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Nós, Professores, Somos Os “Médicos” Da Educação

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Basta de lamurias, nunca estamos contentes com nada!? É evidente que ninguém pensa que o tipo de soluções que foram encontradas, como o ensino à distância, em nada se compara com o ensino presencial! Claro que as soluções encontradas em cada agrupamento e o aporte que cada professor dá ao seu trabalho é diversificado, assim como os alunos o são, aspetos relacionados com a a conetividade, suportes informáticos, aspetos de segurança, etc, etc. São muitas variáveis o que potencia as dificuldades associadas, todos nós as conhecemos e todos nós as tratamos por “tu”. Não podemos, no entanto, também fazer tábua rasa disto tudo, nem generalizar, dizendo que os alunos não aprendem nada. Não querendo personalizar muito a situação, posso dizer que no meu caso as coisas até estão a correr bastante bem. Sou professor do primeiro ciclo, não sou mais nem menos que os milhares de colegas deste país. Sou apenas mais um professor, mas que quer contar para alguma coisa, que se está marimbando para os muitos desacertos deste ME, mas não vou entrar constantemente no bater no muro das lamentações! Os meus alunos não o merecem, nem os pais que todos os dias garantem que os filhos estão à minha espera do outra lado do fio.Tenho um primeiro ano, utilizo a plataforma teams. Sim, tenho facilidade no uso de tecnologia, já passei pela formação de professores nesta área, por isso consigo ver os dois lados, e respeito muito os colegas que não receberam formação que lhes era devida, quando lhes indicaram este caminho, e que, por isso, não se sentem tão à vontade. Mas não desistam colegas, não se sintam embaraçados, pois o importante é ir fazendo, construindo aos poucos a aprendizagem nos nossos alunos. Mesmo que não sejam aquelas que cada um de nós aspirava alcançar, importa continuar a semear a vontade delas em aprender, dar um carinho, uma palavra amiga, um elogio, muitas vezes é o suficiente para cada uma das nossas crianças continuarem “agarradas” com esperança à “réstea”de escola que ainda têm. Temos que continuar a ser um farol, que muitas vezes se vê melhor, quando está um noite estrelada, ora se vê pior quando a borrasca chega à costa, mas continuam a conseguir escutar a voz do professor, mesmo que ao longe (e muitas vezes é mesmo longe, pois a qualidade da ligação não é a melhor), mas estamos lá, presentes!

Dá-me imenso trabalho, sem dúvida-também sou pai- mas os meus alunos necessitam deste meu empenho na hora que mais precisam de mim. Tenho um caso de uma aluna cuja avó morreu de covid-19. Nós, professores, somos os “médicos” da educação, tal como os médicos e profissionais de saúde estão a cumprir esta função com enorme empenho, nós devemos fazer exatamente o mesmo, na nossa nobre tarefa que é ensinar.

Se não resultar de uma forma, pensemos numa outra forma, mas tentar sempre. Podem ser aulas síncronas, assíncronas, com mortal à retaguarda, com apps ou sem apps (utilizo-as com peso, medida e racionalidade), vão simplesmente caminhando devagar e construindo algo que é vosso, com limitações, com dificuldades, mas construam o vosso caminho. Agora ouvir falar em parar!? E querem fazer o quê? Meter baixa médica? Irem para a escola já neste mês de Abril? Ficarem em lay off, como refere o colega?

Agora, o barco está em alto mar, sim está a meter alguma água, mas temos que arranjar estratégias de continuar a fazer este barco navegar. Podemos ir fazendo ajustamentos na rota, até chegarmos a porto seguro e parar.

Hélder Santos, comentário publicado no artigo “Isto não serve para nada, só os alunos Excelentes vão fazer alguma coisa, de resto andamos todos a fingir”

6 COMMENTS

  1. Saúdo a boa vontade a e a disponibilidade do professor Hélder Santos. Sem dúvida louvável!
    Mas o voluntarismo pode dar resultados menos bons… Por muito que tentemos, sem condições de trabalho adequadas, o esforço pode ser contraproducente.

    Respeito e admiro os professores do primeiro ciclo, justamente porque têm uma especificidade profissional muito marcada -que os distingue, e bem, dos demais – e um contexto de trabalho particular. Por isso acredito, que o que se aplica ao primeiro ciclo pode não ser regra para os demais.
    A mim que trabalho no terceiro ciclo , tudo isto me parece, cada vez mais uma grande trapalhada, para não escrever outra coisa… Quando olhamos para o ecran e percebemos que uma boa parte dos alunos estão apenas com a sessão sincronizada, mas até estão a fazer outras coisas -e não temos meio de os chamar ao trabalho de forma eficaz -e que só uma pequena minoria está atenta, que fazer? Insistir, insistir ou ter a coragem de dizer isto não serve! Isto é uma trapalhada!
    Acredito que quando somos complacentes com a desvalorização do ensino, muito mais do que os professores, quem fica a perder são os nossos alunos. Quando nos calamos e aceitamos é a eles que os deitamos a perder.
    Talvez, vendo deste modo, a boa vontade e o voluntarismo não sejam, sempre, boas opções.

