envenena.

Ao contrário do que afirmam tantos vultos interesseiros, o problema da escola portuguesa não reside na sua maior ou menor adaptação às “exigências” económicas da contemporaneidade. O problema daquela que deveria ser a instituição central do nosso país reside, antes, na erosão de qualidade que a afecta há várias décadas, na subtil manipulação ideológica de que tem sido alvo. Deixando de ser, a pouco e pouco, uma referência nos domínios do conhecimento, da ética e mesmo da técnica, tem-se transformado num simulacro de si própria, numa cópia por vezes grotesca de um modelo que, se existe ainda, há muito está em paradeiro desconhecido.

A gestão, antes democrática, apesar de todos os seus defeitos, não se tornou “profissional”, mas antes autocrática e – quantas vezes – discricionária. As habilitações para a docência continuam com critérios abstrusos; desvalorizam completamente o curriculum global dos professores e confinam a sua acção ao espartilho de uma “formação inicial” (ou seja, à camisa de forças da licenciatura que tiraram no início da sua idade adulta). A coordenação pedagógica poucas vezes é entregue aos mais competentes ou àqueles que têm apetência e perfil para tais cargos, mas aos “fiéis”, àqueles que dizem “ámen” a tudo, a quantos dão garantias de “sucesso” de uma lógica burocrática e “tecnológica” de controle sobre tudo e todos. A participação das famílias, pouco informada, não tem sido incentivo à qualidade, mas força de pressão e de bloqueio, impondo tantas vezes o facilitismo e a desculpabilização de comportamentos desviantes. A exigência, como estratégia que elevaria o conhecimento e a ética dos alunos, é há muito apenas uma miragem – e os raros que pugnam por ela sofrem pressões de vária ordem, sendo atirados para o lado, num doloroso processo de centrifugação. A avaliação consequente das aprendizagens é algo que, admitamos, existe cada vez menos, travestida pela ironia de uma “inclusão” que é, na realidade, exclusão dos mais fracos ou, melhor, o seu confinamento numa gaiola de menorização individual e social. Vale ainda a pena lembrar o modelo de avaliação dos professores: baseado na inefável “formação contínua” (que bem mereceria chamar-se “deformação”), no “tempo de serviço” e em critérios escondidos ou opacos, tem condenado milhares de professores ao congelamento eterno das suas carreiras, por melhor que seja a sua prestação dentro da sala de aula.

Como escreveu há pouco um dos melhores professores de Espanha (a malina não é apenas portuguesa), já só uma missa de requiem quadra bem aos docentes. Foram transformados em burocratas e, diga-se em abono da verdade, transformaram-se eles mesmos em tal nefasta espécie, impondo-se mutuamente uma lógica de papelada ou infernizando os que não entram nela. Neste momento, o que menos interessa nas escolas são as aprendizagens significativas dos alunos, o seu crescimento humano, intelectual e ético. É irrelevante dar uma boa ou uma má aula, avaliar com rigor ou sem ele. Só não podem faltar os papéis, as grelhas, os impressos, as “evidências”, os formulários, os “planos”, os “documentos”… Isso não pode faltar. Tudo se sobrepôs à aprendizagem. A última mortalha foi o chamado “ensino à distância” que, bem espremido, pouco sumo deita, mas satisfaz tanta gente, tanta gente… Por detrás de um ecrã, não há maus professores nem maus alunos. A indisciplina elimina-se com uma tecla. A fragilidade científica ou pedagógica encobre-se com um powerpoint… Somos todos perfeitos. Desumanos, burocratas, mas perfeitos.

Este cenário, facilmente comprovável, justificaria um ano zero do sistema educativo, onde tudo se repensaria, afastados de antemão aqueles que tanto interesse têm na manutenção das coisas como estão. O Estado somos nós, a sociedade somos nós. Todos temos responsabilidades nisto – e em muito mais. Nem que seja por omissão. Muito ganharia o país se tal sucedesse e aproveitássemos o tempo oportuno concedido por esta pandemia. Infelizmente, não são grandes as minhas esperanças. Com Dante Alighieri, sei que a concretização da esperança tem como condição prévia o apagamento da vileza. Quem sabe, no entanto, hoje em dia o que é “a vileza”? Vivemos um tempo em que poucos sabem que coisa querem, que alma têm – nem o que é mal e o que é bem, como disse Pessoa. Ainda assim, vale a pena escutar um dos sábios do nosso tempo, José Mattoso: “talvez tenhamos de viver dias difíceis. Ou mesmo muito difíceis.” Mas quem se identifica com os melhores mestres “não pode ter medo de nada”.

