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O Presidente e os professores: “Será que percebo bem” ?

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Duas cartas enviadas ao Presidente dos afetos e que merecem ser lidas.
Exmo. Sr. Presidente da República, Sr. Professor Marcelo Rebelo De Sousa,
Será que percebo bem?
O Presidente de todos os portugueses pronuncia-se publicamente sobre o ataque ao balneário do Sporting em Alcochete. Um assunto de ordem estritamente policial merece a atenção de assunto de Estado!
O presidente de todos os portugueses comenta os jogos da selecção nacional de futebol e os respectivos jogadores são alvo de honroso convite para almoço e dos maiores encómios!
Será que percebo bem?
O futebol, onde um conjunto de especialistas em pontapés na bola ganha fortunas grotescamente ofensivas da dignidade humana da grande maioria dos trabalhadores portugueses, é considerado pelo Sr. Presidente como um assunto de alta relevância para a Nação!
O Presidente de todos os portugueses homenageia em palco, no Rock in Rio, uma banda musical portuguesa e um seu falecido componente!
Os Xutos e Pontapés são uma boa banda musical e o seu ex-guitarrista Zé Pedro um relevante especialista na arte de tocar guitarra, mas qual o contributo afinal dos Xutos e Pontapés para a riqueza da Nação? Que benefício aportam ao cidadão comum na sua qualidade de vida quotidiana?
Será que percebo bem?
A classe profissional mais importante deste país tem sido roubada, vilipendiada e denegrida publicamente e ao Presidente de todos os portugueses não se lhe ouve um comentário!
Os Professores que contribuem decisivamente para a formação de todos (TODOS!) os cidadãos deste país não são merecedores, sequer, da mesma atenção que é atribuída aos especialistas no pontapé na bola e aos virtuosos dos acordes musicais.
Os especialistas em educar e formar os cidadãos são esquecidos e votados ao abandono por quem, sendo até, curiosamente, também Professor, é hoje o Presidente de todos os portugueses (dos professores também!).
Será que percebo bem?
Os futebolistas do Sporting levam uns apertões, os jogadores da selecção são elogiados, os Chutos e Pontapés homenageados……e os Professores não existem na agenda do Sr. Presidente!
Será que percebo bem?
Como podemos ter um futuro enquanto país se as novas gerações estão nas mãos desta classe de “privilegiados” que reclama pela reposição do que lhe roubaram? Desmotivados, cansados e enraivecidos com a injustiça de que são alvo?
E que exemplo é este dado ao jovens alunos, futuros plenos cidadãos? Aos seus professores não se lhes reconhece qualquer dignidade?
Quem vai querer ser professor no futuro? Os melhores? Os mais capacitados? Ou os excluídos de outras bem melhores alternativas?
Será que percebo bem?
No Estado Novo utilizava-se a trilogia dos 3F’s – Futebol, Fado e Fátima.
No “Estado Democrático” repete-se a receita: Futebol, Festivais e fait divers.
O Povo consome e o Poder perpetua-se!
Será que percebo bem?
De V.Exa
Atentamente
José Coelho Martins
(OBS – Não sou Professor!)

