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O Estado da Nação O Silêncio Ensurdecedor E A Paz Podre No Ensino E Na Educação

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Face à greve dos motoristas que terminou ontem, muito se tem escrito sobre a vitória e a rapidez de resultados alcançados por estes, em comparação ao que tem sucedido com os professores. É evidente o respeito sentido pelos motoristas e pela forma como, sem vacilar, concertados e bem representados, conseguiram em 4 dias, chegar a acordo com o Governo, negociar até 31 de dezembro, um processo de negociação coletiva.

Perante a atuação e consequências imediatas da greve referida, muitos colegas se questionaram, se o país pararia, caso os Professores atuassem de forma similar. Após a leitura de vários comentários e perante a análise às reações dos Professores nas redes sociais, voltei a refletir sobre o marasmo em que nós Professores, nos encontramos…

Num universo de 125 mil professores, um terço( 40 mil), referem insatisfação e cansaço. Joaquim Azevedo, investigador da Universidade Católica do Porto e ex-secretario de Estado de Roberto Carneiro critica o facto de os professores nunca terem sido alvo preferencial de políticas governamentais , com medidas articuladas e profundas de dignificação e valorização pública da sua atividade profissional”, o que revela um “evidente desinteresse, por parte da elite dirigente, com o futuro do país e com a qualidade da sua população.

Os professores tem uma função crucial junto dos jovens.” Não esqueçamos que somos nós que permanecemos mais tempo com os alunos. Acresce o facto de os termos durante 12 anos, atendendo à escolaridade obrigatória, reconhecendo-se ainda o peso do sistema escolar na formação humana dos nossos alunos numa fase da sua vida, crucial neste e noutros aspetos. A escola é sem duvida alguma, o espaço privilegiado para transformações pessoais acontecerem e os alunos são os grandes protagonistas de todo este processo em parceria com os professores.

Os professores são a classe mais mal tratada desde que há memória. Desrespeito pela atividade docente, ausência de perspectivas de carreira, carga burocrática que deixa os professores assoberbados de trabalho em grande maioria inútil para o ensino-aprendizagem, ineficácia do modelo de avaliação completamente fictício e desonesto ao não valorizar o mérito, horários atribuídos completamente surreais que muitas vezes obrigam os professores a terem a seu cargo mais de uma dezena de turmas a par de uma carga horária exaustiva, ultrapassagens nas colocações, chefias completamente incapazes para a função que desempenham, congelamentos da carreira, falta de meios que permitam ministrar as aulas de forma capaz, políticas educativas estupidificantes, ausência de apoio por parte dos sindicatos e do ministério que evidencia inequivocamente uma irrefutável e visceral antipatia pelos Professores, entre tantas e tantas outras questões, levaram a que a carreira docente deixasse de ser ser uma carreira imbuída de dignidade como outrora fora, e passasse a ser uma carreira humilhante e humilhada na sua essência.

Uma carreira desvalorizada e incessantemente desrespeitada.

Na sala de aula o ambiente degrada-se a olhos vistos, a autoridade do professor é questionada por pais e alunos, a indisciplina emerge a todo o tempo com uma ofensa verbal ou mesmo, e cada vez mais, uma agressão física, tal como tem sido recorrente nos últimos tempos. A violência grassa nas escolas e os professores tornam-se facilmente alvo de críticas mesquinhas por parte dos alunos e de muitas famílias também. Estamos perante um problema estrutural e transversal a toda a sociedade. Inexistência de regras, de valores e de respeito pelo próximo. Promove-se o fácil e o descartável e as famílias, grande parte delas, há muito que se demitiram da tarefa de educar, exigindo ao professor e à escola que instrua, eduque, acompanhe, apoie, colmatando as falhas graves que a própria não conseguiu e muitas vezes não se esforçou sequer por consegui-lo, junto dos seus filhos e educandos.

Hoje vemos e sentimos a escola como um depósito de jovens e crianças, que ali fazem o seu percurso escolar, sem qualquer acompanhamento familiar. A Escola bateu no fundo e acredito que cabe aos professores inverter a situação. Se a tutela abandonou a paixão que em tempos apregoava existir, se as chefias não demostram capacidade nem força para tal, se a sociedade não se mobiliza, restam os professores, esses seres tão estranhamente resilientes num ambiente adverso e hostil, para o fazer. Em primeira e última instância,cabe aos professores zelarem e lutarem por aquilo que representam e que é nada mais nada menos que o maior pilar da humanidade. Continuo a defender a escola pública com o mesmo ímpeto que senti no primeiro dia de aulas, quando há muitos anos atrás, desisti do curso de Direito,para abraçar a profissão de Professora. Nego-me a desistir daquilo em que acredito.

Jamais deixarei de lutar por um ensino responsável e inovador, por aqueles que depositam em mim, em nós,total confiança. Não acredito, nem acreditarei nunca, que precisamente nós professores, desistamos deles… dos nossos alunos, das nossas crianças, de todos aqueles que todas as manhãs nos olham com aqueles olhares ora esperançosos e alegres , ora tristes e desconfiados, mas sempre, sempre confiantes… Afinal de contas a “Stora sabe tudo…”. Mal eles sabem que muitas vezes também nós temos o coração apertadinho, do tamanho de uma ervilha, também nós temos receios e medos, medo de não ser capaz, receio de não estar a dar o melhor, porque também nós temos vidas, e tal como eles, somos seres humanos com fragilidades e inúmeras, tantas solicitações.

