Início Editorial “Nunca Consegui Ensinar Quem Não Quisesse Aprender”

“Nunca Consegui Ensinar Quem Não Quisesse Aprender”

Se o aluno já sabe ler, se o aluno já sabe escrever, se o aluno já sabe fazer contas, se o aluno até já consegue arranhar uma 2ª língua, por que motivo se obriga alguém a estar na escola até aos 18 anos de idade?

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Quem me disse esta frase foi uma professora reformada com 40 anos de serviço, tendo passado por todo o tipo de cargos, inclusive pela direção da escola.

Em tempos de flexibilização e inclusão, onde tudo é permitido dentro do pacote legislativo do Ministério da Educação, a diversidade de estratégias para transmitir algo aos alunos  torna tudo teoricamente simples e eficaz. Mera ilusão, o ato de ensinar e respetiva aprendizagem deveria ser um processo tão natural como “a sua sede”, mas os obstáculos e as dificuldades surgem de todo o lado.

Independentemente das estratégias, das infraestruturas, das políticas educativas, da capacidade do professor, do ambiente familiar, etc, o aluno que não quer aprender, simplesmente não aprende. E venha quem vier com mais ou menos romantismo pedagógico, com mais ou menos “chicote” educativo, que o conteúdo simplesmente não passa.

Mas mesmo o aluno que não quer aprender tem perfis diferentes. Existe aquele que recusa a aprendizagem por ser indisciplinado, pois está revoltado, ou não percebe nada da matéria, ou isto, ou aquilo, etc. Mas depois existe o aluno que está perfeitamente consciente daquilo que está a fazer/dizer, que compreende a função da escola, mas de forma assertiva diz que não quer aprender, que não gosta da escola, que não quer estar na escola, que prefere estar com os amigos, ou a trabalhar no campo, ou a fazer outra coisa qualquer.

Este tipo de alunos são escravos de um sistema que quer obrigar todos a cumprirem 12 anos de escolaridade. Se o aluno já sabe ler, se o aluno já sabe escrever, se o aluno já sabe fazer contas, se o aluno até já consegue arranhar uma 2ª língua, por que motivo se obriga alguém a estar na escola até aos 18 anos de idade?

Ficarão os alunos mais inteligentes, mais aptos, só por estarem mais 2,3,4 anos na escola, revoltados e sem aprenderem nada relevante que justifique?

O escolarização é naturalmente um pilar social, que tem de obrigar os jovens a passar por ela, mas existe uma percentagem de alunos que simplesmente estão a cumprir calendário até atingirem os 18 anos de escolaridade, pois o que lhes é oferecido está muito longe dos seus objetivos e interesses.

E depois temos um sistema de ensino que obriga um aluno a chumbar 2x, ou a ter obrigatoriamente 15 anos para ser integrado num ensino mais prático e acessível. Fora a lei que impõe a dupla retenção para que um aluno usufrua de uma tutoria, quando na escola todos sabem que a estrutura em casa é zero e o único discurso estruturado é dado na escola por professores e funcionários. Até parece piada, mas se calhar temos de passar a chumbar os alunos para que estes usufruam de certas regalias…

A escola é para todos, mas não tem de ser igual para todos, nem obrigar todos a sair da escola da mesma forma e na mesma altura. É que a escola para todos, que quer obrigar todos, impõe aos que efetivamente querem ensinar e aprender, momentos perfeitamente dispensáveis de quem se sente a mais e de quem está efetivamente a mais.

Lá por parecer bem, não quer dizer que esteja bem…

Alexandre Henriques

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10 COMENTÁRIOS

  1. Eu sei que é duro para nós, professores, o confronto com pessoas que nos boicotam todos os dias, das mais diversas formas. A nossa, é uma profissão intensa, aspeto que não é contemplado no horário de trabalho, mas, tal como o médico não pode recusar-se a tratar alguém que não cuida da sua saúde, nós professores também não podemos desistir. Não podemos descarregar na sociedade pessoas que não passam o testemunho da civilização, sob pena de sermos esmagados pelo peso da incivilização com efeito boomerang. O problema é que isso é extremamente desgastante e ninguém cuida de nós. Nós, os professores não somos escravos, o nosso trabalho é nobre e indispensável, precisamos de ser tratados com humanidade, se não restauram a barragem a tempo ela começa a meter água e pode precipitar um tsunami. Já desapareceram civilizações, nada nos garante que a nossa civilização esteja no rumo certo. Por outro lado, os professores não podem ser esmagados por expetativas fundamentalistas e irrealistas que apenas têm como resultado vitimizar o professor, culpabilizá-lo e aumentar a despesa da saúde mental. Frases impactantes, como: “os professores não são pagos para ensinar mas para fazer com que os alunos aprendam”, cumprem apenas objetivos de marketing de personalidades egomaníacas que se propõem para a ribalta caso esteja aberta a época de contratações nas Produções Fictícias. Nem na escola do Harry Potter se consegue a magia de adivinhar as formas de aprender que nem os alunos reconhecem em si. Depositar o peso do mundo nos ombros dos professores é delirante. Se os professores tivessem o poder desmesurado de controlar a impenetrável complexidade de mentes livres, então deveriam ser contratados para missões impossíveis. É caso para perguntar: se os professores além de ensinar, também têm que conseguir com que os alunos aprendam, então o que fazem os alunos?

