Home Escola O meu elogio público aos professores portugueses – João Miguel Tavares

O meu elogio público aos professores portugueses – João Miguel Tavares

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Estamos a dois dias das férias do Natal, e no meio de tanta coisa má que 2020 nos trouxe há pelo menos esta excelente notícia: as escolas portuguesas mantiveram-se abertas ao longo de todo o primeiro período, apesar da pandemia. Mesmo no pico da segunda vaga, o Governo resistiu a enviar as crianças para casa, evitando a repetição da catástrofe psicológica e académica da primeira metade do ano.

Portugal deve essa conquista, em primeiro lugar, aos professores, que se comportaram de forma exemplar, correndo os riscos necessários para que centenas de milhares de estudantes não ficassem sem aulas. O Governo decidiu e decretou, mas os decretos pouco valeriam se uma parte significativa dos professores tivesse desertado; se os atestados médicos tivessem deixado as escolas a meio gás; ou se os sindicatos se tivessem fixado obsessivamente nas distâncias entre mesas ou na qualidade das máscaras e do álcool gel.

A coragem e o bom senso prevaleceram, e isso justifica um artigo a assinalá-lo da minha parte, enquanto pai de quatro filhos em idade escolar, que acabou por usufruir de um primeiro período lectivo surpreendentemente normal. No início de Julho, escrevi um texto intitulado “Um apelo aos professores portugueses”, onde afirmava que décadas de frustração e de confronto com os governos tinham vindo a erodir um sentido de dever cívico por parte dos professores, que era imprescindível recuperar agora. Se os seus interesses se sobrepusessem aos interesses dos alunos, como tantas vezes aconteceu em greves e desaguisados sindicais, estaríamos inevitavelmente a criar as condições para uma tempestade perfeita, antevendo-se mais um ano catastrófico pela frente.

O Governo errou tragicamente na primeira metade do ano, quando deu o ano lectivo presencial por terminado (até ao 10.º ano) logo em Abril, sem que houvesse qualquer sustentação científica para tal decisão. Como se tem vindo a demonstrar, não são as crianças as principais propagadoras do vírus, nem as escolas o centro dos surtos. O fecho das escolas durante tantos meses teve custos psicológicos e académicos, desde logo proporcionando notas de entradas absurdamente altas nas faculdades, devido ao facilitismo dos exames.

O regresso ao ensino à distância neste último trimestre teria tido como efeito o aumento das desigualdades, com os alunos das escolas privadas munidos de ferramentas inacessíveis aos alunos das escolas públicas, o que se traduziria em mais uma fortíssima martelada no já de si escangalhado elevador social. Se tal não aconteceu no decorrer do primeiro período de 2020/2021, é porque os professores estiveram à altura do que lhes foi pedido.

Nos últimos meses, não foram apenas os médicos e enfermeiros na primeira linha do combate à covid a representar o melhor deste país. Cada professor com motivos de saúde para pedir um atestado médico e que não o fez, por dever cívico e devoção aos seus alunos; cada auxiliar da acção educativa que desinfectou as mãos das crianças à entrada da escola e contribuiu para colocar alguma ordem nos recreios; cada director que resistiu a fechar os portões aos primeiros casos de covid, e contribuiu com a sua acção para que não se instalasse o pânico; todas estas pessoas foram heróis à sua escala, e merecem saber que há milhares de pais que viram, que repararam, e que lhes estão gratos por isso mesmo. Enquanto pai, e enquanto cidadão português, aqui fica o meu sincero agradecimento a todos eles. Muito obrigado.

Fonte: Público

3 COMMENTS

  1. No meio de muitas palavras acertadas, lamento a frase “Se os seus interesses se sobrepusessem aos interesses dos alunos, como tantas vezes aconteceu em greves e desaguisados sindicais”! Agradece e insulta ao mesmo tempo, porque não sabe o que se passa nas escolas para, sem pudor, nos chamar egoístas. Em que é que ficamos?

  2. Um autêntico ultrage para os professores, este artigo. Falsidades (não houve aulas durante 3 meses…), visão da escola como para tomar conta de meninos e prepará-los para exame, e a cereja no topo “o sentido cívico dos professores”. Com que então as greves são falta de sentido cívico? São olhar por si e não pelos alunos? Essa visão da sociedade já foi há 50 anos. Podia dar aqui mil exeps. que contrariam esta versão, mas só 1: se os professores não trabalhassem 60 ou +/semana e não usassem os seus meios(casa, pc, telemovel, net…)não havia escola Nunca. Se não houvesse professores não havia profissões, já se terá dado conta? Nem educação, pois só com papás não vamos lá.

  3. olha este…
    dispenso abraços de urso

    ele que cuide mas é dos 4 filhos e deixe de fazer da escola um deposito dos fedelhos que nao quer aturar…

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