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O Ensino À Distância Funciona?

Os alunos aprendem mesmo no ensino à distância? Os professores estão preparados? O que acontece aos alunos mais desfavorecidos? O abandono escolar aumenta? Ensaio de Alexandre Homem Cristo.

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O desenvolvimento de soluções tecnológicas para a criação de novas formas de ensino é uma área vibrante da Educação, com múltiplas inovações nos últimos anos, algumas delas com provas dadas e claro impacto positivo nos alunos. Hoje, através da internet, facilmente se obtém acesso a centenas de vídeos educativos, jogos e exercícios para aprendizagem, conteúdos interactivos para professores usarem ou mesmo plataformas digitais que são autênticas escolas no mundo virtual. E por isso, face aos desafios que a pandemia do Covid-19 está a colocar também sobre os sistemas educativos com escolas fechadas, dezenas de recursos pedagógicos (pagos ou gratuitos) têm sido referenciados como alternativas nos jornais, pelos organismos oficiais (como o Ministério da Educação) ou pela UNESCO, incentivando os professores e os alunos a explorar o ensino à distância.

A iniciativa faz sentido. Mais: neste contexto de emergência e isolamento social, é a única solução viável para, de forma quase imediata, proporcionar aos alunos uma espécie de continuidade de aprendizagem. Mas, sendo a solução possível, até que ponto se trata de uma solução eficaz? De facto, persistem ainda muitas dúvidas nas comunidades científicas sobre a eficácia do ensino à distância em termos de aprendizagem, sobretudo quando comparado com o ensino em contexto escolar e presencial. A pergunta-chave é esta: até que ponto o ensino à distância funciona e os alunos aprendem mesmo? Se quer uma resposta rápida, aqui vai: o ensino à distância é um fraco substituto do ensino presencial. Mas, claro, a sua eficácia varia em função de vários factores, desde a preparação do professor para o ensino à distância ao perfil específico do aluno. São esses detalhes e as respostas da investigação sobre o tema que se apresentará neste ensaio, assim como uma reflexão sobre o que isso implica para Portugal, no momento actual.

1- O ensino à distância é só a ponta do icebergue da tecnologia na educação

A tecnologia na educação tem numerosas formas de ser utilizada. Pode ser um assistente à aprendizagem em contexto escolar ou até ajudar à revisão em casa de matéria dada na escola. Ou então pode substituir-se integralmente à frequência física de uma escola. Não faltam variações. Pode usar-se dentro ou fora da sala de aula, com ou sem professor, como apoio suplementar ou como substituto das aulas presenciais, como solução de estudo autónomo ou como alternativa única para quem habita em áreas remotas. As opções são mesmo imensas. E as diferenças entre umas e outras são tão significativas que cada uma deverá ter os seus efeitos estudados isoladamente, para que fique claro o que funciona e o que não funciona. Por exemplo, os efeitos na motivação dos alunos variam fortemente entre a utilização da tecnologia numa sala de aula (com interacção com professor) ou da tecnologia para ensino à distância (sem interacção cara a cara com o professor).

Assim, pretendendo-se saber mais sobre o ensino à distância integral, a primeira dificuldade é que este é habitualmente muito pouco usado e, por isso, muito pouco estudado nos seus efeitos. No ensino básico e secundário, trata-se de uma solução sobretudo de recurso para quem vive em áreas rurais remotas ou para quem, por motivos familiares, se move pelo território nacional sem morada fixa. Em Portugal, os números de alunos inscritos em modalidades deste tipo (ou similares) são extremamente baixos.

A nível internacional, existem países onde o ensino à distância já tem alguma tradição. O caso mais óbvio é o dos EUA, visto que em alguns dos seus estados a frequência de ensino à distância é comum ou até obrigatória para determinadas disciplinas — e, por isso, já alcança milhares de alunos. Para o propósito deste ensaio, isso tem uma vantagem: permite que os efeitos nos alunos sejam estudados, mesmo que ainda pouco se saiba sobre como funciona. É, por exemplo, o caso da Florida, que obriga os alunos do ensino secundário a frequentar, antes da conclusão do 12.º ano, pelo menos uma disciplina na modalidade de ensino à distância. Para tal, foi criada a Florida Virtual School, uma plataforma mantida pelas autoridades públicas daquele estado que oferece centenas de diferentes formações online à escolha dos seus alunos. Os efeitos desta opção têm sido sucessivamente analisados para diversas dimensões – desde os desempenhos dos alunos ao seu relacionamento com a tecnologia.

