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O pior ainda por vir – Paula Ferreira

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Ainda havia aulas presencias. O menino chegou a Educação Física, chamou a professora à parte: perguntou-lhe se podia fazer a aula com o calçado que trazia. Foi-lhe pedido para assistir sentado num banco. Na semana seguinte, continuou apenas a observar os colegas. Ainda não havia dinheiro para comprar umas sapatilhas. Penso muitas vezes nesta criança e interrogo-me em que condições viverá, como estará a acompanhar as aulas em casa.

O pior ainda por vir

Amanhã assinala-se um ano desde que o primeiro caso de covid 19 foi confirmado em Portugal. Um ano em que o inimaginável aconteceu. Um país suspenso, vidas perdidas, muita gente a ficar para trás. E os alertas começam a soar, o pior pode ainda estar por vir. Quando terminarem os apoios criados para amortecer a crise, o dique, com toda a certeza, vai ceder: a realidade pura e crua surgirá à superfície. Como alertou, este fim de semana, Carlos Farinha Rodrigues, membro da Comissão de Coordenação para a elaboração da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, quando estes apoios forem extintos, pode surgir um fosso para onde os mais vulneráveis à crise serão atirados.

Fica por vezes a sensação de que parte de nós não terá verdadeira consciência do que efetivamente está a acontecer, para além dos estritos problemas relacionados com a saúde, com o que separa a vida da morte. O mais importante, é certo. E quanto valem as famílias que, mais do que falta de dinheiro para renovar o calçado de ginástica dos seus filhos, não têm sequer capacidade de pôr comida na mesa para os alimentar. Por isso me espanta a serenidade com que a sociedade, sem vislumbre de alívio, encara ficar em casa. Onde estão os que já perderam praticamente tudo – terão eles também perdido a voz?

 

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