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O Prolongamento Do Ano Até 26 De Junho E Os Hipotéticos Cortes Nos Vencimentos – Carlos Santos

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A fumaça à distância chama a atenção. Se fosse possível simplesmente ignorar…
Acontece que, onde há fumo, costuma haver fogo – pais a reclamarem que os alunos ficaram prejudicados sem aulas, porque os professores estiveram a gozar 4 semanas de férias na Páscoa. Seguindo o rasto a esta fumosidade não foi difícil encontrar o paciente-zero de uma antiga pandemia incurável que volta a alastrar-se. Bastou-me atentar para a alteração do calendário escolar para descortinar a mensagem encriptada que escondia.

Se é compreensível o prolongamento das aulas por mais 2 semanas para os anos que vão a exame, para proporcionar que esses alunos recuperem aprendizagens não adquiridas no [email protected], já o mesmo não tem qualquer base de fundamentação para os restantes níveis de ensino.

Deste prolongamento letivo depreende-se que os professores terão de ser castigados com mais 2 semanas de aulas no 3º período, porque não trabalharam nas 2 últimas semanas do 2º período.
Observando todo o trabalho suplementar que os professores têm tido (desde que foram para casa no final do 2º período) para que o Ensino à distância funcione, este acréscimo de trabalho letivo não poderia ser mais injusto, pois aos olhos da sociedade deixa subjacente a ideia de que estivéramos sem trabalhar quando fomos mandados para isolamento em casa.
Uma atitude que em nada favorece os decentes.

Toda uma mensagem que parece encriptar uma vontade de demonstrar que os professores em casa não estão a trabalhar, abrindo a porta aos monstros que, sob renovadas máscaras, começam a sair novamente detrás das pedras sugerindo que devemos abdicar de um terço do salário e perder os subsídios de férias e de natal. Gente que quer dar como terminado o ano letivo desvalorizando o colossal trabalho que os professores estão a desenvolver em suas casas para chegar a todos os alunos, não deixando ninguém para trás evitando, assim, o afastamento das crianças ao direito à educação e a um futuro condigno.
Mas o que me dá pena é ver professores que – imbuídos de uma certa ingenuidade – também querem ver terminado o ano letivo, não se apercebendo que o astucioso objetivo-último de toda essa gente não é para com a aprendizagem dos alunos, mas em nos cortarem no vencimento a qualquer custo.

Como costumo avaliar a intenção das pessoas pelos atos e não pelas palavras belas que debitam diante da comunicação social (pois, de boas intenções está o inferno cheio e a classe docente bastante queimada), não me agradou nada a dilatação do ano letivo por mais 2 semanas e as vozes que vão apelando aos sacrifícios e aos cortes cegos nas despesas do Estado.
Sentimentos de hostilidade que fazem ressuscitar fantasmas de um passado recente que colocou o setor privado contra o público e novos contra velhos. Um prolongamento letivo que se afigura como um castigo que desprestigia o incomensurável trabalho que os professores têm estado a realizar desde que foram afastados das escolas.
Mais do que aqueles que são vistos na rua a furar o isolamento, preocupam-me os pensamentos que povoam as mentes de algumas pessoas – um vírus social destruidor que começa a ganhar forma para corroer a nossa comunidade.

No dia de abandonarmos o mundo dos vivos, a terra irá receber-nos a todos de igual modo… e isso não me assusta. Assusta-me aquilo que fazemos uns aos outros enquanto caminhamos sobre ela. Tenho a indescritível sensação de que estarei debaixo da terra e, lamentavelmente, debaixo do céu o pior da natureza humana permanecerá imutável.
Destes tempos difíceis, irei lembrar-me de tudo, mas não desejava ter de ser testemunha de algo ainda mais pavoroso do que o COVID19 que não queria ver acontecer; não gostaria de um dia ter memorizado que, quando as pessoas experimentaram o medo, foram capazes de tudo, até de se comerem umas às outras.

Carlos Santos

4 COMMENTS

  1. Grande texto! Quem disser que não trabalhamos 2 semanas, existirão certamente evidências para apresentar e aqueles que quiserem cortar no vencimento, terão de pagar as muitas horas extra que se fizeram em prol daqueles que não podem ficar a perder…os alunos. A quem continua a querer denegrir e desfazer a classe dos professores, que morram pelo seu próprio veneno…

  2. Vocês tem mesmo a consciência pesada!!!
    As aulas vao ate 26 julho pq estamos em ensino à distância e presumiu-se que os alunos precisariam de mais treinamento nas matérias lecionadas, visto não estarem os profs presentes.

    Deixem-se de enterrar ainda mais.

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