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“O Anormal Do Manel, A Filha Da P#ta Da Francisca. Os Nomes São Todos Assim”

Existem grupos de WhatsApp criados por crianças e adolescentes com o único objetivo de humilhar os colegas. A MAGG foi ouvir histórias.

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A filha mais velha de Alexandra (nome fictício) tinha 12 anos quando a mãe de três filhos, com idades entre os 10 e os 20 anos, descobriu que Madalena (nome fictício) estava a ser vítima de bullying digital. “Fui alertada pela mãe de uma colega da Madalena, que era minha amiga, que me falou da existência de um grupo privado no Facebook, cujo objetivo era gozar com a minha filha”, conta à MAGG a consultora de 47 anos.

O episódio passou-se há cerca de oito anos, quando Madalena, hoje com 20, começou o 7.º ano de escolaridade. A turma tinha alunos que já acompanhavam a filha de Alexandra há alguns anos, outros eram elementos novos.

No início desse ano letivo, e sem o conhecimento da jovem, um grupo privado no Facebook com cerca de 20 participantes, quase a totalidade dos alunos da turma em questão, esteve online durante cerca de três semanas com o único intuito de humilhar Madalena — e os insultos multiplicavam-se.

“A Madalena sempre foi uma miúda muito rechonchuda, mas tinha e tem uma auto-estima elevada”, conta Alexandra, que partilha que, até este episódio, a filha era “algo gozada, olhada pelos outros, mas era tudo controlado”.

Quando teve acesso ao grupo privado, através da colega de Madalena, Alexandra viu que a obesidade da jovem era o alvo primordial do gozo dos colegas de turma.

“‘A gordura dá para isto’, ‘é uma baleia, sai de fora de água’, ‘foca’. Era sempre por aí, insultos por ser muito gordinha. Fiquei cega, porque eram coisas mesmo muito graves, mas fiquei também assustada, revoltada, zangada, magoada”, recorda Alexandra.

Mas a mãe de três filhos reagiu. Fez prints das publicações partilhadas no grupo, das imagens e dos nomes dos agressores: “Imprimi tudo e fui à polícia, fiz queixa e as autoridades começaram a identificar os miúdos. Também fui à escola e partilhei o sucedido com a diretora de turma”.

O bullying à distância de um clique: o que são os grupos “anti”?

O bullying não é novidade para ninguém, e é uma infeliz realidade também nas escolas portuguesas, embora os dados mais recentes indiquem uma descida nos episódios de agressões reportados pelas escolas. De acordo com informações do inquérito TALIS (Teaching and Learning International Survey), divulgado a 4 de setembro pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Portugal baixou de 15,3% de episódios de bullying, reportados em 2013, para 7,3% em 2018. Mas em contracorrente com estes dados, os grupos de ódio digitais entre crianças e adolescentes têm sido mais frequentes.

“Tenho conhecimento destes grupos, embora não consiga falar da dimensão dos mesmos. Mas têm sido mais frequentes nos últimos dois anos”, refere João Pina, programador informático e fundador da VOST Portugal, cujas siglas significam Voluntários Digitais em Situações de Emergências.

Alexandra viu o que era ter um filho no papel de vítima — ou seja, o principal alvo de um grupo de ódio. Mas com Ricardo (nome fictício), dois anos mais novo, percebeu também o que era estar do outro lado.

“O meu filho Ricardo [nome fictício] é constantemente adicionado neste tipo de grupos. Ele hoje tem 18 anos, está no 12.º ano, mas isto acontece desde os 12, 13 anos de idade, talvez desde o 7.º ano. Tem sido uma constante quase todos os anos letivos”.

De um momento para o outro, o jovem recebe um alerta que foi adicionado ao grupo X, cujo nome do mesmo não deixa dúvidas sobre o propósito. “Porca da Joana, o anormal do Manel, a filha da p#ta da Francisca. Os nomes são todos assim. O ‘procedimento’ é adicionar todos os alunos da turma, menos a vítima dos insultos, e começar a gozar com o colega”, explica Alexandra.

A forma digital pode ser recente, mas o intuito de unir pessoas em grupo para insultar pares é uma prática antiga. Quem o diz é a psicóloga clínica Vera Lisa Barroso: “O bullying não é uma realidade dos tempos modernos, tem apenas vindo a atualizar as suas formas de atuação e despertado cada vez mais o interesse de investigadores já desde os anos 80”.

Para a especialista, as redes sociais facilitam a constituição deste tipo de grupos: “É rápido, intuitivo, gratuito, permite anexar fotos, imagens, vídeos, tudo isto com a possibilidade de reunir pessoas num grupo temático em segundos. Atualmente, a grande maioria dos jovens tem smartphone e faz uso diário de redes sociais e aplicações de conversação”.