  2. Partilho da sua experiência e sentimento pois também sou pai e professor de 1º ciclo. Também tenho domínio nas TIC, sendo uma das minhas áreas de espcialização. Desde o primeiro dia de aulas que desenvolvo competências de literacia digital com os meus alunos, pelo que, esta transição para o ensino à distância de emergência, não me causou grandes contrangimentos, mas trouxe outros desafios…enormes… Mas há um aspeto com o qual não posso concordar e gostaria deixar para reflexão: não nos podemos comparar ao exercício da profissão médica por dois motivos. Os médicos estão, de facto, numa situação mais vulnerável que qualquer um de nós, sem dúvida. No entanto, quando terminan o seu horário de trabalho, grande parte, regressa para junto das suas famílias, dando-lhes apoio, e aqueles que ficam a fazer horas extra ou turnos são remunerados pelo tempo extra. Neste momento, com os professores, isso não acontece, trabalham muito para além das horas definidas no seu horário, sacrificando a família e sem ver qualquer contrapartida pelo excesso de trabalho extra, nem um reconhecimento sequer. Não me admira que comecem a surgir os primeiros casos de burnout. Apesar de todo o domínio que tenho nas TIC, e os meus alunos também, chego a estar em frente ao pc mais de 12h diárias. Infelizmente, grande parte das horas são perdidas com “ruido”, entenda-se grelhas para preencher, planos, reuniões, pedidos de ajuda técnica… Apenas dou aulas síncronas duas vezes por semana. Recuso-me a dar mais, por todos os motivos, e mais alguns, já muito discutidos. Prefido gastar as minhas energias no desevnolvimento de um modelo de aprendizagem orientado no sentido da diferenciação, desenvolvimento de competências de autonomia e autorregulação das aprendizagens. É extenuante? Muito! Vale a pena o esforço? Neste momento, já tenho duvidas…

    • Boa noite, colega.
      A minha analogia com a classe médica foi no sentido de que tanto nós como os profissionais de saúde, desempenhamos uma função estruturante na nossa sociedade. Ora, quando vejo que muitos colegas dizem estar a desistir, ou com vontade de o fazer, eu, humildemente, senti-me na obrigação de os sensibilizar para o não fazerem.
      Não tenho conhecimento de ter ouvido notícias sobre médicos, enfermeiros ou auxiliares de ação médica que se furtaram às suas responsabilidades. Mesmo correndo os riscos que correram quando não tinham os chamados EPI (kit de proteção), improvisaram, mudaram de estratégias, mas assistiram e resistiram.
      Eu tenho consciência que, também nós, estamos a passar por diversas solicitações de diferentes níveis de exigência inerentes à tipologia de alunos, questões técnicas/informáticas, exigências absurdas de alguns agrupamentos, que têm a habilidade de transformar o que pode ser simples e funcional em algo absurdo. Nós professores lidamos diariamente com todas estas situações. Para além do trabalho que cada docente faz diariamente com os alunos, rapidamente aparecem as grelhas e “grelhames” de todas as cores e feitios. Rapidamente se monta um “Big brother” versão em papel! Claro, o professor preenche! Phosga-se!
      Assim, sendo com todas as dificuldades de diferentes níveis que os professores estão a atravessar, não devem, ou não deviam, na minha modesta opinião, vir dizer que vão desistir. Mesmo, em turmas complicadas em que todos parecem não querer saber. Haverá sempre dois ou três, que sejam. Então que seja apenas por estes dois ou três, ou seis ou sete, que merecem continuar a ter uma orientação, um contacto com o professor assíncrono ou síncrono, por email, pelo telefone (respeitando o espaço e tempo de trabalho de cada professor), pois também há vida para alem da escola!!
      Cada um deve trabalhar segundo as suas capacidades físicas e mentais, utilizar o modo e a forma que melhor consiga e esta, por sua vez, se adapte ao seu modo de trabalhar e mesmo assim chegar aos alunos. Não façam comparações com outros colegas que estão a dar a fusão nuclear construindo um reator nuclear em casa, todo xpto, recorrendo às mais modernas tecnologias e boas práticas ( termo muito nicel, muito estilo escola sec XXI), em direto, via plataforma zoom, ainda por cima! Neste cenário tudo pode correr mal, mas também pode suceder o contrário. Os alunos até ficaram curiosos…aprenderam algo sobre eletrões, não existiu zoombombing, só não ocorreu a dita fusão nuclear, ainda bem para todos!
      Não olhem muito para o lado, acreditem nas vossas capacidades, e construam o vosso caminho, não importa o fim! Importa, sim, o caminho que construíram para lá chegar. Façam o vosso melhor, em consciência, para além disso a mais não são obrigados!
      Não se pode é falar abertamente em desistir, apesar da etimologia da palavra professor -professus, no latim, “ser aquele que declara em público”.e do verbo profitare. Esta expressão era usada para as pessoas que se declaravam aptas a exercer alguma função, nesta situação é ensinar. Ora um professor que desiste é um professor que não ensina. Então se não ensina, não é professor.
      Não quero, de todo, que isto aconteça com nenhum dos meus colegas! Tenho uma visão de conjunto, não acéfala. Agora não é tempo desistir é tempo de continuar a demonstrar a esta sociedade que muitas vezes, vezes demais, se esquecem e nos espezinham, e governates que ora apenas mercemos 0,3%, ora somos heróis. Eu por mim falo, herói não quero ser, quero ser sim, tratado com dignidade e ver toda a minha classe dignificada de uma vez por todas!

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