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O Dia Em Que Só Me Apetece Morder No Meu País

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Estou vacinada e esterilizada

Pelo que não há evidências de que seja Raiva

Mas é. Raiva.

Do meu país tão cheio de ar e pompa

Que se ufana de educar o povo

Lhe dar as ferramentas tecnológicas que lhes permitam circumnavegar o mundo

(Sem sair do conforto do sofá e da TV, claro, que andam aí umas TVs espertas ao preço da chuva e das sextas-feiras pretas – e chove a cântaros … e está frio e a noite chega cedo…).

É preciso pensar.

É preciso aprender a pensar.

É preciso saber o que pensar.

Mas não há problema, porque o meu país sabe exatamente o que fazer!

(Cantemos hossanas, que o natal das PlayStations e Fortnites já começa a cantar os seus hinos)

O que é preciso é um plano!

Mobilizador. Esclarecedor. Empreendedor.

Mas o meu país vai mais longe! Muito mais longe!

O meu país engendra não um mas uma matilha de planos! Todos nacionais! Todos geniais!

Com comendadores e coordenadores e secretários generais bem arregimentados.

Ah! E tapetes de dimensão e textura a gosto. Têm é que ser VERMELHOS!

Da leitura e da escritura, das artes e das partes, do cinema e das teatradas, da matemática e da discalculia funcional, das literacias e da cartilha maternal, da juventude e da decrepitude (com workshops de maquilhagem e unhas de gel que mascarem as rugas e as cicatrizes da ignorância e da estupidez que, eminências pardas, reinam).

Também eu quero entrar na festa! Quero con-tri-bu…ir!

Também tenho um plano para acrescentar mais-valias e mãos-de-obra e mais cacofonia desta alegria estridente dos cidadãos que estão a melhorar a educação! PNJ! Plano Nacional da Jumentude!

Bute lá burrificar ainda mais o people dando-lhes a ilusão de que estão a aprender bué! Assim, com uma linguagem que chega a todos, que toca os corações. Youtubers da alegria da prestidigitação na educação!

Já estou a salivar!….

(Ou será da raiva que – já dizia o cantor poeta – me cresce nos dentes? E desta horrorizada constatação de que já não sei – como disse a poetisa – se [o meu país] é país ou orfanato?…)

Pobre país o meu

Vendado com tule e seda

Vestindo a miséria e a ética

A saúde a justiça a educação

Com esta armadura robótica da tecnologia quinquiquesimadimensional que enxota Cristo para um canto

Pois ela é que nos trará a redenção.

(Ai esta acidez com que estou hoje… o melhor é ir tomar uma pastilha Rennie a efervescer docemente num qualquer programa da manhã ou de canções à noite… Shhhhhh… bons sonhos…)

