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O Quadro (Des)Colorido Da Escola – Helder Ferraz

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Isto j√° se tornou uma trilogia com resposta e contra resposta. ūüėČ

O quadro Negro Da Escola

(Helder Ferraz)

O Quadro Branco, E Interactivo, Da Escola

(resposta no mesmo dia de João André Costa)

O Quadro (Des)Colorido Da Escola

(resposta no dia seguinte de Helder Ferraz à resposta de João André Costa)

√Č ir√≥nico que em Portugal quando se escreve algo sobre um paradigma ou modelo venha sempre algu√©m na defesa de uma ‚Äúclasse‚ÄĚ. √Č ir√≥nico e estranho. No caso da educa√ß√£o, mais concretamente a educa√ß√£o escolar, h√° sempre algu√©m que vem defender ‚Äúos professores‚ÄĚ e justificar a falta de recursos nas escolas, a aus√™ncia de condi√ß√Ķes na sala de aula, o pouco investimento dos diferentes governos na educa√ß√£o e at√© as escolas com contrato de associa√ß√£o reaparecem para justificar n√£o se percebe bem o qu√™ ‚ÄĒ e¬†surge tamb√©m uma conspira√ß√£o que amea√ßa o ensino p√ļblico. Assim o fez Jo√£o Andr√© Costa no P3, numa cr√≥nica intitulada¬†O quadro branco, e interactivo, da escola, e que parece ter a pretens√£o de afirmar uma posi√ß√£o relativamente ao que escrevi numa outra cr√≥nica, tamb√©m no P3,¬†O quadro negro da escola.

Posto isto, √© necess√°rio clarificar algumas quest√Ķes:
1) quando me refiro √† necessidade de uma mudan√ßa de paradigma ou modelo ‚ÄĒ como preferirem ‚ÄĒ, est√° impl√≠cito que as mudan√ßas t√™m que acontecer a v√°rios n√≠veis, pol√≠tico, institucional e, certamente, por parte de todos os agentes escolares envolvidos (assistentes operacionais, professores, t√©cnicos especializados e outros);
2) porque motivo uma mudan√ßa de paradigma na educa√ß√£o ter√° que conduzir √† privatiza√ß√£o do sistema educativo? N√£o encontro qualquer motivo para tal associa√ß√£o; pelo contr√°rio, considero absolutamente necess√°rio um sistema educativo p√ļblico devidamente refor√ßado com os meios humanos e materiais necess√°rios, al√©m de uma reflex√£o profunda acerca das mudan√ßas organizacionais e curriculares que devem ser levadas a cabo. E, nesse sentido, muito recentemente, a Direc√ß√£o-Geral da Educa√ß√£o iniciou um projecto piloto com o intuito de¬†introduzir a autonomia e flexibilidade curricular¬†em algumas escolas;
3) apesar de todas as dificuldades que as escolas p√ļblicas enfrentam em Portugal, a¬†Escola da Ponte¬†n√£o se ficou a queixar dos materiais, das instala√ß√Ķes e dos trov√Ķes que assustam os mais sens√≠veis.¬†O professor Jos√© Pacheco n√£o se contentou e transformou uma escola na Vila das Aves/S√£o Tom√© de Negrelos, Santo Tirso, numa escola p√ļblica cujo paradigma contraria a norma. A este respeito escreveu Ruben Alves um livro cujo t√≠tulo √© o seguinte:¬†A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir.

Bem, o quadro at√© pode mudar de cor; pode ser negro, branco ou √†s riscas, que n√£o ser√° nem pela cor nem pela presen√ßa do quadro que as aulas ser√£o mais ou menos inovadoras. E estou certo que entre muitos dos professores que o Jo√£o sugere que sejam reformados devem¬†estar muitos com muito para oferecer ‚ÄĒ e certamente com muito para inspirar, assim como existir√£o entre os professores mais jovens excelentes profissionais, dedicados e criativos, e uns tantos que n√£o fazem jus¬†√† sua profiss√£o. Mas √© assim em todas as profiss√Ķes, n√£o √© verdade? √Č por isso que esta defesa de uma classe por algu√©m que se autoproclama o porta-voz tem muito que se lhe diga, principalmente quando se defende a si e √† sua classe por ataque algum que tenha sido feito.

Por fim, talvez o João tenha interpretado o que escrevi da forma que achou mais conveniente e a esse respeito nada posso fazer. Gostaria, contudo, de colocar aqui a nota que faz parte do final da crónica da minha autoria, e conta assim:

‚ÄúNota: h√° 20 anos tive um professor de Introdu√ß√£o ao Desenvolvimento Econ√≥mico e Social, no 12.¬ļ ano, que informou os estudantes que as aulas se desenvolveriam atrav√©s de not√≠cias da actualidade, ou assuntos, que fossem pertinentes para aquela disciplina, e que a partir da√≠ se geraria um debate por forma a que se fizesse a liga√ß√£o com os conte√ļdos program√°ticos. Este modelo encontrou entusiasmos em cerca de tr√™s dos 23 estudantes, e os debates tamb√©m eram participados por um n√ļmero reduzido de estudantes. Foi apresentada uma queixa na direc√ß√£o da escola por uma parte substancial dos estudantes da turma com a justifica√ß√£o de que o professor em causa n√£o estava a seguir o manual da disciplina, nem a preparar os estudantes para os exames nacionais‚ÄĚ.

A minha m√£e dizia frequentemente, quando eu e o meu irm√£o √©ramos crian√ßas: ‚ÄúOs meus filhos at√© podem andar com a roupa rasgada, mas andam sempre limpinhos.‚ÄĚ

Helder Ferraz, in “P√ļblico”, 7-8-2019

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