Mas o que leva crianças e jovens, muitas vezes com idades como 10 e 11 anos, a gozarem propositadamente com os colegas? “São inúmeras as razões que estão na base destes comportamentos. Podemos estar na presença de crianças deprimidas, que materializam tristeza sob a forma de zanga e agressividade; jovens com baixa auto-estima que precisam de se afirmar para obter reconhecimento e popularidade; crianças que sofrem maus tratos físicos, psicológicos e/ou negligência, reproduzindo nos outros as suas feridas emocionais, jovens com baixa capacidade de tolerância à frustração e falta de limites que reagem impulsivamente a situações de contrariedade ou conflito com pares”, explica Vera Lisa Barroso.

No caso de Madalena, o motivo dos insultos era a obesidade da jovem. E embora Alexandra reconheça que as características físicas das crianças e jovens continuem a ser o alvo primordial de gozo, a sociedade de hoje em dia trouxe outras questões.

“O Ricardo chegou a mostrar-me muitos destes grupos ‘anti’ no WhatsApp e, atualmente, as preferências sexuais dos miúdos também são um alvo destes grupos de ódio, dado que, hoje em dia, os jovens assumem muito mais cedo estas mesmas preferências”, refere Alexandra.

Para Vera Lisa Barroso, uma coisa é certa: “Dificilmente uma criança, ou jovem, emocionalmente estável e saudável, chefiará grupos de ódio ou ‘anti’”. E foi justamente isso que aconteceu no caso de Madalena.

“Depois de fazer queixa na polícia e de as autoridades começarem a identificar os miúdos e a chamar os pais destes à esquadra, dado que como se tratavam de menores, eram os pais a responder por eles. Percebeu-se que o líder do grupo, que o formou e que incentivou a este comportamento, vinha de um ambiente familiar muito desestruturado. Tinha pais divorciados e um irmão muito mais velho que já tinha sido preso”, recorda Alexandra.

Sem pretender indemnizações por danos morais, e depois de o assunto se ter tornado público, Alexandra resolveu não avançar com a queixa: “O grupo foi apagado, a grande maioria da turma desenvolveu um sentimento de culpa muito grande, existiram pedidos de desculpas formais à minha filha e o reconhecimento que entraram numa brincadeira parva, em que não avaliaram as verdadeiras consequências do que estavam a fazer”.

As escolas não podem atuar no domínio dos grupos digitais — mas há que reagir

Ao mesmo tempo que se dirigiu às autoridades, Alexandra informou a escola do que se estava a passar com a filha. Mas apesar de ter sentido o apoio da diretora de turma, a mãe de três filhos foi informada de que a escola não podia fazer muito em relação ao sucedido.

“A professora avisou-me logo que, devido a tudo se tratarem de agressões digitais e, por isso, externas e fora do domínio do recinto escolar, a escola não podia ser envolvida, nem chamar os pais dos miúdos que participaram neste mesmo grupo. Mas aproveitou as disciplinas de responsabilidade social, como cidadania, formação cívica, para abordar o tema no geral, dar palestras e trabalhar a questão do bullying, que também era situações de internet, etc.”, recorda Alexandra, que manteve a escola a par da queixa que tinha iniciado junto da polícia — e que defende que os pais têm de atuar.

Para a consultora, “é preciso fazer queixa, defendo mesmo que os pais recorram à polícia, que comuniquem à escola — mas sem violência”. Mas tal não é fácil, e Alexandra reconhece que os pais nem sempre reagem da mesma forma, principalmente quando o bullying acontece com jovens mais velhos, no ensino secundário.

“Querem bater nos miúdos, partir para a violência. Não é um período fácil, é verdade. Quando a Madalena descobriu o que se passava, e descobriu pouco antes de mim, também partiu para as escaramuças. Foi tirar satisfações com os colegas, e existiram alguns empurrões e encontrões”, salienta Alexandra.

A consultora falou com a filha, pediu-lhe calma, apelou a que não reagisse a provocações, que se mantivesse tranquila, e declarou-lhe que, a partir desse momento, a mãe tomava conta do assunto.

“Expliquei-lhe que, até aos 18 anos, eu era responsável pelos atos dela e que ia agir de imediato. Mas também realcei que o que se tinha passado era uma agressão moral, não era aceitável, que as ações tinham consequências e que as pessoas tinham de ser responsabilizadas pelos seus atos”.

Madalena não ficou com medo de ir para a escola, nem pediu para ficar em casa. Nos anos seguintes, continuou a ser alvo de algum bullying devido ao excesso de peso e, no 10.º ano, após uma mudança de escola, chegou a ter de ser acompanhada por um psicólogo. Mas manteve a sua auto-estima e, hoje em dia, já na faculdade, aproveita as férias para trabalhar com crianças e é uma pessoa muito atenta ao que se passa com os miúdos, sendo a primeira a ajudar quando se depara com situações de bullying.

Mas nem sempre é assim. Alexandra, que tanto com o percurso de Madalena como com o de Ricardo, ficou mais atenta a estas questões, refere que há muitos miúdos que mudam de escola por causa do bullying. “Os pais acabam por optar pela transferência escolar nos casos de agressões”, salienta à MAGG.

Qual é o papel dos pais?