    • se os professores além de ensinar, também têm que conseguir com que os alunos aprendam, então o que fazem os alunos?

      Esta frase diz muito do que se passa no ensino.

      • Como disse??? “Nós, os professores não somos escravos”???
        Deveria conhecer o sistema espanhol, por dentro; trabalhar em Espanha uns aninhos para de facto perceber que SOMOS ESCRAVOS, SIM..:! Em Espanha, uma escola com 120 alunos tem colocados mais de 15 docentes…! Em Portugal, na escola onde exerço, para 123 alunos somos… imaginem, 5 docentes. E o trabalho tem que ser realizado… tal como em Espanha! Com um terço do pessoal docente. E a ganhar pouco apenas dois terços de um professor espanhol… Por isso, SIM SOMOS ESCRAVOS…!

  2. Muito interessante.
    Somos um dos raros países do mundo que obrigam os jovens a andar na escola até aos 18 anos, independentemente do aproveitamento ou do percurso de vida que queiram construir.
    E no entanto a escolaridade de 12 anos foi aprovada há dez anos, sob a batuta do governo de Sócrates, num raro caso de unanimidade de todas as forças parlamentares.
    Este post inspirou-me a escrever umas coisas lá no meu cantinho…

  3. Eu acredito sim que a educação e o conhecimento é a única forma de aprendemos algo. Quando esta “professora” cita que o aluno não é obrigado ir a escola,ela não ver que a mesma se torna chata porque professores,tornam aulas insuportáveis e cansativas com esses métodos tradicionais.
    Tem muitos colegas principalmente concursado que não busca nenhum aperfeiçoamento e vão pra sala de aula só por obrigação,não tornando o ato de aprender prazerosos.
    Hoje com um grande avanço da tecnologia,podemos trazer pra sala de aula conhecimento segundo as linguagens dos meus alunos.

    • Citando uma publicação acima: “Se os professores além de ensinar, também têm que conseguir com que os alunos aprendam, então o que fazem os alunos?

      Esta frase diz muito do que se passa no ensino.” E sobre o que se pensa acerca do trabalho dos professores e também acerca dos alunos: que eles são como cão do Pavlov e que os professores só têm de descobrir como os condicionar. Percebe isto: os alunos são gente, têm liberdade de escolha, e quando resolvem não aprender, não vão aprender, ou se o fizerem, é quase nada.

  4. Educar um cidadão infanto, para futuramente suplir uma engrenagem social, é o que gerou os tais 18 anos na escola ! agora quer acabar com isso ? e o que vai entrar no lugar? o trabalho era o que justificava esta doutrina ! mas a robotica chegou ! e a engrenagem social ja esta sendo preemchida ! a pergunta é , Educar só para dizer que ensinou ? ou ensinar para garantir uma possivel engrenagem social !

  5. Boa tarde, meu nome é Diva. Sou professora do primeiro segmento. Respeito a opinião da autora do texto acima. E o meu pensamento hoje como adulta e profissional da área da educação é diferente a quando eu tinha 18 anos. Nessa idade eu tinha uma maturidade voltada para as facilidades da vida, gostava das coisas que não me davam muito trabalho. Mas graças a Deus tive professores e pais maravilhosos que me incentivavam a desafiar minhas habilidades a colocar em prática as minhas potencialidades, a buscar o conhecimento. Meus pais não tinham poder aquisitivo elevado, mas sempre buscaram me incentivar nos estudos, a querer conhecer profundamente as diferentes áreas do conhecimento. Hoje compreendo que é necessário os alunos aprenderem os conhecimentos impulsionadores de outros conhecimentos futuros. E assim, fazer surgir algo que irá alimentar as suas aptidões. Agradeço a oportunidade. Um abraço

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