Ex.mo Sr. Presidente da República,
Professor doutor Marcelo Rebelo de Sousa
Para início de conversa espero que já tenha planeado as suas férias. Não creio que vá confraternizar com a família Espírito Santo, como noutros tempos, é que se já lhe deram prestígio, agora são uma vergonha.
Muito sinceramente, não acredito que algum dia leia estas linhas, mas também nem sequer estou preocupada ou interessada nisso, caso contrário, bastava imprimir o texto e lamber um envelope e lá ia a dita até Lisboa, ou talvez, seja melhor dizer, seja lá onde o senhor está ou irá a banhos.
Mas é para lhe falar em férias que lhe escrevo. Quando a função pública no geral deixou de receber subsídio de férias, ou então, quando o recebia às pinguinhas como quem tem uma ligeira incontinência urinária, não me recordo de o ouvir dizer na TV, que esperava que as famílias pudessem ir de férias em paz e sossego. Mas acredito que o Senhor o disse, eu é que sou muito distraída. Desculpe-me.
É com orgulho nacional que todos o aplaudimos de pé, quando deu uma lição de história ao Trump. Afinal quem é que ele pensa que é? Mas, pelos vistos o Senhor também pouco ou nada sabe da realidade portuguesa. Por exemplo, a maioria dos pais que neste momento estão à espera das classificações dos filhos para poderem ingressar na universidade, talvez o tema férias seja o que menos os preocupa. Já parou para pensar que o problema desses pais não são as férias, mas como irão poder pagar os cursos aos pimpolhos, para depois irem para o desemprego?!
Mas também, cada um que puxe a brasa à sua sardinha, por isso, adiante.
Aos 22 anos tinha um bacharelato, aos 24 juntei-lhe uma especialização e aos 27 concluí uma licenciatura. Tenho 23 anos de serviço, levo 16 como efetiva no quadro de escola e tenho quase quase 50 anos de idade. A 1 de setembro, não sei onde estarei a trabalhar!!! De há uns cinco anos para cá que não posso tirar férias mas não é por ter um filho na universidade. Permita-me que lhe explique devagarinho, como se o Senhor fosse um Trump qualquer.
Apesar de pertencer ao quadro de escola, o Dr Passo Coelho, certamente ainda se lembrará dele, mandou os portugueses emigrarem. E pronto, foi uma corrida às malas de cartão que nem lhe digo!!! Conclusão, num país, onde nos honramos e orgulhamos de ter sangue latino, portanto, sangue quente, se é que me faço entender, a demografia começou a diminuir. Como deve compreender os jovens casais que vão, levam a prol ou que ainda não a tem, também não é cá que a fazem!!! Logo, as escolas começam as esvaziar. Mas também, não é para falar sobre contracetivos e os seus opostos que lhe escrevo.
Ora, começaram a sobrar professores. Aliás se calhar nem sobravam, estamos é mal distribuídos, por isso nestes últimos anos não posso tirar férias, porque tenho que obrigatoriamente concorrer à mobilidade interna. Vamos então falar de prazos e concursos. Vindo o final do mês de julho, os senhores diretores recebem ordens para mandarem os professores a mais irem pregar para outra freguesia. Fazem as contas, mandam uma cartinha registada, mas também um email e ainda dão instruções às senhoras do pbx para nos dar o “ prémio”. Sim, porque a maioria dos diretores andará numa azáfama que não tem dois minutos para ser o próprio a dar-nos o murro no estômago. Voltemos ao Trump que já estou a cortar em viés e depois ainda o baralho. Finais de julho recebemos a guia de marcha. Início de agosto espera-se a abertura do concurso ( já em período de férias), entretanto aguardamos pela validação do mesmo, não vá a gente ter um lapso qualquer que será preciso corrigir. E pronto, a bem dizer a primeira quinzena foi à vida….com jeitinho temos a segunda semana da primeira quinzena. Depois, depois é esperar pelo resultado dos concursos, quase nunca antes do dia vinte, mas já saíram a 21….outras vezes, até se fazem apostas entre o dia 25 e o 29 de agosto. Claro, que não estamos a gozar as férias a que temos direito. Depois, de sair o resultado do concurso, temos 48 horas para nos apresentarmos na escola em que formos colocados ( se correr bem) e fazer a aceitação, presencial e na plataforma da Dgae ( é através de computador e internet). E pronto, acabou-se o mês de férias a que tenho direito, mas também não tenho.
Eu até sou efetiva, mas isto vale tanto para quadros de zona pedagógica como para contratados. Dia 6, quando saírem os resultados do burnout dos professores, tenho pena que não seja nominal, assim o Senhor poderia confirmar o meu nome.
Espero que o Senhor tenha umas excelentes férias, sem pesos na consciência e antes de adormecer não se esqueça de rezar ao Anjo da Guarda para que pelo menos os pais dos pré-universitários possam ir de férias.
Eu também sou muito querida e afetuosa, deixo-lhe um beijinho e um abracinho
Maria Rosalina China

1 COMMENT

  1. O Professor Marcelo, deixou o rabo de fora e nós vimos. Afinal o seu populismo espreita. Só abraça as causas que são populares e que lhe rendem selfies. Em relação às que são controversas, embora justas e pungentes, fica a olhar o céu. Sintonize-se professor, porque a causa dos professores é a causa da Escola Pública, lembra-se? aquele elevador social que não funciona muito bem. Pois é professor, a Educação é um assunto tão sério como as Finanças. Ambas cultivam a riqueza nacional se forem bem fertilizadas. A educação não é um assunto venal, só de mulheres e crianças. Se for necessário para nos levarem a sério também vestimos fato e gravata.

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