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O Fim Da Escola Na Escola | Consequências Do Ensino À Distância | Fará Sentido Dar Notas No 2º Período?

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Segundo as mais recentes previsões do Ministério da Saúde, o pico do covid-19 passou das férias da Páscoa para o mês de maio. Os cenários traçados apontam para o início de uma parábola que em apenas 15 dias pode levar a 60 mil infetados.

O passo mais difícil foi cancelar as aulas presenciais, que infelizmente só se verificou após pressão externa, pois internamente houve quem tivesse alguma dificuldade em ver o “elefante” no meio da sala.

O Ministério da Educação através dos seus comunicados, aponta claramente para um ensino em casa. Um desafio seguramente, pois as condições tecnológicas variam bastante de família para família e de zona para zona. Temos alunos que moram nas aldeias e que nem computador/tablet têm, como temos alunos que têm computador, tablet, telemóvel e acesso a várias operadoras com “fibras” e afins.

O ensino à distância é um ensino que depende obrigatoriamente das condições financeiras das famílias, pois todos sabemos que o Ministério da Educação não irá ocupar todas as casas com computadores/tablets e ligação à internet. Além disso, estamos perante um cenário de pré-crise económica, onde vários encarregados de educação podem perder os seus empregos a curto/médio prazo. Sim, a recessão económica vai chegar e o covid-19 foi o gatilho do que há muito se esperava.

Que fique claro, o ensino à distância não vai ser um ensino para todos, é desigual e depende de fatores externos que são eliminados no ensino presencial. Apesar de ser a solução possível e ninguém pode criticar o Ministério da Educação por seguir este caminho, é preciso pensar muito bem na forma como vamos avaliar e no peso desta avaliação no total do ano letivo. Basta aferir quatro aspetos para constatar as dificuldades que se avizinham:

  • O ensino à distância cria diferenças significativas entre as disciplinas, nomeadamente nas mais práticas.
  • O ensino à distância não irá abordar todas as matérias que supostamente seriam abordadas no final do 2º período e 3º período.
  • Com o ensino à distância não será possível controlar se os alunos estão a trabalhar pelas suas cabeças ou pelas cabeças dos seus pais. E também não será possível controlar a “assiduidade” escolar se é que é possível chamar isso nesta situação.
  • Os pesos nas avaliações, que constam nas grelhas dos professores terão obrigatoriamente de ser alterados.

Surge assim a questão de lançar notas no 2º período. Os professores podem perfeitamente fazer reuniões online ou tratar tudo por email, provando até que as reuniões, apesar de importantes, podem perfeitamente realizar-se de outra forma e serem muito mais céleres.

Quem anda nas escolas sabe que a nota do 3º período tem um peso muito maior, pois é a classificação que pode determinar uma retenção ou transição. É normal ver professores a dar uma nota no 2º período, que se fosse no 3º período, não seria atribuída. É a chamada nota para “abrir olhos” ou de “incentivo”.

Ao atribuirmos uma classificação agora, podemos indiretamente estar a transmitir ao aluno que o ano está feito e que o aí vem, independentemente do que aí vem, já não conta. Não acredito que algum professor vá reter um aluno no 3º período se a nota do 2º for positiva. São tempos excecionais e a maioria dos professores ainda tem “dois dedos de testa”.

Por parte do Ministério da Educação, surpreende-me o discurso que vinca de forma tão clara a necessidade de lançar notas no 2º período. Lembro que este é o Ministério da Educação, tão flexível e que até considera que as avaliações ao longo do ano são meramente (in)formativas sem o peso que a pauta lhes atribui.

Por outro lado, compreendo o argumento dos que consideram importante lançar classificações, de modo a dar tranquilidade aos alunos e famílias. Com os alunos em casa, pode surgir a sensação que andaram a trabalhar para nada, ficando sem um feedback importante nesta altura do ano.

São sem dúvida tempos únicos que esperamos nunca mais vivenciar. O mais provável é que a escola presencial tenha acabado em março e se assim for, estaremos seguramente perante o maior desafio social e escolar da nossa Democracia.

E repararam que nem sequer falei nos exames, no acesso ao Ensino Superior e nas condicionantes para 2020/2021… mas sinceramente, o que é que isso interessa quando estamos perante uma calamidade social.

Fiquem com a notícia do Expresso sobre o assunto.

Fonte: Expresso

5 COMMENTS

  1. Infelizmente, parece que em tempos de crise também surge a crise de reflexão e antecipação de cenários de futuro. Andei a alertar ao longo destes dias da necessidade de equipar os professores com equipamentos informáticos públicos, mas os ataques surgiram em catadupa por parte dos professores. Tenho pena que não percebessem que as dificuldades dos professores são as dificuldades dos alunos e que o sistema deve providenciar igualdade na distribuição dos recursos e garantir que eles existem antes de lançar medidas.
    Congratulo-me com o facto do Comregras estar a alertar para esta situação, provando que eu não estaria assim tão errado.

  2. as aulas não vão recomeçar nunca mais, de uma maneira ou de outra! os professores não serão nunca mais necessários, e, pensando bem, quem se importaria com isso – a carneirada?

  3. As diferenças e os problemas não estão só nas condições que os alunos e famílias têm para receber as aulas não presenciais, também estão na capacidade e conhecimentos que muitos docentes têm para as fazer.
    Tenho dois jovens em casa, a frequentar 10. e 12. anos e até agora nao receberam qq material de estudo e orientação. Outros alunos de turmas da mesma escola estão a trabalhar quase em todas as disciplinas.

  4. Os professores até podem ter todos os recursos digitais para utilizar, mas, pelo menos na minha escola, a maior parte dos alunos não. Portanto não faço ideia como este ano letivo vai terminar.
    Ou passam todos ou ou repete-se o ano. Vem o diabo e escolha.

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