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“O que é isso da participação dos pais na escola?” “Quando falo não me ouvem e quando me ouvem descarrilam depois uma série de rosários”

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Julgo que a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro é algo extremamente positivo. Na sequência do artigo Mães e a Influência nos Resultados Escolares, a mãe Ana Sousa calçou os “chinelos” e partilhou as suas angústias no relacionamento que existe entre escola e professores.

Uma reflexão que todos deviam fazer, pais e professores.

pais-e-professores

“Revela ainda a importância da escola desenvolver todos os esforços possíveis para envolver mais os pais no processo educacional dos filhos. Realidade que todos os professores já sentiram por vezes ser é muito complicada.” – Nota introdutória ao artigo “Mães e a influência nos resultados escolares”

Estava a a nota introdutória ao artigo e detive-me neste parágrafo, não consegui ir além dele. Ficou a martelar-me na cabeça como martelo na bigorna amolecendo o aço duro que por vezes é este emaranhado de pensamentos a que me voto.

Descalço o profissionalismo, calço os chinelos de trazer por casa e como mãe atravessam-me mil questões ás quais urge dar resposta.

É esta de fato uma realidade? E será assim tão taxativa? Vejamos, já o disse e repito várias vezes que não gosto de ver particularizado o que é geral nem generalizado o que deve ser visto na esfera do particular, esta é uma dessas situações.

Quando não me envolvo na escola é porque não me envolvo e por tal descuido do meu papel de mãe agente ativo no processo educativo do meu filho, quando me envolvo é porque sou a mãe chata, abelhuda, que desculpabiliza o filho de tudo, que infantiliza o miúdo, que só reclama, que não sabe ser subserviente com o que ouve, castigar o garoto em casa e mandá-lo estar quieto e sossegado nas aulas, ou enfiar-lhe uns comprimidos pela goela abaixo para acalmar o rapaz.

Honestamente ter capacidades financeiras ou não neste momento já nem me passa pela cabeça que o artigo perdeu todo o seu interesse depois deste parágrafo me ter feito parar o miolo.

Honestamente não sei o que é isso da participação dos pais na escola, de os envolver no processo educativo dos filhos, já que quando falo não me ouvem e quando me ouvem descarrilam depois uma série de rosários que contas feitas acabam sempre na frase do costume “aquela é daquelas que tem a mania que sabe tudo, está sempre a defender filho, mal ela sabe o que tem em casa, deve deixá-lo fazer tudo e depois dá nisto”.

Como é que eu sei que são estas as contas do rosário? Bem… quando não trago os chinelos de trazer por casa, estou do outro lado da barricada e muitas vezes é isto que se ouve… certo?

Não precisamos responder todos nem nem de se sentirem insultados pelo que acabo de dizer, nem vir a correr defender a classe porque também não a estou a atacar, estou apenas a perguntar-me que raio é isso de “envolver os pais no processo educativo dos filhos”, é que só ser chamado à escola para ouvir o tanto que o miúdo não é capaz, para justificar uma agitação que cedo se apelida de hiperatividade (soubessem muitos o que é ser verdadeiramente hiperativo e isto mudava de figura), um pronto discurso de falta de educação e de quase delinquência, quando o miúdo está apenas e tão somente a exercer o seu direito a ser criança, a errar, a experimentar ser gente de todas as maneiras erradas que é próprio da idade da parvalheira, quando a isto tudo se soma o sairmos do espaço escola com a nítida sensação que somos péssimos pais e que tudo o que ensinámos os nossos filhos está errado, digam-me lá que raio é isso de “envolver os pais no processo educativo” e que “realidade é essa que todos os professores já sentiram ser muito complicada”. Não entendo.

E não entendo como mãe e muito menos entendo como profissional. Não creio que haja uma efetiva participação dos encarregados de educação na escola, porque não creio que hajam diretrizes claras a esse respeito. Não me parece que as festas e demais atividades do PAA sejam tão somente o tanto que se quer para o envolvimento dos pais, nem a sua chamada para resolver problemas que deviam ser resolvidos em espaço sala com os professores seja uma forma de apelar ao envolvimento destes.

Claro que não são todos os miúdos, e claro que não são todos os pais… lá está, não podemos e não devemos fazer afirmações generalistas quando se impõe a particularidade das coisas.

Vou manter os chinelos de trazer por casa para conforto dos demais e dizer mais uma pequenina coisa para que possam criticar de forma serena a minha postura: creio que está na hora de se envolver os pais no processo educativo dos filhos, ouvindo-os respeitando-os e com as informações recolhidas fazer por melhorar as relações estabelecidas com os alunos e por conseguinte o seu rendimento escolar. Aproveitar este contato para valorizar, para aprender e não tão somente para descarregar angustias e frustrações, porque nem todos os miúdos são iguais, embora todos de igual forma sejam traquinas, mal educados, arrogantes, desafiadores, mesmo quando não foi isso que aprenderam em casa.

“Assim sendo é imprescindível possibilitar que as escolas possam adequar as dinâmicas à sua realidade e ao seu público, reforçando a sua autonomia e reconhecendo a importância decisiva que os profissionais educativos e as escolhas feitas por estes têm no sucesso dos alunos e consequentemente nas suas aspirações futuras.” Ao que acrescentaria, e a importância que as famílias a e relação inter e intra institucional que estabelecem com as escolas, desde que, claro está devidamente valorizadas e enquadradas em diretrizes claras para ambas as partes, sejam também elas consideradas de caráter imprescindível, e não apenas porque fica politicamente bem dizê-lo ou porque servirá mais tarde para se dizer o tanto que falham e como o sistema de ensino é o único bastião da moral e valores que se julgam perdidos nas famílias portuguesas.

Ana Sousa

1 COMMENT

  1. Já fui chamado à escola por causa do comportamento do meu filho… Embora eu o tente educar devidamente, como todas as crianças, por vezes, ”descamba”…! Quando fui chamado, e me expuseram os factos, limitei-me a pedir desculpa: em seu nome e no meu. Depois ele também cumpriu o que deve e desculpou-se assumindo o disparate… É normal que os miúdos sejam traquinas, que façam umas asneiras… Já não é normal serem mal educados, arrogantes e que os pais os desculpem, sistematicamente, quando cometem erros…
    Concordo que os pais não devem ser chamados à escola apenas para receberem ”ralhetes” mas não devem ser convenientes com as parvoíces contínuas dos seus educandos…
    Infelizmente, e porque também vou a reuniões como encarregado de educação, oiço críticas à escola, aos professores, aos colegas dos filhos, que nem sequer parecem de indivíduos adultos… E são quase todos os rebentos, em geral, génios… incompreendidos… mas génios!

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