Home Escola O ministro e a deseducação – Ricardo Arroja

O ministro e a deseducação – Ricardo Arroja

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Oencerramento das escolas é uma decisão que se lamenta por várias razões. Lamenta-se pela perda de aprendizagem que resulta em prejuízos futuros – por vezes irrecuperáveis. Pela perda de disciplina que a escola tem por missão incutir aos jovens. Pela perda que impõe aos pais que, com as crianças em casa, se veem impossibilitados de (tele)trabalhar de forma concentrada e serena. E, sobretudo, lamenta-se porque o encerramento da actividade escolar não teria sido necessário se o ministro da Educação tivesse feito a sua parte. Um ministro que, ao obrigar tudo e todos a fechar, num exercício destinado a encobrir a sua própria inacção, conseguiu a proeza de chancelar a violação do princípio constitucional (art. 43º) da liberdade de aprender e ensinar!

É preciso recuar até Junho do ano passado. Na altura, o Governo tinha acabado de anunciar o programa Escola Digital e um orçamento de 400 milhões de euros para implementar a modernização tecnológica do ensino obrigatório. Uma das primeiras medidas passava pela disponibilização de portáteis aos alunos carenciados, um universo de aproximadamente 360 mil alunos. Passados estes meses todos, terão sido distribuídos apenas 100 mil kits. Entretanto, tarde e a más horas, terão sido realizados mais dois concursos para a aquisição dos restantes kits, um em Novembro passado e outro agora em Janeiro. Foi preciso Portugal ter entrado na segunda vaga da pandemia para que a burocracia do ministério da Educação se tivesse mexido.

A formação dos docentes também foi negligenciada. A conclusão não é minha; é dos insiders do sector que criticam só agora ter sido concluída a fase de diagnóstico das competências e capacidades digitais dos docentes. Trata-se aqui de um impedimento significativo, que inviabiliza a eficácia da modernização do ensino, na medida, em que uma grande parte dos docentes do ensino básico e secundário tem mais de cinquenta anos de idade. A disponibilização de meios não basta. É necessário que os agentes educativos saibam trabalhar com esses meios, numa altura em que a tecnologia continua a evoluir muito rapidamente. Estamos, pois, perante o risco de se construir a casa pelo telhado.

O ensino está em mudança. Mesmo na modalidade presencial, há conteúdos que podem e devem ser leccionados através de meios digitais. Os próprios manuais podem passar para formato digital. Os livros, o papel, e o lápis podem ser substituídos por tablets e apontadores. Em vez de mochilas carregadas de material – e mesmo assim, muitas vezes, com falta de material – as mochilas poderiam ir mais leves para a escola. As costas das crianças agradeceriam. O planeta também. Em Portugal, já há quem tenha adoptado esta abordagem, combinando o presencial e o digital, mas trata-se de um paradigma ainda em (ultra) minoria. Não devemos ir atrás da modernidade só porque sim. Porém, há que saber para onde caminha o futuro.

Creio que todos desejaríamos que o ensino presencial, adaptado ao mundo digital em que hoje vivemos, continuasse a ser a regra. Todavia, entre duas alternativas não presenciais, fechar tudo ou ensinar à distância, não há hesitação possível. Como infelizmente a pandemia está para ficar, e porque ninguém percebeu ainda a natureza das novas variantes – a única coisa que já todos sabemos é que Portugal entrou na pandemia com um dos mais baixos rácios de camas de cuidados intensivos da Europa e isso está agora à vista –, o ensino à distância tem de ser encarado pela positiva e não sob a reserva incompreensivelmente inoportuna do ministro.

O regresso ao ensino à distância será assim um desafio para todas as escolas. Sê-lo-á para a escola pública que parte em clara desvantagem. Mas também o será para as escolas privadas que, mais ainda no meio de uma crise económica, vão estar sob pressão acrescida a fim de justificarem o investimento que os pais fazem ao optarem por elas. O desafio será tanto maior para todos, quanto mais normal se tornar o ensino à distância. Esta normalização poderá resultar de renovadas imposições de saúde pública, ou simplesmente por opção familiar decorrente de novas formas de socialização.

O chamado “ed-tech” é uma área em grande desenvolvimento. Na Índia, por exemplo, estima-se que existam mais de 4.000 start-ups dedicadas a projectos de “ed-tech”. A tecnologia aplicada ao ensino nem sempre requer um portátil; em muitos casos basta um simples tablet ou smartphone. Não se resume a uma coisa de ricos. Na Índia, em plena pandemia, o “ed-tech” foi a forma encontrada para manter milhões de crianças desfavorecidas, e em locais remotos, ligadas ao ensino. A tecnologia aplicada ao ensino demonstrou que pode e deve ser um factor de inclusividade, ao contrário de cá onde parece ser um factor de divisão. É pena, porque o ensino virtual também está disponível em Portugal.

O ensino está numa fase de disrupção, a exemplo de tantos outros domínios da sociedade. A tecnologia permite hoje a desintermediação do ensino, tornando-o adaptativo à individualidade dos alunos e a diferentes ritmos de aprendizagem (um conceito conhecido como “personalized adaptive learning”). Também a nova socialização, saída da pandemia, poderá levar muitas famílias, sobretudo as que têm possibilidade de o fazer, a sentirem-se tentadas a optar pela contratação particular de tutores – para alunos individuais ou pequenos grupos. E isto sem falar dos próprios currículos que talvez estejam a precisar de uma remodelação estrutural para melhor se adaptarem às profissões do futuro.

A educação é uma matéria em relação à qual sou muito sensível e exigente. Sou-o pelo investimento que anualmente faço na educação dos meus filhos, a fim de lhes proporcionar uma formação diferenciada, e por entender que são os pais (não os burocratas do Estado) que, em primeiro lugar, devem zelar pela educação dos seus educandos. É assim verdadeiramente insultuoso que o ministro da Educação, a quem não reconheço o direito nem a competência para o fazer, tenha tido a veleidade de decretar a proibição de aprender neste país. Nem que fosse por um só minuto, seria sempre inaceitável. Este ministro da Educação, apostado em deseducar, é o retrato do país político que temos.

Fonte: ECO

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