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O Modelo De Escola Que Temos, Afinal, Não É Imutável. As Mudanças Serão Sustentáveis?

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Desconfinar a escola

O que ficará na educação deste tempo de incertezas e medos?

Boris Cyrulnik, para quem as catástrofes trazem inevitavelmente mudanças, prevê a existência de conflito entre os que pretendem que tudo fique como dantes e aqueles que consideram que vale a pena consolidar modos de vida que surgiram com a crise.

Recentemente ouvi uma diretora de um agrupamento referir-se a este tempo como um tsunami.

É importante pensar no que está a acontecer e naquilo que poderá marcar um futuro em que poderão estar em transformação a função do professor, o ofício de aluno, os lugares onde se aprende, a educação para o desenvolvimento sustentável. E como serão combatidas as desigualdades e geridas as aprendizagens e as emoções?

O combate às desigualdades

A covid-19 revelou desigualdades que se vieram a acentuar designadamente pelas dificuldades de acesso a meios tecnológicos ou apoio das famílias. Muitos persistem, há décadas, em as considerar inevitáveis, enquanto as disparidades sociais não forem superadas.

Ora os estudos mostram que a escola pode fazer a diferença e que os modelos pedagógicos e as práticas podem gerar uma escola com menores desigualdades.

Os vários cenários para a escola do futuro têm de assumir o combate às desigualdades de modo a que não continuem a existir tantos alunos deixados para trás.

Na procura de uma escola que possa fazer a diferença devem ser repensados designadamente os currículos, as práticas educativas (tão fechadas na sala de aula), os modos de avaliação.

É incompreensível a pressão para que o ensino e a avaliação se processem em modos comparáveis a anos anteriores, sem que se tenha em conta o turbilhão e as emoções que vivemos.

É urgente ouvir todos os alunos que se encontram fora do radar da escola e aqueles que, estando a frequentar a escola a distância, não a conseguem acompanhar.

Não deve haver reprovações sem uma nova oportunidade

Será impensável que o presente ano letivo se termine com reprovações sem que seja dada uma oportunidade de reconciliação dos alunos com a escola. Tem de existir, pelo menos para os alunos em insucesso, um regresso, uma “escuta” que poderia ter lugar ainda em julho ou em setembro com atividades de aprendizagem acompanhadas, resolução de problemas, apoio a dificuldades e ao desenvolvimento pessoal. Esse tempo serviria também para a conceção de programas de acompanhamento personalizado, a desenvolver ao longo do próximo ano letivo.

Papel dos pais

O papel dos pais mudou profundamente nestes tempos.

Muitos deles, tantas vezes criticados pelo seu afastamento da escolaridade dos educandos, assumiram em casa, em confinamento, uma diversidade de situações como tutores, como “explicadores”, como professores, sobretudo das crianças mais novas, que requeriam uma maior assistência.

O olhar de grande parte das famílias sobre a escola mudou e é necessário pensar esta relação com a escola, proporcionando formação e acompanhamento, valorizando a experiência vivida e tendo em atenção as desigualdades.

Reconhecimento do trabalho dos professores

Somos devedores do reconhecimento aos professores pelo modo como procuraram enfrentar o “tsunami”.

Foi preciso que os alunos sentissem que a escola não os tinha abandonado, procurar estratégias para chegar a eles, aprender em urgência a utilizar meios tecnológicos. Tratava-se, sobretudo, de preservar, mesmo a distância, o que a escola tinha de mais importante, a relação professor-aluno.

Qualquer que seja o cenário futuro da escola, a função dos professores é decisiva e está em mudança.

A insistência em práticas de transmissão de conteúdos, em competição com a diversidade de fontes a que os alunos têm hoje acesso, não tem futuro. É um processo em que os professores estão, há muitos anos, a ser derrotados, como o revela o desinteresse progressivo dos alunos pelas aulas.

O tempo dos professores é precioso e deve ser consagrado em grande parte à organização das aprendizagens e aos apoios aos alunos, funções que têm sido desvalorizadas.

Muitas das soluções encontradas agora pelas escolas e pelos professores exigiram capacidade de pesquisa, trabalho colaborativo e espaços de formação que é necessário reforçar.

O ofício de aluno: responsabilidade, trabalho e autonomia

O trabalho em prol do “Perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória”, documento que reúne grande consenso, sofreu um avanço e será decisivo.

Os alunos que tinham uma experiência vivida em programas pedagógicos de incentivo à autonomia e responsabilidade integraram-se melhor nesta situação em que o ofício de aluno está a mudar. Esse é um caminho a prosseguir com as lições deste tempo e com a utilização de estratégias baseadas num trabalho entre professores e alunos em torno dos programas, das competências e dos conhecimentos a adquirir, da pesquisa e do desenvolvimento de projetos.

O espaço onde se aprende e a defesa do planeta

É necessário desconfinar a escola que temos, há décadas muito encerrada nas salas de aula e no espaço escolar.

Independentemente da evolução dos modos e lugares como e onde se aprende, a sala de aula será sempre o local essencial de encontro mas este tempo veio tornar mais claro que é possível aprender fora da escola.

Para quem acompanhou projetos de educação ambiental, patrimonial e intervenção cívica desenvolvidos fora da escola, foi comovente constatar o entusiasmo dos alunos e o contributo dessas estratégias para a eficácia das aprendizagens e para a aquisição de competências de cidadania e defesa do planeta.

Alguns países, designadamente os nórdicos, com grande experiência na promoção da educação ambiental, colocados agora face à necessidade de espaços de maior distanciamento físico, estão a organizar estratégias variadas entre as quais aulas ao ar livre. Com o nosso clima é incompreensível não se explorar esse desafio.

É necessário mudar os lugares onde se aprende. Desconfinar!

E é urgente o desenvolvimento de projetos transversais vocacionados para a aprendizagem da cidadania e a intervenção em defesa do planeta.

Gestão das emoções

Sabemos como estes tempos têm sido cruéis para todos e em particular para crianças e jovens. A Organização Mundial da Saúde recomenda que sejam encontradas estratégias para a expressão e gestão das emoções. Sentimentos de medo devem poder exprimir-se em ambiente seguro e com apoio dos professores.

A intervenção de outros profissionais para além dos professores pode ser decisiva.

É incompreensível a prioridade concedida, em muitos casos, à necessidade de “dar” os programas e a uma avaliação que atropela sentimentos, bem como o desenvolvimento de aprendizagens e competências decisivos para a saúde e para o futuro da humanidade.

Nem tudo foi positivo mas há que parar, escutar e aprender com esta tragédia.

Ana Maria Bettencourt, in Público, 30-05-2020

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