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Notícias de Além Mar | “Brasil é a Vanguarda da Educação no Mundo” – saiba como.

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circoEm artigo veiculado na RTP em 14/03/2016, foi atribuído a José Pacheco a seguinte fala: “O fundador da Escola da Ponte José Pacheco considera que o “Brasil é a vanguarda da educação no mundo” e lamenta a pouca abertura de Portugal para um ensino alternativo. “É no Brasil que está a nascer a nova educação do mundo”, disse o educador português à Lusa, à margem de uma palestra sobre educação na Universidade de Brasília. Há 15 anos, José Pacheco começou a viajar periodicamente para o Brasil e, mais tarde, mudou-se para cá, tendo, por exemplo, ajudado na implementação de um ensino alternativo no Projeto Âncora, uma instituição em São Paulo, que hoje o educador vê como “a escola mais avançada” do mundo”.

No Brasil há um projeto de uma ONG (Organização Não Governamental) chamado “Projeto Âncora” de inspiração ‘Ponteana’ (da Escola da Ponte de José Pacheco). A organização tem 17 anos de existência. Localizado na cidade de Cotia, distando cerca de 30 km da região central da metrópole de São Paulo. Atendendo cerca de 180 alunos, oferece educação básica num modelo único.

Assim como a portuguesa, a Escola Projeto Âncora não tem séries; alunos de 6 a 10 anos estudam juntos, desenvolvem projetos de pesquisa de acordo com suas afinidades e são orientados por professores e pedagogos.

Na escola, os alunos são colocados em contato com diferentes atividades: música, informática, esportes, circo, artes e culinária. Para se matricular, é necessário cumprir algumas exigências, como morar em um raio de até 3 km de distância da escola e ter renda familiar de até três salários mínimos (cerca de 500 euros mensais) – não há custo algum para os pais.

O conhecimento é desenvolvido por meio de projetos de pesquisa. No primeiro semestre deste ano, por exemplo, um grupo de alunos escolheu estudar a escravidão africana no Brasil. A pesquisa abordou as viagens nos navios negreiros, as leis de abolição, a relação entre escravos e senhores de engenho e as heranças culturais africanas: a música, a dança, a capoeira, a culinária e a religião. Também foram pesquisados temas geográficos, como o clima africano e o brasileiro, para entender como se deu a adaptação a outro ambiente. Por fim, os estudantes fizeram paralelos com o preconceito existente até hoje contra os negros.

Quando os alunos apresentam o trabalho, eles ensinam aos colegas o que aprenderam, utilizando imagens, som, cartazes e slides. Como a busca pelo conhecimento parte das próprias crianças, de um interesse genuíno, segundo os organizadores da escola, a aprendizagem é mais eficiente e melhor absorvida.

O projeto pedagógico conta com a colaboração do educador português José Pacheco, idealizador e ex-diretor da Escola da Ponte. Pacheco começou a trabalhar com a equipe brasileira em abril de 2011. No começo deste ano, a escola iniciou suas atividades com sete educadores e 180 alunos no equivalente ao ensino fundamental I (1o ao 5o ano). Na educação infantil, outras 52 crianças são atendidas.

A educação no Brasil tem experimentado seguidos resultados ruins, tem galgado as últimas colocações no PISA – em descompasso com a posição do país no cenário mundial – tem 1/3 de seus jovens na condição de semianalfabetos, 1/5 apenas conseguem concluir estudos de ensino superior e a qualidade do ensino na média é sofrível. Na verdade, nas camadas sociais de menor poderio econômico, onde impera alto grau de violência (em 2015, 60 mil brasileiros foram assassinados por arma de fogo e/ou arma branca), existe uma resistência a ideia da educação como uma ferramenta alternativa para a melhoria de sua situação social atual e evolução como cidadão portador de direitos. Ainda, apenas 50% das escolas possuem acesso a internet e ainda o acesso é considerado de qualidade adequada em apensa metade dos acessos.

teclarEntão, há um terreno fértil para o trabalho dos pedagogos e muitos projetos estão em andamento, a nível experimental no país.

Um projeto apoiado pelo Governo do Estado de São Paulo que tem apresentado resultados positivos é o chamado “Escola de Período Integral” onde os alunos têm aulas regulares pela manhã e participam de projetos pedagógicos desenvolvidos pelos professores e equipe gestora das escolas no período da tarde, projetos que exploram o protagonismo do aluno. Essas escolas têm instalações especialmente preparadas com laboratórios de ciências, de informática, 1 computador por aluno e os projetos tem aumentado o engajamento do aluno em todas as atividades da escola, retroalimentando o sucesso do modelo.

Ao conversar com alunos no Ensino Médio é muito comum ouvir que “Matemática é chata” ou “Física é muito complicado”. Mas, na cidade de Joinville, em Santa Catarina, um projeto implantado em 15 escolas públicas tem mudado a opinião dos alunos.

No programa de Educação em Tecnologia e Mobilidade, mais de 800 alunos do Ensino Médio da rede pública estadual têm a chance de entrar em contato com o lado prático das Ciências Exatas, construindo robôs de Lego NXT, projetando satélites e novos equipamentos de energia renovável.