Facto é que, apesar de ser raríssimo no ensino básico e secundário português, há muitos anos que se ouve falar do ensino integralmente à distância. Porquê? Por causa do ensino superior. Nas universidades, são muitas as formações avançadas e cursos a serem administrados totalmente à distância, em Portugal e um pouco por todo o mundo. É uma opção cada vez mais generalizada e, de resto, uma forma de universidades de prestígio financiarem actividades, com cursos online para todo o mundo. Não falta, aliás, quem aponte para o ensino à distância como o futuro do ensino superior. E, consequentemente, são muito mais numerosos os estudos sobre o impacto nos estudantes do ensino superior.

O que concluem? Na generalidade, não são muito positivos. Concluem que os estudantes do ensino à distância tendem a obter piores classificações, a ter menor probabilidade de sucesso nas fases seguintes da sua formação e a maiores taxas de abandono. Ou seja, o ensino à distância aparenta ser mais benéfico para “alunos experientes”, mas parece uma má opção para os alunos que já sentem dificuldades (e que por esta via, muito provavelmente, ficarão ainda mais para trás em relação aos seus pares que frequentarem aulas presenciais). Atenção que estas conclusões são boas pistas para explorar eventuais efeitos em relação aos alunos do ensino básico e secundário, mas não podem ser extrapoladas directamente para esses níveis de ensino.

2- Impacto do ensino à distância no básico e secundário: o que se sabe?

Num contexto normal, e do ponto de vista da organização do sistema educativo, o ensino à distância tem óbvias vantagens para escolas e para ministérios da Educação. Porquê? Porque poupa nos recursos: implica menor contratação de professores e alivia pressão na lotação dos edifícios escolares para receber mais alunos. Ou seja, é uma forma muito mais barata de providenciar o acesso à escola. A pergunta que se tem de colocar é se há igualmente vantagens (ou, pelo menos, ausência de prejuízo) para os alunos.

A resposta mais directa e correcta é esta: depende. Comecemos pelo lado negativo. A investigação mostra que, no geral, a ausência de interacção directa com o professor é prejudicial à aprendizagem. Ou seja, nesta modalidade, o ensino à distância integral e sem interacção é menos eficaz do que ter aulas presenciais. Mas há um lado positivo fundamental: as abordagens mistas (presencial + ensino à distância) têm apresentado resultados semelhantes às inteiramente presenciais. Portanto, se procura uma primeira certeza, aqui está ela: o elemento-chave é o professor. Se o professor conseguir intervalar sessões presenciais com sessões de ensino à distância (com vídeos, fichas ou outros conteúdos), os alunos não sairão prejudicados pela opção do ensino à distância.

A maior parte dos estudos experimentais (e, por isso, mais fiáveis) concentraram-se na aprendizagem da matemática (ou álgebra) – sobre as outras disciplinas, os dados não são tão robustos, embora também surjam estudos interessantes sobre aprendizagem da língua. Um desses estudos analisou o impacto nos desempenhos a matemática da frequência de cursos online de álgebra para alunos (de nível médio ou alto) do 8.º ano, que assim não teriam esses conteúdos presencialmente (i.e. foi a única disciplina que fizeram fora da escola). O estudo recorreu a mais de 400 alunos em 68 escolas básicas de áreas rurais do Maine e do Vermont, nos EUA. As escolas foram seleccionadas aleatoriamente: metade teria as aulas online (o “grupo de tratamento”), metade teria aulas presenciais do currículo de matemática comum (o “grupo de controlo”). Por fim, os resultados consistiram na comparação, entre grupos de tratamento e controlo, dos desempenhos (avaliados através de testes) e das escolhas dos alunos por disciplinas relacionadas com matemática no ano escolar seguinte.

Os resultados foram animadores para o ensino à distância. Os alunos do grupo de tratamento, que tinham tido as aulas de álgebra online, tiveram melhores desempenhos nos testes de álgebra do que os do grupo de controlo. A diferença foi estatisticamente significativa e equivalente a passar de um percentil de desempenho em álgebra de 50 para um percentil 66. Em relação ao desempenho geral em matemática, não se observaram diferenças relevantes. Outro resultado interessante foi que os alunos que frequentaram a modalidade online tiveram depois maior tendência para escolher formações avançadas com matemática — 51% no grupo de tratamento, 26% no grupo de controlo.

O que retirar deste estudo? Duas ideias. A primeira é que o ensino à distância, quando focado em conteúdos específicos, pode ser uma via de ensino particularmente eficaz, mas em particular para alunos com níveis médios ou elevados (os que fizeram parte deste estudo). A segunda ideia a reter é que, apesar do interesse deste estudo, os alunos no grupo de tratamento continuaram a ter aulas presenciais noutras disciplinas, pelo que o seu isolamento no ensino à distância ficou circunscrito a uma parte (álgebra) de uma disciplina (matemática) — como tal, não se pode extrapolar estes resultados para o ensino integralmente à distância.