Escritor e investigador

1 COMMENT

  1. Partilho o desassombro relativamente à escola que temos e que desanima todos os que continuam a pensar que o conhecimento é a coisa mais preciosa que temos, que exige trabalho e resiliência.
    Subscrevo a ideia de que a palavra se ausentou da escola e a papelada substituiu a participação, o debate e a reflexão crítica.
    Recordo-me que houve um tempo em que as reformas educativas e outras alterações eram submetidas à análise crítica das comunidades educativas. Havia espaço para o debate, os professores eram membros ativos na comunidade e não peças de uma “máquina oleada” por uns quantos programadores do presente e “engenheiros do futuro”, com receitas de pacotilha para mudar, em pouco tempo o rosto do mundo.
    Dir-me-ão que de nada adiantou o debate, afinal percorremos o caminho até aqui. É verdade, mas pelo caminho a palavra foi-se ausentando, foi-se apagando um universo essencial no tempo, no espaço e na hierarquia escolar. Projetos sonantes foram chegando, grávidos de esperança para mudar, mas que foram partindo sem deixar grande rasto. Claro que admito exceções, que se prenderão mais com a qualidade das lideranças e com a cultura de cada escola foi capaz de construir para lá do marketing.
    Sem tempo para criar, professores e alunos, a burocracia, exaustiva, redundante, imensa, foi-se acumulando, criando a ilusão de que se caminhar em direção a um fim. O problema maior é que tudo isto roubou muitas horas à preparação de aulas, à investigação (sublinho o seu caráter essencial num tempo acelerado), à leitura, ao ócio criativo, a tudo o que nos permite lançar um olhar mais atento aos alunos.
    Tal como Sísifo, em cada ano, o processo é reiniciado e perde-se o rasto a quase toda a informação produzida anteriormente, que pelo seu volume é, obviamente indigerível, ou seja, sistematizável! Quantas vezes nos pedem para fazer as mesmas coisas?
    É por tudo o que disse que não posso concordar com a proposta relativa ao ano zero.
    O ritmo perdeu-se, a coesão, corroída pela indisciplina, provavelmente também. Perdeu-se, sobretudo, a experiência participativa e a ilusão. Há anos que vivemos isolados e a palavra exige prática, estabelecimento de laços. Foram muitos anos a desmontar e agora, o que nos resta, são peças, muitas delas dispersas, cuja “coerência” tem sido iludida pelo discurso do sucesso plasmado em números mais ou menos mascarados, apoiados por muitas grelhas e justificações (?) e alguns discursos otimistas de especialistas e dirigentes!
    Estou também absolutamente convencida de que para os alunos seria um preço demasiado elevado. Nem eles, nem as famílias, estão preparados para aceitar um ano zero. Foram educados (sim, pode-se educar bem ou mal) para avançar, a qualquer custo, e muitas vezes, com um descomprometimento ético que assusta e sobre o qual me pergunto hoje, muitas vezes, que peso terá esta má educação na dificuldade que muitos estão a sentir, não apenas em Portugal, em cumprir regras fundamentais para combater a pandemia.
    Vivemos tempos difíceis, críticos, em particular para a cultura, que foi o setor mais afetado na UE (in Público 27.01.21). É também um tempo de grandes desafios, que Irene Vallejo capta com grande lucidez, num tempo que é atravessado, de forma cada vez mais desigual, pelos cidadãos:
    “(…) Os patrícios e aristocratas valorizavam o saber e a cultura, mas desprezavam a docência. Verificava-se o paradoxo de ser honorável aprender o que era ignóbil ensinar.
    Quem nos diria que em tempos da grande revolução digital voltaria a ganhar força a ideia aristocrática da cultura como um passatempo de entusiastas. O velho refrão soa outra vez, repetindo que se escritores, dramaturgos, músicos, atores, cineastas querem comer deviam procurar um ofício sério e deixar a arte pra os momentos livres. No novo enquadramento neoliberal e no mundo em rede – curiosamente, como na Roma patrícia e esclavagista, reclama-se que o trabalho criativo seja gratuito.” (in, “O Infinito num Junco”, p. 283)

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