Após as oficinas, os mais interessados são convidados para cursos mais longos, de até 40 horas, e os estudantes que se destacam no processo podem desenvolver, junto à universidade, um projeto de iniciação científica custeado pelo CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa cientifica) – antes mesmo de ingressarem no Ensino Superior.

As oficinas são oferecidas pelos próprios professores e alunos de graduação das áreas de Engenharia da UFSC e atingem não apenas os alunos do Ensino Médio, como também os professores da rede pública – que participam de encontros de formação, que os auxiliam a levar para a sala de aula conceitos de Ciência aplicados na prática, tornando o ensino ainda mais atraente.

Para Carlos Sacchelli, coordenador do projeto, um dos fatores que o motivou para pensar nessa formação integrada foi, justamente, o modo tradicional como a Matemática é ensinada nas escolas públicas da rede. “Os adolescentes estão imersos em tecnologia no seu cotidiano, com celulares, tablets e aplicativos, mas raramente conseguem fazer a ponte entre a tecnologia aplicada e os conceitos de matemática ou física que aprendem na escola”, explica.

Os reflexos desse desinteresse aparecem no déficit da formação de profissionais na área de exatas, especialmente no que diz respeito à formação de professores no país. Em 2011, o Censo do Ensino Superior mostrou que os estudantes de exatas estavam entre os que mais abriam mão da licenciatura. Física estava no topo da lista, com 31% de desistência, seguida pela Matemática, com 21,6%.

Para reduzir esse déficit de quase 170 mil docentes na área pública, o Ministério da Educação lançou programas de incentivo nas escolas, como o Programa Quero Ser Cientista, Quero Ser Professor, que ofertou 30 mil bolsas de estudo nas áreas de exatas em 2014.

E os resultados desses esforços em trazer a ciência para perto do cotidiano dos alunos já começam a aparecer. Muitos dos estudantes que participaram das oficinas de tecnologia da UFSC seguiram na área de Engenharia, e alguns, inclusive, foram contemplados pelo programa Ciência sem Fronteiras e desenvolvem, hoje, pesquisas nos Estados Unidos.

Daniela Karolina Rosa, de 19 anos, participou da oficina de robótica e do laboratório de pesquisas em sustentabilidade ainda quando estava no Ensino Médio. Gostou tanto, que se tornou bolsista da CNPq e hoje, cursa a faculdade de Engenharia Civil. “Montamos um projeto de um robô capaz de realizar a coleta do lixo em rios poluídos. Ali, tudo que eu vi na sala de aula começou a fazer sentido e tive, ainda cedo, a certeza de que deveria cursar Engenharia”, explica.

Para Carlos, o sucesso do programa tem sido tão grande que a universidade já pensa em novos projetos e elabora, agora, oficinas de Engenharia só para garotas, a fim de inserir ainda mais as mulheres nos cursos de tecnologia.

ensino híbridoMas talvez o projeto mais ambicioso e que tem apresentado resultados comparáveis aos da Educação Integral é o chamado “Ensino Hibrido”. Ele é o chamado ensino disruptivo, na medida em que rompe com as formas tradicionais de ensino.Também chamado de blended learning, o método alterna momentos em que o aluno estuda sozinho – em geral em ambiente virtual – e em grupo, quando interage com seus colegas e o professor. Objetiva-se a personalização do ensino. Busca-se diferentes ferramentas – não somente as tecnológicas – para suprir as necessidades do aluno contemporâneo.

No Brasil, uma das maneiras mais comuns da adoção do ensino híbrido é por meio da chamada rotação de laboratório (ou lab rotation, em inglês), na qual são combinados momentos na sala de aula e no laboratório de informática, com conteúdos complementares. Assim, para uma disciplina, o estudante pode passar a primeira aula em um laboratório de informática usando recursos online para o primeiro contato do tema. Na aula seguinte, com a ajuda do professor e em companhia dos colegas, ele pode aprofundar o que aprendeu e aplicar os conceitos, desenvolvendo projetos, debatendo o assunto, trabalhando exercícios de contextualização, tirando dúvidas, entre outras atividades.

Desta forma, o aluno é estimulado a pensar criticamente, a trabalhar em grupo e a ver mais sentido no conteúdo. Ele assume a posição de protagonista e tem mais chances de aprender da maneira que melhor funciona para ele. Já o professor ganha um papel mais próximo ao de um mentor que guia esse processo de busca pelo conhecimento e, com a diminuição da carga de aulas expositivas, ele tem mais tempo para dar atenção personalizada às necessidades dos estudantes e acompanhar de maneira mais próxima evolução deles.

Como pode ser visto, há algumas inciativas de melhoria da qualidade da educação em ação no Brasil neste momento, mas nada disto seria possível se não fosse a inquietação do brasileiro comum, dos professores e demais profissionais da educação e de alguns políticos que tem mantido o terreno fértil ao desenvolvimento e teste de novas formas de desenvolvimento de pedagogias. Mas há ainda um longo percurso a percorrer e talvez daí venha a visão do ilustre José Pacheco.

Joseval Estigaribia

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