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“O calendário escolar desconhece palavras tão simples como respeito, consideração, compreensão, sensatez”

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Todos sabemos como foi viver a escola desde o dia 13 de março, quando nos foi comunicado que, na segunda-feira seguinte, todas as escolas encerrariam. Não vou deter-me em reflexões sobre aqueles que não se entregaram ao [email protected], porque vou lendo relatos de que os há, mas, como professora e como mãe de um aluno a terminar o segundo ciclo, não conheço nenhum. Todos aqueles que conheço assumiram que ensinar era uma missão a cumprir com total entrega e dedicação, esquecendo que havia uma fronteira entre a escola e a casa. Se ela se transpunha de quando em vez? Claro, embora não como agora. Nada era antes como foi agora.

E essa excecionalidade foi entendida, sem reivindicações nem revoltas, por todos: professores que abraçaram o desafio, empenhando tempo, tantas vezes roubado ao sono, ao descanso e ao lazer; alunos que deram o melhor de si e que descobriram que podiam ser e fazer mais e melhor; pais que se desdobraram em esforços para apoiar os filhos e colaborar com as escolas; e famílias que se (re)organizaram para que tudo fosse possível. Se houve quem não o fizesse? Claro, apesar de não ter sido, certamente, a maioria.

O país conheceu melhor a escola ao longo dos últimos meses – conheceu uma escola que se transcende, que se reinventa, que se esquece dos limites e conheceu a abnegação dos professores e a fibra dos alunos – e percebeu o cansaço e a exaustão de professores e de alunos, num ano letivo que foi prolongado sem explicações públicas, deixando aberto um imenso espaço para infinitas suposições, que pareceu um castigo imerecido e tão difícil de suportar.

Por tudo isso, o calendário escolar do próximo ano letivo parece desconhecer palavras tão simples como respeito, consideração, compreensão, sensatez. Nós, professores, terminamos o ano letivo esgotados de tanta entrega, de tanto horário corrompido, de tanto investimento em tempo, em recursos, em investigação, e os nossos alunos terminam-no de coração apertado pela despedida vivida na solidão das suas casas, pela incerteza em relação ao que aprenderam e ao que ficou por aprender, ao que o futuro lhes trará, já em setembro, pela inconstância instalada. Demos tudo o que podíamos e mais ainda e, em setembro, teremos de dar ainda mais e por mais tempo, num ano que se prolongará declaradamente até mais tarde, com menos pausas pelo meio, sugando-nos até ao tutano. Em nome de quê? Que ganharemos com isto? Esfrangalharemos emoções e sentimentos e somaremos problemas que ficarão para sempre.

Hoje, reli um texto Calendário Escolar Português vs Europa  publicado neste blogue no início deste ano letivo. Temos tido aproximadamente o mesmo número de dias de aulas da maioria dos países da Europa, mas com menos pausas ao longo ano e com férias de verão maiores, devido ao clima. A partir de setembro, teremos mais dias de aulas, menos pausas, férias de verão equivalentes. A partir de setembro, estaremos lá, arrastando as penas deste ano letivo e somando outras. A partir de setembro, que será de todos nós?

NOTA: A todos aqueles que, ultimamente, têm erguido a voz para criticar a escola e os professores, deixo apenas um velho e sapientíssimo ditado – “A palavras loucas, orelhas moucas.”.

 Rita Mendes

9 COMMENTS

  1. Eu acho que os professores devem continuar a fazer das tripas coração.
    Assim terão palmas das varandas dos tugas .

  2. Eu acho que está nas maõs dos pais e e.e insurgirem_se contra as loucuras desta gente, incluindo o termos 28 ou 30 alunos em salas minusculas. Mas só os pais podem travar estas barbaridades. Os professores não têm voz.

  3. Muito bem Helder!
    Mais, deverão até entregar um ou dois salários anuais para o bem comum!
    É com textos como este, mansos e sem nenhum efeito, que o governo vai na maior e o ME aplaude na pessoa do garoto.

  4. Os pais passaram a vida a dizer mal dos professores. Um ou outro agradeceu, mas o PS sabe que a maioria odeia professores. Mas, considero que ainda bem. Pois na hora de verdade vai tudo votar neles como se fosse num clube de futebol. Fartinho estou deste país de gente triste, invejosa e má.

  5. Subscrevo completamente o que é referido no texto da Rita Mendes. Contudo, quando as “palavras loucas” são proferidas por responsáveis pela escola fazer “orelhas moucas” pode levar-nos, mais rapidamente, para um situação de surdez absoluta.

  6. Podem dar-se por satisfeitos, porque podem continuar com o seu emprego para a vida. Não se esqueçam quem perdeu tudo, ou está em vias de perder. Se trabalhou mais e vai trabalhar, não faz mais que a sua obrigação, tenha vergonha!!!

    • Está a misturar alhos com bogalhos. Quer comparar a sua situação com os refugiados ou as crianças que estão a morrer à fome?

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