Maria Verde

2 COMMENTS

  1. …De facto também estou a ficar ácida e nem a Rennie me safa….cara colega permita-me aconselhar a curar esse profissionalismo tão deprimente com uma cura numa escola(???) num País dos PALOPS,há concursos do ME,muitas funcionam debaixo da mafurreira(uma árvore frondosa e onde o chão é a grande lousa)!
    E se a “depressão ” for muito profunda aconselho uma escola no Centro de África ou então basta atravessar o Mediterrâneo e caminhar até ao Norte de África mas não fiquem nos souks de Marrqueche ou Fez! E ninguém é obrigado a ser Prof.Hoje somos todos ‘multitask”… Desculpe lá o meu otimismo mas sou dos tempos em que entrar no estágio era difícil,para efectivar era preciso fazê-lo a 60 Km de casa (uma invenção dos ascendentes do senhor Nogueira.Já em pleno pós- 25 de Abril),não se ganhava nas férias como professor provisório.
    Em muitas disciplinas eram precisas 11 turmas (x 30 a 40 alunos,como no meu caso,na disciplina de Geografia),havia exames nacionais e a correção de mais de 500 provas e à borla!
    Os Profs mais competentes ficavam com trabalho até 7 de Agosto e o novo ano iniciava-se a 7 de Outubro.A RENDA de casa correspondia a 50% do vencimento! E nessa altura o salário base era se,melhante ao de juiz!O racio alunos /contínuo era de 1 para 100 alunos.Sim, contínuo não se ofendiam com a designação,estavam ali para nós e para os alunos,para as limpezas,para o socorro dos alunos,para a vigilância e conhecimento dos alunos,para o PBX,para o refeitório,eram o “faz tudo”, tinham trabalho muito exigente e como reza o dicionário era o ” imediato, o ininterrupto, continuado ou o ulterior em relação à Director/Direção e dos Profs..,Afinal, eram os “sucessores”do trabalho dos Profs,ao tempo as professoras eram apodadas de Senhoras Donas enquanto so Profs eram os senhores Dr ou Engenheiros,etc etc…
    Indisciplina ,hoje? Já havia alunos com faca na “Liga”,nomeadamente os filhos de pais alcoolizados e superpobres como no Barreiro e Almada.As Turmas tinham frequentemente entre 40 a 45 alunos alunos !
    Ir de carro para as escolas era um luxo,raramente os Profs tinham carro.Um carrito pequeno como um mini custava o equivalente a 1 ano de salários e não havia cartões de crédito nem empréstimos bancários e este era raríssimo mersmo para acompra de casa!
    Os Profs tinham de deixar as famílias e alugavam quartinho por esse País fora!
    E quanto aos Diretores/Reitores andavam vestidos com bata branca passeando-se pelos corredores demosntrando a sua afabilidade e autoridade e não ficavam na treta fechadinhos nos gabinetes e impampes sem receberem colegas ou encarregados de educação..estão sempre em reunião mas com imenso tempo para as fumarolas à porta das escolas!
    Tive a sorte de trabalhar com dirigentes cultos e afáveis…apesar dos tempos negros do salazarismo!Caso contrário podia sempre mudar de “esquina” e mudar de escola. Também tive a sorte de ter sido dirigente na conhecida gestão democráticom e confesso a minha alegria e a de uma equipa que apesar de entusiasmada pelos ventos democraticos não deixaram desrregular uma escola com milhares e milhares de alunos,exigindo a todos prestação de contas.Rigor e disciplina nunca foram conflituantes com democracia!Escolas sobrelotadas eram caso vulgar nas escolas secundárias( lembro que o Liceu da Amadora era um dos estabelecimentos com mais alunos no País:ao tempo mais de7000 alunos (sete).
    A maioria dos profs não tinham habilitações e faziam melhor papel dos muitos (infelizmente em demasia)que vão hoje para a formação docente não por vocação mas pelas notas baixíssimas do 12 ano,quase nunca na 1 prioridade!Tenho pena mas não podemos meter a cabeça na areia!
    E muitos conseguem “ficar”bons profissionais se entram em escolas superiuores de elevada exigência como são as ditas Universidades Classicas..mas ser bom Prof com um curso tirado numa escola de “Vão de escada” será bem mais difícil!
    Os concursos eram feitos à “unha”e salvem-se os “grandes”!
    Claro que estou feliz com a melhoria do sistema mas não é tudo,feio,mau e porco!Nem havia “burnout”Não tinhamos tempo,a licença de maternidade era de 30 dias e não existiam creches aos “molhos”Claro,que há muita coisa errada mas não é com a lenga-lenga da desgração que se faz um País melhor!Estamos sempre a gritar e a puxar a sai à mãe.
    Vivemos quotidianamente numa gurerra civil.Tudo e bem combinado.
    Agora são os Pros,logo a greve dos ditos assistentes operacionais(que pomposo),logo o amianto,depois a falta de casa para os profs,a moda agora é a greve climática…estamos assim!Começo a entender os populismos e os fascitóides e a culpa é de quem alimenta tudo isto sem o mínimo de consciência crítica!E o Senhor Nogueira e quejandos já aproveitaram a energia para rever a Lei de Bases do sistema Educativo de 1986 e onde tive o privilégio da dar alguns contributos para a deixar menos “reglamentarista”e atualizá-la na sua obsolescência? O Povo na sua sabedoria diz “ovelha que berra bocado que perde”.Pois é o blá blá não serve para nada.Deixamos esfumar as nossas capacidades de verdadeira intervenção!

    • Comecei a trabalhar em 1980. Conheço perfeitamente a realidade de que fala, Sr.ª D. Albina, e conheço a realidade atual.
      É bem verdade que puxamos a saia da mãe, que gritamos pelo que precisamos, que clamamos por justiça e pasme-se: clamamos para que se aplique a justiça e o que reza a própria Lei!
      Mas a mãe é surda, ou tapa os ouvidos, desvia o olhar e, quando se digna baixar a cabeça para mirar os pequenitos e insignificantes filhos, é para lhes prometer tudo- vai planear, vai executar, vai colocar, vai cumprir, vai mudar… E nós, calamos a boca, largamos a saia e vamos à nossa vida por uns tempos, aguardando que a mãe ponha em prática aquilo que prometeu. Afinal…É UMA MÃE! Nada feito.
      Já descobrimos que não temos mãe, nem pai, que andamos abandonados, que realmente o “blá blá” não serve para nada!! E não venha falar das turmas de 30/40 alunos- também as tive- das dificuldades monetárias- o meu salário mal chegava para pagar a renda de casa e a ama da minha filha, ficando o resto dos encargos para o meu marido- do não ter automóvel- não, era de transporte público e a pé, chovesse ou fizesse sol, noite ou dia, que se ia por carreiros e silvados até às escolas rurais, muitas vezes a funcionar em casas particulares- porque nada dessa conversa atenua as dificuldades e o desgaste atual.
      Outra época. Vivemos outras realidades. A VIOLÊNCIA NÃO É PONTUAL. É GENERALIZADA. Hoje, não se consegue dar uma aula.
      Só orientar o raciocínio é quase impossível em certas turmas. Uma gracinha, uma briga entre alunos, um palavrão, alguém que se levanta… … Sentimo-nos uns simples “bonecos insignificantes.” Humilhados constantemente.
      Alguém aguenta semelhante tratamento?
      Quem nos deve defender, coloca-se do lado dos agressores (salvo raras exceções) e assiste a maustratos como se uma peça de teatro fora.
      Nos anos 80/90 a situação NÃO ERA COMPARÁVEL!
      FORAM OS PASTORES QUE PERDERAM OS BOCADOS e nada mudaram, deixando agravar a situação ao ponto atual. POR ISSO, AS OVELHAS nada mais têm a fazer senão BERRAR!!!!!

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