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O Professor-robot | Raquel Varela

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A professora de português que deu a primeira aula da telescola deu uma entrevista ao Expresso este fim de semana onde diz que nunca gostou de ler, cito, e está a fazer um esforço para ler um livro no Verão. Como professora e mãe também senti vergonha alheia. Na realidade há muito que acho que a maioria das crianças quando entra na escola sofre um processo acelerado de perda da curiosidade, vitalidade, interesse e educação que levavam da infância. O burnout docente contagiou as crianças, o desinteresse pega-se, contagia. O mesmo retrocesso se dá com os professores, entram na escola muitos a pensar que vão ser educadores, entram rapidamente em burnout quando percebem que vão ser operadores de uma linha de montagem – crianças – para um mercado de trabalho desqualificado.

É de um colégio privado, esta professora, segundo percebi. Podia ser do público, dificilmente seria de um colégio privado de luxo onde não há telemóveis e os professores são intelectuais, bem pagos, em exclusividade. A professora de português que não gosta de ler não é um caso, mas um problema disseminado na educação – a proletarização dos docentes, transformados em mediadores de entrega de conteúdos pré feitos, desprovidos e expropriados do seu ser-pensar-intelectual. No nosso estudo sobre o trabalho docente era visível a desintelectualização da profissão e a falta de consciência desse processo. Quando nós dissemos aos docentes que eles eram intelectuais expropriados uma larga parte ficava impressionado, “então eu devia ser um intelectual”? pensavam com estranheza. Insistimos que para não haver burnout eles tinham que se assumir como sapateiros e não como vendedores de sapatos. Como produtores de conteúdos e não entregadores de conteúdos. E tinham que lutar por isso, não havia e não há outra forma de driblar a depressão, perda de qualidade e sentido do trabalho que não seja lutar contra estas condições de trabalho, por mais ioga e auto ajuda que façam. Em breve (já aliás em curso em Portugal), se nada fizerem, serão apenas monitores de exames também eles de cruzinhas, que o próprio computador se encarregará de corrigir. No Brasil o dito ensino à distância, e isto também no Universitário, já colocou um docente a corrigir 40 mil provas, leram bem, 40 mil. Nem ele é docente, nem a prova é prova, nem a correcção é correcção – é tudo uma enorme farsa que visa a automação, por um lado, e o défice zero por outro, ou seja o pagamento de dívidas privadas transformadas em públicas.

A questão permanece e convoca-nos a todos, o que nós professores, pais, contribuintes, estamos dispostos a fazer para inverter este declínio sistémico, quando cada vez pagamos mais e temos menos. Podemos sempre pensar, como vítimas, queixando-nos do estado das coisas, e salientando que é um caso isolado, daquela professora naquele colégio. Ou podemos agir como questão pública, que o é, com verdade – é um problema geral, é cada vez mais comum, se não mesmo maioritário, e que põe em causa todo o futuro do país, do mundo, da humanidade humanizada.

