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O Admirável Mundo Velho

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Entre os professores parece ser grande a expectativa quanto ao mundo novo que virá com o fim da pandemia. A par de alguns mais reticentes, há quem não disfarce o optimismo com a generalização do ensino on line. Pela minha parte, estou apenas expectante… A utilização massiva deste ensino à distância pode não implicar alterações substantivas. Tomo como útil a distinção entre cultura e tecnologia, grosso modo, entre as ideias e as ferramentas utilizadas para as concretizar. E a cultura não mudou. Neste sentido, uma alteração tecnológica pode servir, justamente, para reforçar as directrizes preexistentes. No limite para acentuar uns aspectos em detrimento de outros, até os mais nefastos. Em síntese, pode vir aí um admirável mundo… velho. É o mais provável no sistema de ensino.

Aqui, neste agrupamento, na primeira semana de aulas foi dito aos professores que aguardassem e não desenvolvessem trabalho com os alunos. Na última 5º feira, depois das 17.00, recebemos um email a convocar uma reunião geral de professores on line para o dia seguinte, às 11.00. Vivemos tempos instáveis, é compreensível este menosprezo da legislação que estabelece um período 48 horas entre a convocatória e o momento das reuniões. Todavia, em boa verdade, este menosprezo da legislação já não é novo. É apenas uma repetição. Um sinal de uma normalizada desregulação laboral. O uso da internet apenas tornou a prática opaca e natural. Afinal, estando todos em casa qual é a diferença entre uma reunião hoje ou amanhã? Fará sentido estabelecer um horário de trabalho?

Vamos encontrando algumas notas de inquietação com as intrusões nas aulas on line. Há, igualmente, quem dê conta da presença, mais ou menos escamoteada, de pais junto dos alunos. A mim, onde estou, faz-me pensar a associação da direcção da escola a todos os grupos-turma on-line, talvez seja impertinência minha. De resto, como o Director explicou, não estão lá para ”controlar” mas para ter noção de “como as coisas correm”. O espaço da sala de aula terá perdido, de vez, o seu caracter reservado? Ou, simplesmente, a exposição da sala de aula seja mais aceitável. Ainda há pouco tempo ficávamos chocados com a divulgação de imagens do interior das salas feitas por telemóvel… Eu lembro-me bem de um Director conhecido por cirandar nos corredores enquanto espreitava pelos vidros das portas das salas. Quem advinha onde estaria agora, bastava-lhe ficar frente ao ecrã? Maís fácil, expedito e eficiente.

Sim, o espaço da adivinhação parece ser exponencial. Percebemo-lo quando se trocam informações sobre o trabalho desenvolvido em cada uma das escolas. Tamanha a diversidade de práticas. Tenho uma imensa compaixão pelos colegas presos ao computador, em reuniões on line, inundados por emails de alunos, sufocados com relatórios. Estou solidário com o seu desgaste. Neste lugar onde estou, pedem-nos para não “enxercar” os alunos com trabalhos. Devemos ser muito comedidos, “imaginem se cada disciplina pede trabalhos para daqui por quinze dias…”, esclarecem. Sim, percebe-se o sentido, é somente para entreter? Porque não assumir a opção? Enfim, entre o oitenta e o oito, há espaço para muitas aritméticas. Fruto desta diversidade de escolhas, no final do ano lectivo, por certo, as várias escolas terão formado estudantes com competências e conhecimentos bem díspares, para não escrever assimétricos. Dando continuidade ao caminho trilhado aos longos dos últimos anos. Possivelmente, nos rankings as posições estarão mais bem definidos.

Adiante, nem todas as continuidades são tão notórias. Algumas há mais dissimuladas, em construção, simplesmente suspeitas. Até se confirmarem. Por exemplo, o Director deste agrupamento, ecoando reuniões nas estruturas ministeriais, assegurou aos professores que este tipo de ensino à distância veio para ficar, poderá manter-se em Setembro próximo, em algumas regiões. Associem este comentário à austeridade já aventada, a todo um histórico de agrupamento de escolas, à reconfiguração dos quadros docentes… Mas fiquemos tranquilos, como o ficaram todos os presentes. Ninguém pediu esclarecimentos ou manifestou curiosidade. Não obstante trabalharem num pequeníssimo agrupamento sob o qual têm pairado (e parado) os fantasmas da integração ou do encerramento.

Este parece ser, mesmo, um admirável mundo velho. A cultura, as ideias a concretizar, os propósitos são os de sempre. Nem outra coisa foi anunciada ou seria ponderável. O Ministério e o seu aparelho dão continuidade ao curso traçado. Nesta circunstância limitam-se a fazer uso de uma tecnologia apropriada ao momento, diria, de reforçada eficácia. E velocidade. Com resultados quase imperceptíveis.

Luís Miguel Pereira

2 COMMENTS

    • A melhor Cidadania nesta fase, é a consciencialização da realidade e o cumprimento das orientações da DGS e Escola.

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