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O problema da indisciplina só será resolvido se TODOS assumirem a sua responsabilidade.

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Ano Novo, na educação persistem os velhos problemas.

A indisciplina nas escolas continua na ordem do dia, as agressões verbais e físicas a professores e entre alunos são um facto do quotidiano, multiplicam-se os desabafos de uma classe que se encontra no limite face à degradação das suas condições de trabalho. O Ministério da Educação parece incapaz de encontrar soluções e de proceder à reestruturação necessária e urgente do sistema educativo, limitando-se aplicar um remendo aqui e acolá.

Estranhamente a FENPROF, após uma derrota estrondosa na negociação com o ME sobre o concurso de professores, elegeu como prioritário, através de uma campanha nacional, o modelo de gestão das escolas. Alguns diretores/presidentes aparentam viver num estado de autismo face à realidade das suas escolas. Emergem estudos, inquéritos, sondagens, trabalhos estatísticos, cada um limitado pela realidade que encerra, mas apresentando conclusões e razões como verdades absolutas passiveis de ser aplicados a todo um universo escolar. Escrevem-se livros, fazem-se debates televisivos, apresentam-se dicas, sugerem-se estratégias e cada um com a sua perceção individual, resultado da sua experiência vivenciada, valida a sua opinião como de factos científicos se tratassem.

A educação diz respeito a todos nós, mas perante os problemas, a responsabilidade morre solteira e prevalece o jogo do empurra. O problema da indisciplina é um dos melhores exemplos que ilustra esta realidade. O Ministério da Educação varre o problema para as escolas, os sindicatos vivem à margem desta realidade, os pais justificam o comportamento dos filhos através do modelo de ensino do século XIX, pela impreparação dos professores para lidarem com as crianças e jovens do século XXI, pela natureza curiosa e ativa dos mesmos e pela incapacidade dos professores em manterem a autoridade dentro da sala de aula. Os professores apontam o dedo à incapacitação e negligência parental no que respeita à educação dos seus filhos. Das acusações e generalizações, da incapacidade de analisar o problema na globalidade e da ausência de empatia uns com os outros, agudizam-se tensões, extremam-se posições e torna-se impossível construir consensos à volta do objetivo comum, que é o direito de todos a uma educação com qualidade. Perante isto, penso eu, que o problema da indisciplina só poderá vir a ser resolvido se todos assumirem a sua cota parte de responsabilidade.

Efetivamente, a extensão dos currículos e a pesada carga letiva são fatores que promovem a desmotivação, a inquietação e a exaustão nas crianças e jovens e a escola precisa de espaços e de tempos onde se promova uma ligação afetiva, sentimentos de pertença e de identidade e onde os alunos adquiram o gosto pela construção e aquisição de conhecimentos e competências. No entanto, penso que as lacunas do modelo vigente não servem para legitimar e fundamentar a ausência de regras, a falta de educação, as agressões verbais e físicas presentes nos recintos escolares e a prepotência de alguns encarregados de educação. Por acaso, como adultos que somos, faltamos ao trabalho e deixámos de cumprir com as nossas obrigações, porque algumas delas são chatas e não são divertidas? Quando não concordamos com algo, quando nos chamam atenção, quando nos exigem mais qualidade no trabalho que desempenhámos, quando nos desentendemos com os colegas, é normal partir para a agressão verbal ou física? Quando chegámos extenuados de um dia de trabalho, deixamos de pôr comida na mesa, ter roupa lavada e suprir as necessidades das nossas crianças e jovens? Penso que não. Então, por que é que as crianças não devem ter regras e cumprir com as suas obrigações?

Além disso, importa relembrar que a escola evoluiu de forma positiva em muitos aspetos. Hoje proporciona projetos de natureza diversa, contemplando o desenvolvimento de competências em áreas tão diversas como a educação sexual, prevenção de comportamentos de risco, como a toxicodependência, estilos de vida saudável, robótica, cerâmica, música, desporto, entre muitos outros.

Muitos professores já proporcionam dentro das suas aulas situações de aprendizagem inovadoras e resolvem toda uma quantidade de problemas específicos que não fazem parte da sua função. Tudo isto é possível, graças à capacidade extraordinária de muitos, que de forma autodidata, à custa do seu empenho pessoal, do seu dinheiro e sacrifício da sua vida pessoal, todos os dias trabalham para a construção de uma escola de qualidade. Necessitando a maioria da ajuda dos professores para educar e cuidar dos filhos, porque se continua a desvalorizá-los, a desrespeitá-los e a consentir que as crianças repitam o mesmo padrão de comportamento?

Relativamente ao nosso papel como professores, quando nos debruçamos sobre o problema da indisciplina, devemos ter a sensibilidade para entender que educar uma criança hoje em dia é muito difícil, muitos pais dão educação aos filhos e estes, às vezes, não correspondem em comportamento ao que lhes foi ensinado. Não raras vezes, vemos filhos de pessoas com formação superior, inclusive de professores, a enveredar por caminhos desviantes. Pese embora a desvalorização do nosso papel e o facto de termos sido esvaziados da nossa autoridade, não estamos isentos da nossa responsabilidade. Nem sempre nos entendemos ao conjunto de regras que os alunos devem seguir, demitimo-nos de intervir em algumas situações porque não são connosco, queremos ser populares e muitas vezes somos permissivos, temos problemas na sala de aula, mas temos vergonha de pedir ajuda, somos apoiantes da filosofia do coitadinho, relevando determinados comportamentos, tendo como justificação as condições de origem de alguns alunos, dando azo, a que dentro dos portões da escola, se perpetuem os comportamentos desviantes que vêm de fora, que reine a impunidade de alguns e que o direito à educação destes se sobreponha ao direito à educação dos demais.

Confrontados com uma política educativa, onde reina arbitrariedade na aplicação das medidas disciplinares, onde se varre, muitas vezes, para debaixo do tapete, quer situações gravíssimas que atentam contra a integridade física e psicológica de alunos, professores e funcionários, quer comportamentos de índole criminal, desistimos de participar e de fazer uso da força do coletivo para exigir as soluções necessárias que ponham cobro a esta realidade. Não basta escrever cartas e lamentarmo-nos nas redes sociais. O esgotamento de muitos colegas é uma realidade e o número de professores que têm medo de entrar numa sala de aula e que tentam sobreviver a um dia de cada vez na escola, é cada vez maior.

Cassilda Coimbra

4 COMMENTS

  1. Quando diz que “demitimo-nos de intervir em algumas situações porque não são connosco” estou em total desacordo … demitimo-nos, eu também, porque não obtemos da parte das estruturas hierárquicas o apoio para intervir, acontecendo, muitas vezes sermos repreendidos por intervir e agitar a paz podre … demitimo-nos porque os pais que se demitem sempre das suas obrigações de educadores, querem tapar o sol com peneira e atiram a porcaria ao ventilador … de quem?? Do professor,claro … intervindo junto das direções, fazendo queixinhas, qual meninos que cobardemente se escudam na proteção de forças mais poderosas, que atuam ao arrepio do que seria expectável, demitimo-nos porque remar contra a maré é estenuante, desmotivador e causador de situações de conflito, porque ninguém valoriza a nossa intervenção, porque todo o bicho careto arreia forte e feio no professor, como o único causador das desgraças e frustrações que assolam a sociedade portuguesa e demitimo-nos porque … ESTAMOS FARTOS!!!!!

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