Início Editorial O currículo sobre a Guerra na guerra do currículo

O currículo sobre a Guerra na guerra do currículo

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Passam 80 anos sobre o início da Segunda Guerra Mundial e o presidente Marcelo apelou a que o assunto seja mais estudado nas escolas.

E tem razão.

No meio da salada curricular em que o Ensino Básico está transformado é possível que os alunos não tenham tempo de estudar nunca como começou a 2ª guerra mundial, o seu desenrolar e efeitos de longo prazo.
A guerra começou pela invasão da Polónia, pelas forças do III Reich, após umas encenações nazis monstruosas de uns ataques às fronteiras da Alemanha pelo frágil exército polaco.
Hitler precisava de uma justificação para o seu ataque e, além de uns incidentes na zona de Dantzig (hoje Gdansk), encenou, como desculpa, antes da sua invasão, um ataque a um posto fronteiriço, por prisioneiros disfarçados de falsos soldados polacos.
A invasão esteve coordenada com as forças soviéticas que, uma semana antes, tinham assegurado um pacto, que dividia a Polónia em 3 partes: uma parte germanizada e anexada ao Reich, outra à União Soviética e outra ocupada pelo Reich sob o nome de Governo Geral.

A guerra foi começando ao ritmo das declarações de guerra dos vários países.

Não há tempo….

O resumo é impreciso, mas creio que devo ter aqui mais informação sobre a complexidade do início da guerra do que aquela que se pode tirar das linhas curriculares, previstas no programa de História de um aluno que termine a disciplina no 9º ano.

No secundário, estuda-se mais o tema, mas disperso em várias disciplinas e só para os que as tenham. A não ser que escolha a opção de História, ou seja autodidata, um futuro engenheiro ou médico dificilmente estudará, numa idade em que a sua compreensão poderia ser mais frutífera, os temas da guerra nazi a leste, da perseguição aos judeus ou dos eslavos e da sua resistência ou a essencial questão dos campos de concentração nazis na Polónia.

Marcelo quer mais. E tem razão. Mas, para isso, era preciso mudar de cima a baixo o encadeamento em ciclos e anos e as prioridades dos programas de História do 5º ao 12º ano, valorizar a disciplina como disciplina de formação geral fundamental e coordená-la melhor no básico e secundário com Geografia e Cidadania ou no Secundário com Filosofia, Geografia, Economia e outras.

E talvez cortar muita coisa inútil e disparatada do currículo para caber com qualidade o que realmente faz falta.

E isto não vai ser feito com a politiquice curricular dos últimos 4 anos, com os trauliteiros curriculares da flexibilidade à bruta e com a transversalidade anti-histórica que por aí grassa.

Por mim, penso ir pedir um apoio ao presidente para o projeto de tentar levar, daqui a uns anos, os alunos do 9º ano da minha escola (que agora começam o 7º) às praias de desembarque do Dia D ou até aos campos de Auschwitz-Birkenau e Treblinka.

Entretanto, não espero parado que os programas ganhem tino e haja tempo para ensinar o que faz falta, nestes tempos de Bolsonaros, Trumps, Salvinis e Orbans.

PS e nota pessoal:

No último ano, desde o debate da ILC sobre tempo de serviço docente, por fortes razões pessoais e de saúde, estive razoavelmente distante dos trabalhos do blogue. Agradeço ao Alexandre e restantes colaboradores a compreensão para a minha ausência.
Simbolicamente combinamos que regressaria com um texto no início de Setembro, mesmo sabendo que que estaria ausente todo o mês.
Sendo candidato (3º suplente) na lista do Bloco de Esquerda em Viana do Castelo, mandam as regras, que criamos nesta equipa, que não faça comentários no blogue durante a campanha, que possam ser interpretados como propaganda eleitoral. Mas tenho o direito de explicar aqui o meu ponto de vista.

A minha participação eleitoral mais ativa tem um forte incentivo duplamente motivador.

Viana do Castelo, circulo pequeno e pouco proporcional, é um dos locais em que se discutiu no passado a existência ou não de uma maioria absoluta (recordo que, quando Guterres não a obteve, o deputado que lhe faltou foi o limiano Daniel Campelo, eleito pelo círculo de Viana….).

Mesmo se o PS obtiver 3 dos 6 deputados em Viana e ficar pelo limiar da maioria absoluta (com 3 distribuídos por outros partidos), em que anda hoje, talvez esta fique mesmo só pelo limiar.

Além disso, o candidato cabeça de lista do PS por Viana é o inepto, e tão querido pelos docentes, Tiago Brandão Rodrigues, o ministro nulo, que detesto pensar que foi um dos poucos ministros que o Alto Minho deu à Democracia nestes 45 anos.

Já sei que ouvirei muitas bocas e palpites por causa deste regresso numa lista à política mais ativa, num partido diferente, 14 anos depois (fui militante e dirigente do Partido Socialista nos anos 90 e até 2005). Para os comentários, que já adivinho antipáticos, 2 notas apenas.

Uma, ter sido militante do Partido Socialista há 14 anos não me envergonha, nem me limita. Tive a honra de trabalhar nesses anos com um dos fundadores do partido, ilustre advogado, democrata e constituinte do tempo em que a política não dava currículo, mas sim cadastro, como ele dizia.

E claramente orgulho-me muito da carta de demissão que escrevi em 2005 (legível no link). E orgulho-me bastante de nunca ter apoiado ou votado Sócrates (cuja eleição foi um dos motivos para me vir embora, muito longe se saber o que se descobriu depois, quando tantos ainda o idolatravam pela sua maioria absoluta).

Outra nota, os 30 dias de “folga” por conta da campanha vão ser mesmo passados a bulir pelos objetivos motivadores que estão acima descritos.

Em Portugal, a participação política implica listas, partidos, campanhas e eleições.

Para quem acha que não deve sujar as mãos com isso, respeito. Mas eu decidi sujar-me e sujeitar-me às bocas. Uma das coisas que espero fazer é andar pelas escolas, nas salas de professores, a explicar os pontos acima.

Meia dúzia de votos a menos na “maioria absoluta” podem ser muito relevantes. Espero que, pelo menos, ajudar os professores e as pessoas mais ligadas à educação da minha terra a ver a importância disso.

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