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Por uma nova cultura de convivência | Empatia para totós

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empatia para totósComo prometido, irei escrever sobre a aplicabilidade da empatia na prática diária de quem está nas escolas.

Uma das primeiras tarefas de um professor/educador, passa pela relação que constrói com os seus alunos. As competências relacionais que sustentam esta ligação são fundamentais para que os objetivos e as tarefas do processo ensino-aprendizagem (em todas as suas dimensões) sejam atingidos.

A empatia é uma dessas competências fundamentais e deve, sempre que possível, ser posta em prática, tanto no contexto escola como em qualquer outro contexto.

A forma empática como ouvimos e falamos, implica colocarmo-nos no lugar do outro, compreendendo o que o outro está a expressar e a sentir e dando-lhe um feedback construtivo para que este perceba que estamos efetivamente a compreende-lo adequadamente. Só assim conseguimos proporcionar um espaço de diálogo construtivo e cooperativo que permitirá aos alunos sentirem-se legitimados e a identificarem e assumirem os seus sentimentos e emoções de forma positiva e genuína.

Como colocar isto na prática no dia a dia, apresenta-se um verdadeiro desafio, contudo neste cantinho iremos perceber que talvez nem tanto…

Não se trata de receitas milagrosas ou de técnicas infalíveis, mas sim de orientações e dicas que espero que funcionem como reflexão e sinais de alerta para (re)pensarem as vossas ações e intervenções.

Pegando em exemplos práticos:

Imaginemos um aluno que se sente desconfiado, tímido e/ou receoso para partilhar as suas experiências e sentimentos. Como poderemos abordar este aluno?

  • Parece-me que está difícil para ti contar-me o que aconteceu/como te sentes… Talvez queiras contar-me aos poucos ou por partes.

Ou

  • Queres dizer uma única palavra para descrever como te sentes ou mostrar-me uma imagem que reflita o teu estado de espírito? Se calhar torna-se mais fácil.

Ou

  • Talvez não estejas habituado a falar de ti, mas quero que saibas que podes fazê-lo e que eu irei ouvir-te com toda a atenção e sem julgar.

Se um aluno (A) estiver alterado, verbalizando emoções e sentimentos negativos, ao invés do tradicional sermão (seja este de reprovação ou de compaixão) do professor (P), seria mais produtivo para o crescimento e desenvolvimento do aluno se os diálogos decorressem assim:

  • A: Estou furioso. Apetece-me mandar toda a gente dar uma curva.

P: Estás a sentir fúria e não estás interessado em saber de ninguém neste momento, é isso?

  • A: Dá-me raiva e tristeza pensar nisto… Apetece-me chorar, mas não posso….

P: Se bem percebi, estás furioso e triste ao mesmo tempo… Apetece-te chorar, mas algo te está a impedir.

  • A: Estou farto e não quero falar…

P: Compreendo que estejas cansado desta situação e que isso te tira a vontade de falar…

  • A: Não tinha nada que ir fazer queixinhas de mim… Ao menos dizia-me primeiro.

P: Percebo que estejas zangado comigo porque achas que fui injusto contigo e porque achas que traí a tua confiança.

Se por outro lado, se optassem por comentários como os que se seguem, quais seriam as reações no aluno?

  • Lá estás tu outra vez com essas parvoíces. (juízo de valor)
  • Sossega, tem lá calma. (distanciamento; conselho universal – não personalizado)
  • Não é possível, não acredito que tenhas ficado triste. (negação dos sentimentos do outro)
  • Também não era preciso tanto. (desvalorização)
  • Já estás farto de saber que não podes ter esses comportamentos. (diminuição; humilhação)
  • Isso também já me aconteceu, mas reagi de outra forma. (mudança de foco, de assunto e de protagonista)

Como se sentiram ao identificar as mensagens que passamos entrelinhas nestes comentários? Como se sentiriam se estivessem do outro lado a ouvir estes comentários nada centrados em vocês e naquilo que efetivamente vos preocupa?

Outras abordagens muito comuns também passam por respostas/comentários de avaliação e/ou aprovação, de rotulação, de um questionamento quase inquisitório (Como? Porquê? Quando? Quem?), de sermões moralizadores ou de geração, entre outras…

Não quero dizer que estas abordagens estão erradas, contudo com estas respostas que utilizamos habitualmente e quase de forma automatizada, não conseguimos criar um espaço de comunicação onde os alunos se sintam verdadeiramente compreendidos, legitimizados, respeitados, acolhidos e acompanhados. Não nos centramos neles…

Não se trata de optar por um estilo permissivo ou facilitador no que diz respeito ao cumprimento de regras, mas se queremos promover momentos de crescimento, autoconhecimento e reflexão nos alunos, ambicionado adultos solidários, cooperativos e assertivos, temos de apresentar-lhes essas ferramentas através da modelagem, isto é, servindo de exemplo!

Boas férias 🙂

Mónica Nogueira Soares
Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar| Formadora
mediação de conflitos
(carregar na imagem para aceder à página de facebook)

Não perca amanhã o ABC da Empatia.

4 COMMENTS

  1. Estou plenamente de acordo com o estabelecimento da empatia com esta forma de diálogo, o problema é que somos professores a dar aulas em turmas de 30 alunos, não podemos manter conversas tão longas com um aluno e 29 assistentes… Não podemos ser psicólogos dentro da sala de aula, lamentavelmente… E é por isso mesmo que se torna tão importante estabelecer limites na sala de aula… porque são 30 e não apenas 1. Fica o apelo para “técnicas” para a criação de empatia e disciplina em dinâmicas de grupo, porque é essa a realidade de um professor!

    • Nessas situações julgo que o mais importante é “controlar” os lideres da turma. O resto vem por arrasto.

    • Obrigada pelo seu tão pertinente contributo, Helena.
      Consigo compreender que considere que ter um diálogo com estas características implique tempo… é que implica mesmo! Mas convido-a a refletir comigo: qual será o impacto de um diálogo deste tipo para o “tal” aluno e para os 29 assistentes? Será que o “tal” aluno sentirá que tem palco perante os assistentes se for abordado de forma empática? Se o intuito do aluno for desestabilizar, sentir-se-á exposto e desistirá, se for uma chamada de atenção para questões pessoais, sentirá que tem em si alguém de confiança, alguém que se importa… E os alunos assistentes o que pensarão? Será que o professor perderá o seu estatuto dentro da sala de aula? A experiência diz-me com toda a certeza que não. Concordo que “perderá” tempo útil naquela aula específica mas ganhará muito tempo nas restantes aulas… e melhor do que isso, servirá de (excelente) exemplo e referência para os 1+29 alunos.
      Como já tive oportunidade de dizer, ser empático na sala de aula não implica perder o estatuto de líder, não implica deixar cair as regras e os limites, não implica uma gestão de laissez-faire…e acima de tudo não implica ser psicólogo. Ser empático é uma competência transversal a qualquer profissão, diria até mesmo, a qualquer ser humano (pelo menos deveria ser).
      Obrigada por me ler 🙂
      Boas férias!

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