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O Homem Que Mordeu O Cão E O Professor Que Bateu No Aluno – Eduardo Jorge Madureira Lopes

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Professoras, todas elas, as cinco, comentavam, à mesa de um café, a notícia acerca de um professor que tinha agredido um aluno na Escola Secundária Rainha Leonor, em Lisboa. O jornal que tinham sobre a mesa referia “uma agressão” e não “uma alegada agressão”, dispensando assim a cautela frequente de não dar os factos como provados, até porque a versão do docente não era conhecida.

O professor pode ser suspenso ou erradicado do ensino público, dizia uma das professoras. Outra acrescentou que pode ser posto na rua, mas vai consolado: sim, um tabefe dado na hora certa era um consolo, defendia ela, sabendo-se incapaz de dar um. A conversa prosseguiu com manifestações de veemente censura de todas as formas de violência fosse em que circunstância fosse. Todas subscreveram o repúdio pelo uso da força, mesmo a professora mais compreensiva com a espécie de catarse do colega. Claro que, considerou ela, o professor contratado – assim se classificam depreciativamente os proletários do ensino descartáveis que têm de andar de uma escola para outra para compor o salário – reagiu erradamente, mas não é recomendável que os alunos testem os limites da paciência dos professores, pegando, por exemplo, nos telemóveis após terem sido repetidas vezes advertidos de que não o devem fazer, como terá sucedido no estabelecimento de ensino lisboeta.

Embora, à semelhança do homem que mordeu o cão, a notícia seja o professor ter batido no aluno, as salas de aula são, em não raras ocasiões, espaços em que se manifesta uma tensão excessiva, que põe a ferver mesmo os professores mais experientes em anular ou abrandar a ebulição. Não poucos têm de recalcar que, em determinados instantes, apreciariam dar a um ou outro aluno um tratamento mais musculado, para usar um eufemismo que se escuta nas televisões a propósito de outro género de incidentes. Sim, alguns – raros – alunos assemelham-se a hooligans a reclamar uma certa manutenção em perímetros de segurança.

Não deixa de ser exasperante lidar com crianças mal-educadas que impedem permanentemente que os colegas possam aprender e o professor ensinar. Não querem aprender nem permitem que os outros aprendam. A conduta imita, amiúde, o comportamento dos pais, também, e não por acaso, designados por “encarregados de educação”. Disso não se encarregam, portanto, esses que – pais ou não – são em primeira instância incumbidos de educar. Regularmente, é necessário lidar com “encarregados de educação” por ponderosos motivos disciplinares e em abundantes situações percebe-se que não têm um módico de educação que possam transmitir à prole.

Não é raro que esta ausência de educação ande a par de um estatuto social um pouco mais elevado. Dizia uma das professoras da conversa inicialmente referida que os alunos mais mal-educados da escola onde ela lecciona são a filha de uma colega de grupo e o filho de um casal de docentes universitários. A simpatia e a inteligência, assim como a boa educação, como se sabe, não são distribuídas de modo a favorecer os que têm mais poder, mais estudos ou mais dinheiro.

Outra interlocutora considerava que, segundo a sua experiência, quanto pior o comportamento da criança ou do adolescente, melhor é a garantia de protecção da mãe e do pai. Aqueles que não dão educação aos filhos são os mais exigentes em relação aos limites que a escola não pode ultrapassar para os educar. E esses limites impedem que um pequeno selvagem se transforme numa criança respeitadora do seu semelhante. As cinco professoras falavam de excepções, mas consideravam-nas cada vez mais problemáticas por não serem resolvidas adequadamente, de modo a tornar menos hostil o ambiente escolar. Às vezes é a ascendência social, política ou económica dos pais que intimida os directores ou que lhes suscita uma intolerável complacência.

Uma das professoras acrescentou que os procedimentos burocráticos requeridos na sequência das ocorrências indisciplinares são tão exaustivos e maçadores e as consequências tão insignificantes que são muitos os que preferem não ter um incómodo a seguir a outro, apenas agindo perante acontecimentos de indisfarçável gravidade. Daqui decorre um óbvio enviesamento das estatísticas da violência escolar, o que impede que se possa concluir que ela diminuiu. De resto, dizer que a violência escolar decresceu é um modo perverso de a tornar, de algum modo, tolerável. O que é fiável é, de facto, a sensação de esgotamento de que padece um elevadíssimo número de professores em consequência das diferentes formas de assédio constante de que são vítimas – e a indiferença que esse sentimento suscita.

Fonte: Diário do Minho

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