Não é fácil para um pai perceber que o filho é vítima de bullying, nem chegar à conclusão de que este participa ativamente em grupos de ódio no papel do agressor. Mas como podem os pais estar em cima deste assunto?

“Não há muito mais a fazer do que estar atento e consultar o telemóvel dos miúdos, embora isso possa roçar a invasão de privacidade. Mas, na prática, é a única forma de controlar ativamente estas questões, dado que aplicações como o WhatsApp ou mesmo o Instagram não possuem mecanismos de redes que possam ajudar os pais a ter ferramentas de controle, nem são obrigadas a tal moralmente. Isto porque os termos destas mesmas aplicações e redes sociais, salvo erro, proíbem a utilização por menores de 14 anos”, refere o programador informático João Pina.

O especialista informático não acredita que adiar o momento de deixar os miúdos terem telemóvel ou proibir a utilização de apps, redes sociais ou internet seja a solução. “Em qualquer sítio há internet, em todo o lado há acesso e depois há a questão do fruto proibido ser o mais apetecido. Acho mais útil apostar na responsabilização dos jovens, e não na proibição”, salienta.

A psicóloga clínica Vera Lisa Barroso refere que os educadores devem estar atentos aos miúdos, e a estas questões em particular, sendo que não considera primordial, pelo menos de forma recorrente, a consulta dos telefones dos filhos.

“Pais atentos conseguem identificar quando os seus filhos não estão bem, têm algum problema ou precisam de ajuda, não tendo necessariamente de invadir a privacidade do adolescente e quebrar a sua confiança. Estar presente, conversar e respeitar as dificuldades e necessidades dos filhos é um excelente suporte. No caso de crianças pequenas, estas não deveriam sequer ter telemóvel para poderem brincar umas com as outras, desenvolverem as suas competências sócio-emocionais e prevenirem situações de bullying mais tarde”, afirma a especialista.

Mas no caso dos grupos “anti”, como devem os pais abordar a questão? No papel de pais das vítimas, Vera Lisa Barroso defende que os educadores abordem o assunto com o filho “num momento tranquilo e sem pressas, não pressionando a criança a falar sobre o tema, respeitando os seus silêncios e dificuldades em conversar sobre a situação, bem como sublinhar a coragem e agradecer a confiança pela partilha, perguntar em que pode ajudar, pensar num plano de intervenção em conjunto”.

Na dinâmica de pais dos agressores, estes devem também abordar o assunto com calma, mas nunca minimizando a situação. “É preciso ajudar a criança ou jovem a criar consciência sobre o seu comportamento, o que sente quando o faz e qual o papel da sua agressividade, ajudar os filhos a tomar consciência das consequências no outro e a colocar-se na posição da vítima”, refere a especialista.

Quer no caso de vítimas ou de agressores, Vera Lisa Barroso acredita que os pais não devem “culpabilizar, envergonhar, minimizar, ignorar, sugerir lutar com o agressor, ou tentar resolver a situação não envolvendo a criança ou jovem”. Para a especialista, é necessário “solicitar apoio especializado perante dificuldades em lidar com a situação”.

As consequências do bullying a médio e longo prazo

Embora não seja fácil definir as consequências deste tipo de abusos a médio e a longo prazo, até porque estas situações dependem de muitos fatores como a idade em que sucedem, o tipo e duração do abuso, entre outros, Vera Lisa Barroso admite que podem existir sequelas.

“De forma genérica, podemos destacar o impacto em termos emocionais, como medos, raiva e frustração, tristeza, e também em termos cognitivos, como a diminuição da capacidade de concentração, motivação, objetivos futuros, rendimento escolar. Podem tornar-se jovens e adultos mais isolados, agressivos e impulsivos, e até desenvolver quadros de ansiedade, perturbações de personalidade e depressões”.

Alexandra pode respirar fundo neste sentido: viu a filha Madalena a ultrapassar a situação e o filho Ricardo a tornar-se num apoio para os colegas agredidos nestes grupos de WhatsApp.

“Graças a Deus, e aos valores que lhe passei, o meu filho sai imediatamente dos grupos e acaba por ser um apoio na escola para os colegas visados. E ainda me chegou a mostrar muitos grupos, dando-me a oportunidade de alertar os pais das vítimas”. No entanto, admite Alexandra, já tem algum receio do que o próximo ano letivo pode significar para o filho mais novo, de 10 anos, prestes a iniciar o 5.º ano de escolaridade.

“Deixa lá ver o que se vai passar com o mais novo, até porque percebi que muitos dos colegas ganharam telemóveis nestas férias grandes, embora eu pretenda adiar isso o mais possível”.

Ainda assim, a consultora não acredita que as redes sociais, a internet ou as aplicações sejam as culpadas do bullying, nem que estes meios o facilitem: “É apenas mais uma forma para agredir, é mais um meio. Mas o que estes miúdos se esquecem é que agora é muito mais fácil provar. Dantes só tínhamos a nossa palavra, agora temos provas, temos prints, temos imagens. Se vai para a internet, há uma prova e acabou”.

Fonte: MAGG

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