Dúvida: então e para os alunos com dificuldades a matemática? Um outro estudo experimental dá boas pistas para responder à questão. Em 17 escolas secundárias de Chicago, nos EUA, os alunos que tinham reprovado a álgebra foram integrados numa “escola de Verão” para recuperação. Após as primeiras aulas presenciais para todos, os alunos foram aleatoriamente divididos em dois grupos: os que teriam as aulas de recuperação online (grupo de tratamento) e os que teriam aulas de recuperação presencialmente e cara a cara (grupo de controlo). Neste estudo, os resultados foram menos positivos: os alunos do online tiveram resultados piores e ficaram com menor probabilidade de passar no curso da escola de Verão (66% de probabilidade contra 78% dos que fizeram aulas presenciais).

As conclusões destes dois estudos parecem contraditórias, mas são complementares, com duas conclusões principais. Primeiro, que o ensino à distância é pior para os alunos com dificuldades quando comparado com a frequência presencial das aulas. Segundo, que o ensino à distância é sobretudo útil para alunos com desempenhos médios ou altos aprofundarem conhecimentos em temas específicos.

Chegados aqui, uma última dúvida: o que concluir quando se alarga o leque de grupos disciplinares e se observa um número muito maior de alunos? Ou seja, em vez de olhar apenas para uma disciplina como matemática ou álgebra, é possível ter uma visão global sobre os efeitos do ensino à distância? Um grupo de investigadores procurou dar uma resposta a essa questão neste estudo recente, recorrendo à base de dados da Florida Virtual School (que é a maior dos EUA). As suas conclusões são mistas.

Em relação aos alunos que frequentam uma disciplina online (ensino à distância) pela primeira vez, os investigadores concluíram que isso aumenta a sua probabilidade de obter nota positiva. No entanto, a médio prazo, pioram a probabilidade de obter bons resultados no geral e, consequentemente, viram diminuir a sua probabilidade de sucesso escolar. Em relação aos alunos que utilizam o ensino à distância para refazer disciplinas que reprovaram anteriormente, os resultados são pequenos, mas positivos. Resultados, portanto, que contrastam ligeiramente com os dois estudos anteriormente referidos, mas que têm abrangência e metodologia diferentes — sendo a metodologia dos dois estudos experimentais muito mais fiável.

3- Professores e alunos: como se adaptam ao ensino à distância?

Como acima foi já referido, a interacção com um professor é um dos factores decisivos para a aprendizagem. É uma daquelas leis das políticas públicas de Educação: o professor (o seu desempenho, a sua preparação, a sua motivação) tem um papel superlativo para a aprendizagem dos seus alunos. Quando o tema envolve tecnologia e ensino à distância, esse factor mantém validade e os estudos mostram que a interacção cara a cara com um professor continua essencial para a aprendizagem. De resto, os estudos mostram ainda outro aspecto fundamental: à partida, os professores não estão treinados nem preparados para o ensino à distância e, por isso, sentem enormes dificuldades em usar as ferramentas tecnológicas com eficácia. Isso poderá explicar, em parte, os resultados mais frágeis do ensino à distância que acima foram mencionados.

Essa dificuldade dos professores é absolutamente normal. No momento da sua formação inicial, os futuros professores são preparados para desafios em contexto de sala de aula. Ao longo da sua carreira, é na sala de aula que contactam com os seus alunos e desenvolvem as suas estratégias de ensino. Assim, quando confrontados com a necessidade de o fazer à distância, por exemplo através de videoconferência, é apenas expectável que procurem mimetizar as estratégias usadas em sala de aula, quando a tecnologia exige abordagens totalmente distintas. Num estudo que consistiu em entrevistas de profundidade com professores com aulas em ensino à distância, essa falta de preparação ficou exposta com clareza. A mensagem é simples: a eficácia futura do ensino à distância em muito dependerá do investimento na formação dos professores por parte das autoridades públicas.

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1 COMMENT

  1. A ler…” Podem os computadores substituir a sala de aula?
    O que se está a fazer no mundo no chamado ensino adaptativo. É um artigo onde se pode ver o que está a ser feito em países como a China, USA e alguns países europeus estão a desenvolver plataformas de ensino baseadas em IA. Está em inglês, para quem estranhar um pouco pode traduzir pelo google translate.

    https://www.theguardian.com/technology/2020/mar/19/can-computers-ever-replace-the-classroom

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