Raquel Varela

6 COMMENTS

  1. Ora, se a professora di colégio estivesse quieta era o que ganhava. Levou logo fogo!

  2. Não é um caso isolado. Também não é verdade que nas escolas privadas seja diferente das escolas públicas. Não sei mais o que querem dos professores. Eles avisaram, usaram todas as formas de protesto, explicaram, encheram as ruas, foram olimpicamente ignorados por todos: políticos, comunicação social, intelectuais, pais, sociedade em geral. A súmula de tanto esforço, fazer erguer todo um grupo profissional tão heterogéneo, teve de ser movido por muita indignação. Foi o estertor, o canto do cisne. Os professores regressaram ao seu posto de trabalho, exangues, sabendo que ninguém tinha percebido, sabendo que estavam sozinhos. O resumo raquítico daquela massa de inconformados foi apenas a negra difamação: os professores não querem ser avaliados, os professores não se entendem com nenhum ministro da educação. A ignorância grassa também nos meios de comunicação e agride vinda dos comentadores de serviço. Perante tanto autismo, os professores desistiram, carregam o fardo do mito de Sísifo. O problema, toda a gente sabe, chama-se MLR, é mais fácil desautorizar um professor, milhares de professores, do que um só político, e derrubar o seu grotesco Frankeinstein educativo.
    Um professor, SÓ tem de aprender e ensinar, e se o faz, fá-lo constantemente, está sempre de serviço, onde está a dificuldade em entender isto? já alguém disse que uma aula é o equivalente a um restaurante cheio, durante a hora de almoço, o professor tem de multiplicar-se em valências e recursos, ser multitarefas, trabalhar em spinning, ser uma referência cultural. Se o professor não for culto, como pode ser um veículo cultural? a escola e a cultura estão divorciadas. Como tal, nas escolas entende-se por atividades culturais, coisas muito giras, mas com as quais e sem as quais se fica tal e qual. Já me aconteceu, dizer a um colega que os professores têm é de ir para casa aprender, e foi-me respondido com toda a naturalidade: se eu fosse para casa, nunca seria para fazer isso, nós temos de trabalhar e o que entendem muitos professores por trabalhar’? entupir o horário do professor de reuniões inúteis e burocracia inútil. Isso é que é gente séria, gente com as mãos ocupadas (não a cabeça). Quem não se empanturra de coisas inúteis é porque é malandro, não gosta de trabalhar, porque ler, ir ao teatro, ler jornais, é lazer. Ninguém paga aos professores para serem ociosos. Então graças ao génio de MLR, hierarquizou-se a escola, acirrou-se o controlo sobre os professores, multiplicaram-se as reuniões, anteriormente só havia de grupo, agora tem de haver de grupo e de departamento e reuniões intercalares e reuniões cada 15 dias e reuniões todas as semanas e reuniões sempre que é preciso, por vezes marcadas para daqui a umas horas, porque o professor tem de estar sempre disponível e já não interessa onde nem porquê, nem para quê. Já não é importante o cumprimento da lei, a convocatória, o prazo de afixação, local e ordem de trabalhos. O professor tem de ser avaliado com atividades, a preparação pré e pós aulas e as aulas não chegam. O professor tem de ser Animador Sóciocultural e Técnico de Secretariado, entupido de forma a chegar a casa exausto. Ser professor é pouco, não chega. Como grande parte do exército de professores é feminino e os ordenados são um insulto a quem tanto se exige, resulta daqui que muitas professoras são também donas de casa, privadas de cidadania, de intervenção política, são Luísa que sobe a calçada. Não me digam que a solução são mais mulheres na política, MLR é um bulldozer desgovernado.
    Manietados e amordaçados pela ADD, sem força, sem voz, sem visibilidade, os professores estão despersonalizados e pior do que isso, já começamos a ver a desistência dos sindicatos por falta de suporte. Perante a técnica do indiferentismo, a técnica da caravana passa, que foi e continua a ser aplicada aos professores, os professores já não sabem quem são, o que se deveria esperar deles, perderam o horizonte, estão alienados, uns controlam os outros para que não se atrevam a sair da fila da mediocridade institucionalizada. Já estão a colher o que semearam. Os jovens são egocêntricos, não respeitam nada nem ninguém, são inconsequentes, habituados a fazer em vez de pensar e a que tudo lhes seja oferecido e desculpado, são emocionalmente impreparados. Mas isto já foi dito vezes sem conta, por muita gente, mas parece sempre que ninguém ouviu. Imagine-se como seria possível um Vergílio Ferreira ou um Rómulo de Carvalho numa escola assim.

  3. Era o fim anunciado e expectável.
    Sem rumo, desgastados e desmotivados por um sistema em que a principal fonte da autoridade, o saber, deixou de ser relevante, o que se poderia esperar dos professores?
    Maria de Lurdes Rodrigues deu o golpe de misericórdia. Nessa altura partiram professores muito capazes, mas que tendo possibilidade de sair não quiseram continuar a fazer parte da máquina do absurdo em que a escola se estava a transformar.
    Para quem ama e valoriza o saber, a escola é um vazio preenchido por experimentalismos que esbarram na realidade quotidiana.
    Se deixarem partir todos os que já atingiram 40 anos de serviço, quantos optariam por ficar?

  4. Faço minhas as palavras da Maria Silva acima. Aproveito para referir que generalizar é muito perigoso. Acredito, piamente, que temos docentes motivados, empenhados, que gostam realmente daquilo que fazem e fazem a diferença na vida de muitos alunos.

  5. Esta Raquel.Varela parece dona da verdade. Subsescrevo a opinião da Maria Silva e felicito-a pela mesma.É mesmo como escreve.Realidade dura e crua!

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