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O porquê do fracasso de uma greve de professores.

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O porquê do fracasso de uma greve de professores.

Na passada sexta-feira devia ter acontecido uma greve de professores, mas esta foi um fiasco pela pouca adesão que teve.

Depois da luta pela recuperação do tempo de serviço, que tinha um profundo impacto nas remunerações e repunha justiça, esta greve teria mais a ver com as condições de trabalho, como as exceções para as escolas das regras gerais do covid, como a sobrecarga de trabalho com o ensino à distância e com o absurdo das reuniões intercalares entre as 7 e as 9 da noite. Consequentemente temos dois fatores a condicionar a greve, o fracasso da luta anterior, que criou anti corpos contra novas greves e esta greve ter mais a ver com fatores não salariais e portanto, menos apelativos.

A sobrecarga de trabalho não atinge tanto os professores mais velhos, por causa da redução de horário letivo e consequentemente terem poucas turmas. Ora são estes que experienciaram uma escola mais respeitadora dos professores e do seu horário de trabalho pelo que estariam subjetivamente mais recetivos a uma jornada de luta, mas objetivamente estão mais aliviados da sobrecarga de trabalho.

Por outro lado, são as direções das escolas que gerem o processo, pelo que algumas evitam esta sobrecarga de trabalho, enquadrado por normas pouco clarificadoras, criando reuniões semanais de ano ou disciplina e param mesmo as aulas para as reuniões intercalares ou ainda fazem-nas nas tardes livres e estendidas no tempo. Ou seja, nem todos os professores sentiram as condições de trabalho adversas com a mesma intensidade. Quanto às direções que são responsáveis pelos casos extremos, na equação entra a vertente de política local, como o apoio à direção pelo benefício em termos de horário ou o medo de se ter um horário bastante repartido para quem tem quilómetros a percorrer para ir trabalhar ou filhos para cuidar. Além do mais o principal problema das escolas, não terem um equilíbrio no poder e uma limitação de mandatos dos diretores, mas um poder totalmente concentrado numa pessoa e prolongável no tempo, não estava em cima da mesa nesta greve.

Outra questão tem a ver com o desgaste dos sindicatos junto dos professores e da opinião pública. Quando os sindicatos parecem ter agendas mais políticas do que sindicais criam-se desconfianças nos professores. Quando as caras mais conhecida dos sindicalistas começa a desgastar-se, pelo número de anos à frente dos sindicatos e por ter sido responsável por lutas fracassadas, também não ajuda à mobilização da classe e da opinião pública (deveria ter havido mudanças na Fenprof e na FNE e aplicar-se aos sindicatos a regra republicana de limitação de mandatos tal, como aos diretores). Por fim a não convergência dos sindicatos para as lutas é também um fator negativo.

Concluindo, a luta de professores está a travessar o deserto depois da questão do tempo de serviço. O motivo da convocação de nova greve tem de ser objetivamente sentida por toda a classe e não sentida de forma desigual, como foi o caso desta, de forma a evitarem-se o mais possível a existência de subjetivismos que criem forças centrífugas. Um tema pouco explorado nas reivindicações sindicais é a alteração do modelo de gestão que é a raiz de algumas das condições de trabalho extremas que apareceram nas reivindicações para esta greve – a divulgação das escolas com reuniões presenciais em concelhos de risco por insensibilidade dos diretores é um exemplo. O concentrar as reivindicações no diálogo com o ministério com vista à mudança dos normativos que implementem maior respeito pelas horas e trabalho individuais parece-me redutor, falhando a raiz de alguns problemas, a falta de equilíbrio do poder nas escolas.

Rui Ferreira

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