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O Exame

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O dia mal começou e o sol encharca já as salas. A luz, abrasadora e asfixiante, desenha quadrados largos no chão da sala. As carteiras perfilam-se milimetricamente como pequenos soldados na parada. Os meninos movem-se com curiosidade e medo através dos corredores da escola “grande”, que visitam pela primeira vez. O rigor da solenidade trava-lhes a gargalhada habitualmente fácil e distorce-a em pequenos segmentos de risinhos nervosos. Os olhos inquietos percorrem os detalhes, buscam o número das salas, procuram um rosto conhecido.

À porta da sala, a espera inflama a ansiedade. A fila desorganizada fervilha de nervosismo. Pequenas gotículas de transpiração nos rostos vermelhos, palmas das mãos húmidas a resvalar nas roupas, olhares furtivos para dentro da sala, numa tentativa de reconhecimento do recinto da refrega. Lá dentro, os professores vigilantes aprontam os detalhes da função e começam a fazer a chamada com ar solene.

Enquanto se sentam respeitosamente nas carteiras, os meninos tentam lembrar-se de todas as recomendações que a professora repetiu exaustivamente nas últimas semanas e que começavam invariavelmente por “os alunos não podem…” ou então “os alunos devem sempre…” Acompanham o percurso dos professores vigilantes no desenrolar do cerimonial. Escutam a leitura formal das instruções e os seus olhos procuram nos gestos impessoais daqueles professores desconhecidos um abrigo de familiaridade que não conseguem descortinar.

Quando a prova finalmente começa, o calor é já insuportável. Os minutos gotejam lentamente. O professor, encostado à parede no topo da sala, observa a plateia com olhos de quem contempla outra coisa. A professora vagueia por entre as mesas, adivinhando o fervilhar febril das cabecitas debruçadas sobre os números.

Na última carteira da fila do meio, o menino queda-se, hirto e rubro. A franja escura pega-se à fronte suada, os olhos vermelhos e o semblante tenso espelham uma aflição profunda. À medida que se avizinha da criança, a professora lê rapidamente os sinais de inquietação e apercebe-se da profusa transpiração do menino, tão intensamente que até parece que ouve os pingos a gotejar. Aproxima-se e descortina nos olhos do garoto um grito silencioso de socorro. O respingar deixou de soar na sua imaginação e transporta-se para a realidade. No chão, por baixo da cadeira do menino, uma pocinha de líquido dourado alastra pelas juntas da tijoleira.

Quando os olhares se cruzam, o rubro das faces torna-se escarlate. Na mente da professora, a aflição do menino abalroa a exigente formalidade dos normativos. Oferece-lhe o mais apaziguador dos sorrisos, sussurra-lhe a calma maternal que todas as crianças entendem. Silenciosamente, insta-o a levantar-se, pega no enunciado do exame, na caneta e no lápis roído do menino e coloca-os numa mesa vazia da fila do lado. Convida-o a sentar-se naquela outra cadeira e ata-lhe à cintura, de molde a tapar o fundilho dos calções, o casaquinho de malha que trazia nos ombros. Sempre em silêncio, incita-o a continuar, dando palmadinhas suaves nas folhas semipreenchidas de números redondinhos e zelosos, e oferece-lhe uma piscadela de olho que recebe de troco um sorriso tímido de agradecimento.

Tudo o que aconteceu naqueles curtos momentos é rigorosamente ilícito e fortemente desaconselhado pela norma, lembra-lhe o olhar incomodado do outro professor, que a professora finge não ver.

MC

Estendal

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