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O dia em que fui cigano na Polónia…ou que tem Portimão a ver com Varsóvia?

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O que se passa na Polónia, com as leis estapafúrdias dos seus políticos no poder, sobre os campos de concentração e extermínio nazis e o seu discurso sobre a shoah entristece-me muito. Conheço bem o país e até já tentei aprender a língua (projeto suspenso, e de concretização difícil, nos meus recursos de tempo). Interesso-me muito pela história e pela cultura polacas e visitei o país várias vezes.

Na terceira vez que estive em Cracóvia fui, com um amigo polaco, tomar um café numa loja que ficava numa rua das traseiras da Basílica de Santa Maria, perto da praça principal da cidade. O sítio era engraçado e o café excelente. Quando entramos havia 2 ou 3 pessoas sentadas e um homem de pé encostado ao balcão. Servido o café, quando o meu colega saiu da mesa para pagar, foi abordado por esse indivíduo que lhe berrou uma série de coisas naquela língua incompreensível. As 2 únicas palavras que percebi da discussão acalorada, em que o espetador (com um cachecol preto com cruzes brancas) fechou os punhos face à cara do meu amigo, foram Cyganie e Portugalia. O homem dos punhos fechados dizia, a primeira, várias vezes, com cara zangada e o meu colega acenava comprometido e assustado para mim, balbuciando a segunda.

Fez-nos sair rapidamente dali a caminho da praça sempre cheia de gente. Lá me explicou, com tom envergonhado: o fulano tinha dito para sair dali porque, pelos vistos, era o dono ou coisa parecida, e no estabelecimento „não queria ciganos”. O meu tom de pele, moreno tostado para pálidos olhares polacos racistas, e o cabelo escuro espetado, fizeram-no decidir que era cliente indesejado.

E em Portugal não há coisas assim?

Já contei muitas vezes esta história mas lembrei-me dela ao ouvir as notícias sobre a escola de Portimão, sob suspeita de discriminar gravemente alunos ciganos, e ligando livremente no espírito essas notícias às notícias das leis feitas a martelo na Polónia. Portimão é tão Europa como Varsóvia, mas falou-se mais de Varsóvia, que de Portimão na imprensa portuguesa.

Num total de vários meses de permanência no país essa foi a única vez que me aconteceu tal coisa e me senti tão mal. Acho que o senhor não representa o que eu entendo daquele país, que considero muito melhor simbolizado pelos democratas que, há largos meses, se manifestam nas ruas contra as políticas contra o Estado de Direito, racistas e discriminatórias do Governo (e podem até ser minoria).

Mas sinto-me muito honrado pela confusão e aprendi com o que me fez experimentar: o que os ciganos experimentam tantas vezes e com mais gravidade (mesmo em Portugal).

Considero motivo de orgulho causar confusão a um racista. Mas fiquei triste por ver o racismo florescente no quotidiano, tão próximo e banal, num país, de que gosto tanto, e cuja história mereceria melhor presente.

Ensinar História é o caminho, não manipulá-la

Mas gostar da Polónia, ou lembrar o heroísmo do levantamento de Varsóvia ou da resistência aos Nazis, não pode ser comprometer a História e dourá-la. Aliás, não a dourar e ensiná-la é o caminho para resolver os problemas do presente, em que parece que quer voltar para nos consumir a todos nós, europeus.

Houve polacos que colaboraram com os nazis na perseguição aos judeus.

O racismo anti-semita continuou depois da 2ª guerra. E não há lei que impeça que isso seja verdade histórica.

Como é verdade histórica, que milhares de polacos se sacrificaram, à sua vida e famílias, para lutar pela liberdade e vida de todos os cidadãos (judeus incluídos) desse território de fronteiras tão variáveis que é a Polónia.

Em Kielce estive perto do local onde aconteceu em julho de 1946 um pogrom em que, entre 38 a 42 pessoas (judeus), foram mortos, já a ocupação nazi tinha terminado há bastante.

Kielce é uma cidade que terá o tamanho de Braga, no centro da Polónia, e que tinha 27 mil judeus no início da guerra. Depois da guerra sobreviviam umas centenas, que acabaram por fugir para Israel ou EUA, na maioria.

Os judeus polacos fugiram quase todos depois desse pogrom de Kielce com medo que, depois da guerra, alguém terminasse, matando os poucos sobreviventes, o que os nazis tinham começado.

Pergunto-me o que será do monumento, inaugurado em 2006?

E será lícito, face às novas estúpidas leis, dizer-se „massacre de judeus polacos por outros polacos” ou só é permitido „massacre de judeus na Polónia?”

E será que os nossos alunos, que supostamente devíamos preparar para “terem um perfil” que lhes permita entender a Europa em que vão viver, entenderiam, seja com flexibilidade ou com rigidez, todas as faces do assunto de que estou a tentar falar neste texto? Amanhã, voltamos a ele por via das questões da escolaridade dos ciganos portugueses.

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