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O Ensino À Distância “Será, Apenas Residualmente, Uma Questão Técnica E/Ou Tecnológica”

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O ensino à distância é um processo novo não só no seu formato, mas também na forma como até hoje uma parte significativa da escola lecionava os conteúdos. Concordo com Domingues Fernandes quando afirma que não devemos ser ingénuos, que estamos perante uma questão pedagógica mas principalmente política, onde a forma tornou-se muito mais importante que o conteúdo.

Ligar o computador e abrir o “zoom”, com maior ou menor dificuldade, qualquer um sabe fazer. Não acredito que o problema virá da parte técnica, existirá sempre alguém que ajudará alguém e resolverá a situação. O verdadeiro problema ou neste caso desafio, é como agregar as aprendizagens a esta nova realidade? E até que ponto os professores vão sentir-se confortáveis em algo completamente novo?

Se para o 3º período o bom senso imperou e não se exigiu mais do que uma certa consolidação sem avaliações “formais”, caso o problema regresse e/ou persista, não vamos seguramente estagnar.

É fulcral encarar estes tempos como a aquisição de novas ferramentas que têm um potencial enorme para as aulas futuras, sejam presenciais ou não.


 

Nota Sobre a Educação em Tempo de Calamidade

Todos os dados, todas as indicações, parecem indicar-nos que não haverá condições para que os alunos possam regressar à escola no presente ano letivo. Julgo poder afirmar que o Sistema Educativo e o Sistema Nacional de Saúde nunca tiveram de enfrentar os desafios com que estão a ser confrontados. No domínio da educação há um conjunto de iniciativas louváveis ainda que, de algum modo, imbuídas de algum voluntarismo . É compreensível. As pessoas, nos mais variados níveis, querem contribuir “para salvar o ano letivo”, “para que os alunos não fiquem sem notas”, “para que os alunos façam trabalhos de casa” e por aí afora. Assim, desde a administração, a algumas escolas e a uma diversidade de grupos nas redes sociais, multiplicam-se esforços para “partilhar ferramentas que permitem realizar sessões síncronas com os alunos” ou para “encontrar formas de apoiar os alunos”. Também é compreensível e até louvável. Mas não podemos ser ingénuos. É preciso pensar e pensar profundamente. Estamos perante um problema de enorme e multifacetada complexidade que vai exigir muitíssimo de todos nós. Temos de compreender o problema nas suas dimensões. E a primeira em que penso é a dimensão política porque o Currículo (a sua definição e as grandes linhas relativas ao seu desenvolvimento) é uma questão eminentemente POLÍTICA. (Há uma miríade de questões que é necessário formular e responder tais como: O que vamos fazer no que se refere à consecução do currículo? Que decisões vão ser tomadas em relação a essa questão fundamental? Como é que as crianças do 1.º e do 2.º ciclos vão trabalhar online? Como é que vamos resolver a questão dos alunos que não têm computador ou acesso à internet? Como é que as escolas e os seus orgãos se devem organizar para enfrentar o desafio do desenvolvimento do currículo?) Perante orientações claras quanto ao que fazer com o Currículo, então passamos à dimensão PEDAGÓGICA do problema. E aqui nunca me pareceram tão oportunos os desafios que vêm sendo lançados nos domínios da inclusão, da flexibilidade curricular, da autonomia das escolas, da reinvenção das práticas de ensino e de avaliação, da participação dos alunos nos processos de aprendizagem, ensino e avaliação, no trabalho colaborativo dos professores, na centralidade da escrita e da leitura, na autonomia dos alunos, nas comunidades de aprendizagem, na utilização das TIC para renovar e inovar nos processos de ensino, aprendizagem e avaliação, na renovação e inovação da organização e funcionamento das escolas…. Estamos perante uma situação em que as nossas “velhas conceções” estão claramente a ser questionadas, a ser postas em causa. E então temos de fazer opções pedagógicas de fundo, devidamente fundamentadas. E é aqui que reside, como sempre residiu, o problema essencial da aprendizagem, do ensino e da avaliação, processos basilares de qualquer processo de educação e formação. Trata-se de um problema de natureza eminentemente pedagógica, mas também filosófica, ideológica, ética e política. Será, apenas residualmente, uma questão técnica e/ou tecnológica. Esta calamidade que tanto nos assusta pode ser uma oportunidade para trabalharmos de formas mais inovadoras para que os alunos aprendam mais e melhor, com mais compreensão e mais autonomamente. Mas, não tenhamos ilusões, só lá vamos apoiados no conhecimento, na investigação e no estudo. Temos de ler. Temos de estudar. Temos de trabalhar em equipas. Temos de pensar na reconstrução das nossas formas de trabalhar com os alunos. Temos de pensar muito acerca das tarefas que lhes devemos propor para aprenderem melhor. Pode ser que esta situação tão grave acabe por “abanar” suficientemente as conceções que “sustentam” a escola que temos desde o século XIX.

Domingos Fernandes – 24-03-2020

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