Não os defraudemos colegas. Não permitamos que percam o pouco, que a muitos lhes resta. Um ambiente seguro, feliz, em que caminhem responsavelmente rumo a um futuro, que será sem dúvida incerto e atribulado mas que será o deles, aquele em que caminharão para o bem e para o mal.

Continuemos com este espirito que nos caracteriza a “acender pequenas lamparinas”, para que os nossos jovens alunos, com a ajuda de todos nós professores, as possam transformar em “fogueiras”… confiando nas suas capacidades e acreditando que serão capazes de construir um futuro mais justo. Urge repensar a Escola Publica, o seu propósito, a sua matriz e para o fazer, nada nos resta além de parar, repensar o percurso trilhado, escolher o caminho a percorrer e agir!

Atuar sem receio, sem vacilar, acreditando na força que representamos e na união que podemos fazer emergir … e acredito, estou certa de que, quando emergir, nada a fará parar. Vale a pena pensar nisto colegas!

Florbela Mascarenhas

5 COMMENTS

  1. Porque afinal «Felizmente há luar!» (obra por sinal retirada do novo programa de Português do 12º ano).

  2. O fato de o governo se disponibilizar até 31/12/2019 para as negociações,não significa,de todo, que aceitará as justas reivindicações dos motoristas.
    Ou alguém estará esquecido do que também aconteceu com o acordado com os professores em 2018? Estava escrito no OE e o que aconteceu depois?
    Mário Centeno está de passagem e até às próximas eleições o deficit terá que ser reduzido o mais possível.

  3. Caríssima Colega Florbela Mascarenhas.
    Lamento discordar da sua visão e de outros que continuam a acreditar.
    Quem não se sente, não é filho de boa gente. Ficaria do seu lado se as
    suas palavras incentivassem ao necessário: subverter a aceitação dócil
    e preparar a queda das estruturas que erguemos com a falácia de uma
    democracia. Exerço apenas a vontade de lhe dizer que não desistir das
    visões poéticas de ser professor, já há algum tempo, contribui, apenas,
    para ferir os seus colegas que mandaram às urtigas o seu desempenho
    e é desses que precisamos. A escola tem de ser arrasada e só depois a
    alternativa pode ser repensada como reconhece ser necessário, Colega.
    O seu esforço e palavras colidem, todos os dias, com esforços passivos
    para que as coisas funcionem de acordo com as perspetivas da carreira
    e possam submergir no lodo a que nos remeteram. Tenho mais de 2/3
    do tempo total previsível e ao passar do 5º para o 6º ganho mais 17 €.
    Como eu, muitos outros poderiam dizer qualquer coisinha, mas prefere
    quem é mais inteligente, estar calado e fazer pela calada… E marasmo?
    Só enquanto forem fazendo de conta que o principal são os alunos e nã
    derem oportunidade a fazermos todos por igual como as outras classes:
    apesar das consequências, mediocridade e destruição de oportunidades
    com consequências económicas para a população portuguesa e a perder
    de vista, na guerra vale tudo e se for bem visível, melhor. Trabalhe bem
    para si e para a luta da classe em primeiro lugar, e não para os alunos e
    para as suas famílias, ou para o país, é o que lhe digo. Abra os olhos, os
    alunos que formamos, são os nossos concorrentes de amanhã, ou quem
    decide se nos vai pagar e quanto, ou quem vota em quem tomará essas
    decisões. Mantenha-os estúpidos e acríticos, para podermos vencer. Não
    sonhe com uma Educação que eu, seu colega, não lhe agradeço, nem ao
    resultado a que nos trouxe… Espero não ter ultrapassado o meu direito.

  4. “… Urge repensar a Escola Publica, o seu propósito, a sua matriz e para o fazer, nada nos resta além de parar, repensar o percurso trilhado, escolher o caminho a percorrer e agir! Atuar sem receio, sem vacilar, acreditando na força que representamos e na união que podemos fazer emergir … e acredito, estou certa de que, quando emergir, nada a fará parar. Vale a pena pensar nisto colegas!”

    Concordo, inteiramente, com este parágrafo e … Que bom seria ter vontade, capacidade crítica e coragem para parar/ pensar e agir…
    … mas na linha do que refere “Alves” , olhemos à nossa volta… uns quantos (poucos) procuram resistir… provavelmente resistirão sós até ao fim, quando a massa de colegas amorfos, cansados, desistentes, a que já “tanto se lhe dá que seja assim ou assado” mas obedientes e subservientes lhes caírem em cima por lhes estarem a estragar a vidinha, a furar as fériazinhas, a prejudicar o horáriozito, a derrubar as expectativas de ficar com os nétinhos, a ter que reunir de novo pois não houve cumprimento da lei,…, Inicialmente compreendiam a resistência mas… ao cabo de algum tempo… arre bolas que maçada… “albardai, também vós, o burro à vontade do dono” e vereis que todos ficam contentes ( nem que seja à custa do espezinhamento da consciência e da ética… – à custa do quê, colega?)

    Em que fico, então? Já sem fé, procuro continuar a resistir…

    Mas entristece-me, profundamente, que a classe docente seja tão facilmente domável.

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