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O Campeonato Do Francisco É Outro – Isabel Moreira

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O Francisco tem 13 anos e muitas dificuldades na leitura e na escrita. A vida não o tem poupado, faltou muitas vezes à escola para tomar conta dos irmãos, quando ainda nem idade tinha para tomar conta dele próprio, viu coisas que uma criança não devia ver nunca, e as marcas da violência e da negligência, ele tenta camuflá-las com um sorriso pronto mas curto. Apesar disto, participa em todos os projetos da turma, é muito perspicaz e de uma inteligência instintiva impressionante.

E, enquanto o Ministério da Educação insistir em disponibilizar os dados e os órgãos de comunicação social apostarem vendas em pódios de escolas, eu pensarei nos Franciscos deste País. As escolas são caixas de cimento com grades a cercar a sua área. Algumas nem espaços verdes têm, mas lá dentro estão pessoas, acreditem. Pessoas que ousam não desistir, mesmo quando os pódios vendidos em forma de manchetes remetem o esforço e a energia de anos a fio para os últimos lugares de um ranking. Pessoas que não desistem quando sabem que têm à sua frente crianças e jovens que a única refeição completa que fazem é ali; que têm pais com menos escolaridade que os filhos e mães que saem de casa quando eles ainda dormem e que chegam quando já é noite escura; que a primeira vez que foram a um museu ou a um teatro foi porque a escola os levou; que ouviram a professora falar em coisas que nunca tinham ouvido em casa e que pensavam até que não se podiam dizer.

Quando penso em rankings, penso em corridas e pódios, e, na verdade, quando estoura o tiro de partida, alguns atletas levam já quilómetros de avanço. Reduzir escolas e projetos educativos a exames nacionais e com isso construir rankings é como comparar Usain Bolt a um velocista não profissional. As condições de treino são incomparavelmente diferentes, o contexto familiar, o percurso escolar, as condições socioeconómicas, entre tantos outros fatores, não podem ser esmagados pelo alfa e ómega do exame nacional. A qualidade das escolas e a do processo ensino-aprendizagem estão muito para lá dos resultados dos exames nacionais; aliás, qual é a vantagem de definir rankings e a quem serve esta lógica de hierarquização de escolas em função dos exames nacionais? As escolas são, as públicas, pelo menos, muito mais do que isso, e os rankings não podem ser momentos de marketing e publicidade de escolas privadas para angariarem clientes. A escola pública pode e deve mitigar as desigualdades económicas e sociais, e não reproduzi-las, e esta lógica assente nos resultados finais, e não em todo o percurso, agrava esse fosso, e os rankings legitimam-no.

O Francisco lá chegará, espero, ao 9º e ao 12º anos. Não sei se fará os exames nacionais, e a sua escola até poderá ficar lá para baixo, no fim do ranking, mas isso não lhe retira valor absolutamente nenhum, nem aos professores nem a todos os que o acompanharam. O seu campeonato é outro, e os exames nacionais não têm bitola para isso.

Isabel Moreira

Fonte: Visão

1 COMMENT

  1. O Francisco tem de ter muito mais do que escola para acompanhar o ritmo da sociedade. Nos casos como o do Francisco, tem de atuar uma equipa multidisciplinar (psicólogo, assistente social, pediatra, etc.). O Francisco não pode tomar conta dos irmãos, tem de fazer os TPC, essa tarefa tem de ser assumida pelo Estado. A sua escola não pode ser uma caixa de cimento com grades. tem de ser um lugar de que o Francisco se recorde com prazer quando for grande, tem de ser um lugar bonito, um lugar onde germine a fantasia e o sonho, uma experiência compensatória que possa transmitir aos filhos. Se se considerar que o Francisco é apenas responsabilidade da escola, então o Francisco dará lugar a outros Franciscos. A inação e a indiferença alimentará a pobreza intergeracional que nos afeta a todos. O Francisco tem de ser promovido ao lugar do pódio, não pode ajustar-se um pódio liliputiano à fasquia da sua situação, esse é o caminho de varrer o problema para debaixo do tapete. Não podem aplainar-se os pódios ou arranjar um pódio de consolação para o Francisco, isso é transitar o problema para os netos e bisnetos do Francisco. Como diz, Mário Nogueira, não se podem comparar alhos com bugalhos, mas os Franciscos têm de ser alvo de um programa de discriminação positiva individual, baseado na interpretação do seu quadro económico-social. Os Franciscos não podem aspirar apenas à segunda e à terceira divisão do campeonato, mas a primeira divisão é defensável que exista e deve ser uma oportunidade para todos os Franciscos. A sociedade precisa.

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