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“Ó professor, eu quero é ir tomar conta das vacas, quero lá saber das equações ou dos Lusíadas”

Recentemente foi realizado um inquérito no ComRegras sobre a antecipação do Ensino Profissional para o 3º ciclo de escolaridade. Cerca de 80% dos votantes concordaram com essa antecipação e 42% referiram mesmo que a via profissional deveria começar no 7º ou 8º ano. Estamos em sintonia!

Apesar de toda a liberdade para a diferenciação pedagógica, o perfil do aluno, as aprendizagens essenciais, as medidas universais, adicionais e afins, falta algo que permita a determinados alunos, adquirirem competências visando desde logo potenciais profissões. Nunca mais me esqueço de um aluno de 8º ano que me disse, “Ó professor, eu quero é ir tomar conta das vacas, quero lá saber das equações ou dos Lusíadas”. Claro que para contar vacas, vender vacas e assinar contratos sobre vacas, este aluno precisa de conhecimentos mínimos de leitura, escrita e matemática, mas até que ponto se justifica tanto e tanto conteúdo para tratar de vacas? Não faria mais sentido este aluno estar já num ensino direcionado para as “vacas”, tornando-se um expert na matéria?

É uma visão simplista e muito prática de ver a escola, aceito isso, alguns de vós até podem discordar, dizendo que a escola não deve limitar ambições e pensar apenas em alunos que no futuro não vão querer mais que lidar com “vacas”. Porém, entre a utopia e a realidade há sempre uma distância significativa e por muito que se dê aulas espetaculares, com condições espetaculares, que sabemos que grande parte das vezes não é o caso, existem alunos que simplesmente não estão sintonizados para estarem “fechados” numa sala de aula.

Mas já temos os PIEF e os CEF!

Pois temos, mas se calhar só os temos porque a escola em si não deu resposta quando deveria ter dado. Além disso, se o fim das reprovações é a nova “bitola”, os CEF e PIEF estão condenados à extinção se não se mudar a legislação atual.

Sou um defensor do Ensino Profissional, apesar deste estar refém de uma burocracia absurda que obriga os diretores de turma/cursos a horas e horas de trabalho administrativo. Aliás, não percebo como é que Portugal não consegue alterar procedimentos que outros países como Espanha conseguiram, e ambos são obrigados a prestar contas pelo financiamento que recebem da Europa…

Não me choca que um aluno opte por uma via profissional no 9º ano de escolaridade. Para quê ter de esperar pelo 10º ano, se no final do 8º está mais que visto que aquele aluno não tem um perfil académico, mas sim prático e de rápida integração no mercado de trabalho? Sobre o início da via profissional no 7º ou 8º ano, confesso que já tenho algumas dúvidas, pois as idades dos alunos podem não permitir uma maturidade suficiente para ver mais além.

Infelizmente, em vez de estarmos a seguir o caminho referido, vejo uma vontade muito grande de querer dar continuidade ao Ensino Profissional para o Ensino Superior Profissional. Sinceramente não vejo vantagens em querer tornar algo que não tem perfil para o ser. Claro que as portas do Superior devem ser abertas a todos os alunos, mas essa deve ser uma escolha pessoal, submetendo-se os interessados a requisitos obrigatórios tal como os seus colegas da via regular. O foco primordial destes alunos deve ser acabar a escolaridade obrigatória com as competências necessárias para vingar no mercado de trabalho a muito curto prazo. Afinal, não é essa a essência do Ensino Profissional?

Outra das vantagens de integrar um aluno no Ensino Profissional logo no 9º ano, seria a fuga aos exames que sinceramente já nem percebo o seu sentido. Se o ensino tem obrigatoriamente 12 anos, para quê criar tampões de avaliação externa e que ainda por cima abrangem apenas duas disciplinas? Resquícios do Ministro Nuno Crato que colocou a Matemática e o Português num pedestal tal que apesar das condições precárias em que se encontra, fruto da “pancada” que o perfil do aluno lhe deu, permanece como um obstáculo a toda a uma estratégia que se pretende implementar no Ensino Básico.

São estas incongruências que vigoram no nosso sistema de ensino e que o tornam um pouco esquizofrénico. Independentemente do caminho e da ideologia, o que gostaria de ver é uma escolha clara sem areias na engrenagem. É como querer misturar água e azeite, separam-se sempre.

E se os exames pretendem dar alguma equidade, então a flexibilidade curricular não faz qualquer sentido, pois a sua premissa é acabar com um ensino equitativo e comparável, valorizando o aluno individualmente como elemento central da estratégia e avaliação educativa. Além disso, a certificação que os exames trazem aos conteúdos lecionados, pode perfeitamente ser substituída por uma avaliação formativa a docentes, que os deve acompanhar ao longo da sua carreira e sim, por colegas de profissão reconhecidos como tal e com vasta experiência no ensino. Não estou a falar de professores titulares e fraturas de carreiras, estou a falar na transmissão de conhecimentos que a experiência traz e que merece ser passada antes que uma geração de professores desapareça das escolas.

Mas isto sou eu a sonhar no meu mundo perfeito onde todos se dão bem e todos são humildes para ouvir ideologias e metodologias diferentes…

Alexandre Henriques


Ficam dois links com ideias divergentes das minhas pois a minha “reza” não é a verdade absoluta.

Resultado | Concorda com o início do Ensino Profissional no 9º ano de escolaridade?

Acabar Com Os Exames Do 9ºAno É Uma Má Ideia

5 COMMENTS

  1. Subscrevo tudo o que diz, exceto na redução das aprendizagens às “vacas” (ihihih, também estou a ser irónica) . Já que estes alunos são subsidiados, a presença em explorações/feiras nacionais e internacionais, reforço da aprendizagem da leitura/redação de textos utilitários, informativos e da aquisição de atitudes/comportamentos sadios, presença em teatros e cinemas, seria uma mais-valia As aprendizagens não se reduzem aos programas estipulados nos currículos das disciplinas. Recordo duas alunas luso-espanholas integradas no 9.º ano que nunca tinham tido Físico-Química, quase que caía o Carmo e a Trindade para serem admitidas a exame. No exame de Português ( formatadas para o modelo de exame existente) obtiveram uma 4 e a outra 3. Recordo também o Luís, excelente aluno até ao 12.º ano ( hoje perdi o seu rasto), no 3.º ciclo queria herdar/gerir a exploração de gado do pai. Aconselhei-o a tirar uma Licenciatura em Engenharia Agrícola. E recordo a turma do 9. F do Curso CEF , cuja ida ao teatro ver o Auto da Barca do Inferno foi um sucesso. Em duas horas o que aprenderam!!!Enfim, atualizemo-nos!

  2. O sistema educativo português está obsoleto e por tal facto torna-se necessário e urgente criar um novo sistema adaptado à nova realidade.

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