Home Escola O Ensino À Distância Funciona? – Alexandre Homem Cristo

O Ensino À Distância Funciona? – Alexandre Homem Cristo

199
0

Mais um excelente artigo que analisa em profundidade o ensino à distância.

Ficam alguns excertos.


Os alunos aprendem mesmo no ensino à distância? Os professores estão preparados? O que acontece aos alunos mais desfavorecidos? O abandono escolar aumenta? Ensaio de Alexandre Homem Cristo.

(…)

O ensino à distância aparenta ser mais benéfico para “alunos experientes”, mas parece uma má opção para os alunos que já sentem dificuldades e que, por esta via, muito provavelmente, ficarão ainda mais para trás em relação aos seus pares que frequentarem aulas presenciais.

(…)

O ensino à distância, quando focado em conteúdos específicos, pode ser uma via de ensino particularmente eficaz, mas em particular para alunos com níveis médios ou elevados.

(…)

O desafio começa na satisfação com a experiência de ensino à distância e a consequente motivação dos alunos para aprender.

(…)

Um dos riscos é o de os alunos “desligarem”, caindo numa espécie de situação de abandono escolar. O ensino à distância é particularmente favorável a isso, pelo que as escolas e os professores deverão manter um contacto frequente e motivador com os seus alunos, de modo a manter firme o elo de ligação destes às actividades escolares.

(…)

So what? Cinco pontos-chave sobre a eficácia do ensino à distância

Ponto 1: o ensino à distância raramente é usado de forma integral. Existem muitas ferramentas digitais ao serviço de alunos e professores, mas poucas foram pensadas para um ensino integralmente à distância. A maior parte das ferramentas serve para os professores complementarem o seu trabalho em sala de aula. Assim, em condições normais, o ensino integralmente à distância é útil, sobretudo, para alunos que habitem em áreas remotas, sem escolas por perto. Só em alguns países, com amplo destaque para os EUA, é que o ensino à distância tem maior adesão ou até carácter obrigatório (só para determinadas disciplinas). Na prática, é no ensino superior onde está mais disseminado a nível internacional, e não tanto a nível do ensino básico e secundário.

Ponto 2: há ainda dúvidas sobre a eficácia do ensino à distância, em termos de aprendizagem dos alunos. Mas já se tem boas pistas sobre alguns dos seus efeitos. Os estudos mais fiáveis apontam para que, comparativamente aos alunos que frequentem presencialmente a escola, os alunos do ensino à distância tenham, em média, melhores desempenhos a disciplinas específicas (como álgebra/ matemática). Mas que isso se aplica sobretudo num primeiro momento e se, logo à partida, os alunos forem bons. Com o passar do tempo, os desempenhos podem piorar, assim como a sua probabilidade de sucesso escolar, aumentando a probabilidade de desistência (que as escolas e universidades procuram mitigar com feedbacks frequentes). Como tal, o prejuízo dos alunos que já apresentem dificuldades de aprendizagem é evidente. Estes são os resultados gerais, mas que podem variar em função de outros factores, nomeadamente a interacção com os professores. De qualquer modo, nas condições actuais, o ensino à distância é um fraco substituto do ensino presencial.

Ponto 3: a interacção do professor com o aluno é determinante. É sabido que o papel do professor é o factor mais associado, dentro da escola, à sua probabilidade de sucesso escolar. Ora, no ensino à distância, a tendência mantém-se. Quanto mais frequente e de melhor qualidade for a interacção dos professores com os alunos, melhor a aprendizagem e a motivação. Ou seja, apesar de ser à distância, é importante que os professores não assumam papéis meramente administrativos das plataformas digitais e mantenham contacto frequente com alunos — sendo isso aliás essencial para a satisfação de todos os envolvidos.

Ponto 4: a adaptação dos professores é exigente e demora tempo. Uma utilização eficaz das ferramentas digitais do ensino à distância requer formação e treino, que a larga maioria não teve. Assim, a maior parte dos professores procura reproduzir o que faz em contexto de sala de aula, mas essa abordagem é pouco eficaz e gera pouco estímulo nos alunos. É óbvio que não se pode exigir aos professores, formados para contextos de sala de aula e com uma carreira de anos nesse ambiente, que se adaptem de forma rápida ao ensino à distância. Este é um processo de aprendizagem que demora tempo até se tornar realmente eficaz. Além disso, o factor geracional também conta: para os professores mais velhos o custo da aprendizagem/ adaptação será maior do que para os mais novos.

Ponto 5: o acesso à tecnologia é indispensável e é muito desigual. Há uma clara desvantagem dos alunos socialmente desfavorecidos, na medida em que, em média, terão pior acesso a equipamentos (computadores ou tablets) e internet. Acresce que, apesar de a internet cobrir o território nacional, subsistem diferenças importantes no acesso à internet entre áreas urbanas e áreas rurais, dificultando para estes últimos a utilização do ensino à distância. Ou seja, num contexto nacional, é uma opção que deixará sempre alguns de fora. E esses alguns serão, à partida, os mais pobres, que residem em áreas rurais e têm menor acesso a equipamentos/internet. Perante o desafio de garantir a frequência universal da escolaridade obrigatória, este problema tem de ser urgentemente resolvido.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here