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O Ensino À Distância – Joana Filipe

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Em setembro de 2018, quando fui colocada numa escola de Ensino a Distância, estava longe de imaginar que um ano e meio depois a experiência repetir-se-ia na minha vida profissional, com a agravante de que, agora, alguns dos meus alunos não têm acesso à internet ou não possuem computador ou, em alguns casos, telemóvel.

A situação revelou-se, portanto, mais desafiante e obrigou-me a repensar os aspetos que são primordiais na educação. Privados do ensino presencial, confrontamo-nos com a consciência mais aguda de que não somos todos iguais, não temos todos os mesmos recursos e, por isso, é difícil continuarmos a pensar numa escola que ensina o mesmo a todos como se fosse um só.

É um momento crítico que exige de nós um novo olhar e constitui uma oportunidade para repensar outro paradigma de escola, mais emancipatória, mais criativa, mais aberta à pluralidade, mais humana, que tem sido tão difícil de implementar. Aqui ficam alguns apontamentos telegráficos que não servirão outro propósito que não seja o de continuarmos a refletir. Chegou o momento em que temos de:

I. Procurar o essencial nos programas oficiais. Mesmo com o esforço das Aprendizagens Essenciais ainda há muito que poderá certamente ser relegado para segundo plano. É impossível trabalhar todos os conteúdos à distância. Centremo-nos nas competências e em valores humanos assentes na justiça, na reciprocidade e na solidariedade. É preciso educar também para a humanidade. E essa educação não se faz com a pressão do ensino de conteúdos testados em provas ou com o despejo de fichas nas caixas de correio físicas ou virtuais. Cada professor com o seu grupo de alunos deve decidir o que é essencial na sua disciplina. Com a consciência clara de que a quantidade não é reveladora da qualidade das aprendizagens. A criação emerge dos espaços vazios e dos tempos de silêncio.

II. Resistir ao ruído tentador dos materiais didáticos que nos invadem os aparelhos. Muitas vezes são documentos que só implementam rotinas de repetição, anotação, síntese e comentário, não promovendo a imaginação criadora. Os instrumentos e técnicas só produzem significado se estiverem intimamente ligados a um sentido social, que levem a uma descoberta do sujeito em diálogo com os outros, com o mundo. Não se trata de uma lógica de consumo de conhecimento, mas de produção cooperada de conhecimento.

III. Valorizar os saberes de cada aluno. Estudos recentes revelam que os professores ocupam 2/3 do tempo de aula e que os alunos são “demasiado ouvintes”. A pedagogia é um ato dialógico e plural. Numa comunidade de aprendizagem, todos possuem saberes que devem ser partilhados. Nas aulas síncronas, a prioridade passa por escutar os alunos, as suas partilhas de pesquisas e experiências, de leituras e filmes, debater temas da atualidade, resolver desafios em conjunto, contar histórias… O plano individual de trabalho, concertado com os alunos, é um instrumento importante para o planeamento, registo e regulação das atividades realizadas durante a semana/quinzena.

IV. Desenvolver a arte da afeição à distância. Este será o maior desafio… Não há ato educativo sem afeição e as ferramentas tecnológicas por mais inovadoras não chegam a tanto. Precisamos de nos reinventar e estimular a cooperação e o cuidado com o outro para que a afeição continue a ser a força motriz.

VI. Cooperar. Partilhemos práticas em pequenas reuniões à distância. Sozinhos será tudo mais difícil. Não é o tempo para burocracias e obsessões com monitorização de parâmetros. É o tempo para outro tipo de reuniões, mais fecundas, mais humanas.

Joana Filipe, in Jornal de Letras

(Professora 3ºciclo e Ensino superior)

 

 

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