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“No fim do dia, quando chego a casa cansada dos filhos dos outros… pergunto: quem deu hoje a mão ao meu?”

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Existem várias salas no Facebook ligadas à educação, salas essas em que partilho muitos dos artigos publicados no ComRegras. De vez em quando surgem alguns comentários ao nível do estatuto docente e que permitem reflexões mais aprofundadas e até algumas mudanças de opinião. Partilho parte de uma conversa entre 3 colegas ao artigo Não quero que um professor ensino o meu filho de autoria de João Lima, que na minha opinião merecem uma atenção especial. Parabéns colegas!

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Ana Sousa

Provocada que fui, atentamente li. Concordo com tudo, acrescentaria uma pequena parte, é necessário educar os professores para serem educadores, porque também a eles lhes falta a civilidade quando abusam do poder, quando indiscriminadamente julgam e se precipitam nos julgamentos, quando carecem da palavra mágica Desculpa, que tanto exigem e que tão poucas vezes mencionam. Sim, as crianças chegam ensonadas, e quantas delas após um dia de aulas acrescem mais não sei quantas horas de trabalhos de casa, tardiamente se deitam, cedo se levantam, retiram ás horas de brincadeira o trabalho que arrastam consigo para casa, sim porque em casa é preciso trabalhar é preciso consolidar… e eu pergunto-me tantas vezes o que estamos nós a ensinar? que quando chegarem ao mercado de trabalho arrastem para casa aquilo que em tempo útil não fizeram nos seus locais de trabalho? trabalham oito ou mais horas, dormem menos do que isso, desfrutam do prazer da vida ainda menos… e… porque não brincar na escola? afinal que outros tempos lhes restam? Pois… é que…. nem todos os miúdos ensonados, que falam, que se agitam são mal educados ou hiperativos ou uma carrada de outras coisas que se ouve contar, e por esses SIM POR ESSES é que existe tanto por fazer. De onde vem a rebeldia? de onde vem a não vontade? de que recantos mais sombrios aparecem os problemas que arrastam junto com os nove ou dez quilos de tralha às costas todos os dias? Tanta coisa para refletir… mas sim, concordo, no meu tempo era advertida quando me excedia, quando não agia em conformidade com o esperado, mas no meu tempo havia uma justiça clara, ordens que faziam sentido, o que temos hoje? tantos nortes… tantos pontos cardias e a bússola que não aponta para lado nenhum, simplesmente gira sem parar, sem se aquietar, sem dar tempo aos miúdos para se encontrarem, nem que seja numa advertência, mas que seja justa, que seja plena de equidade. Devaneios…. mas que por vezes me tiram o sono.

Fátima Costa

Ana Sousa, muitos meninos chegam ensonados e não é por causa dos trabalhos de casa. Eles contam com orgulho que estão em contacto uns com os outros, em conversa ou a jogar até de madrugada. Porque não têm controlo da família, não têm uma referência de responsabilidade. Estes preocupam-me muito! Preocupam-me porque andam cansados sem trabalhar para a sua formação. E aqui só há um culpado: as famílias que se demitiram de educar para a liberdade com responsabilidade. Também tenho filhos e sei o trabalho e atenção que sempre tive e tenho para que sejam seres humanos bem formados, cultos, interessados e interessantes! Dá algum trabalho mas vale a pena. Como diretora de turma não me canso de pedir persistência aos pais, como professora nunca desisto de ninguém, nunca me canso de dizer aos meus alunos que a vida é bela se a soubermos desfrutar. Muitas horas passo a oferecer a minha paciência e dedicação para que nunca desistam. Dentro e fora da sala de aula. Porque as nossas crianças precisam de um chão para poderem crescer e voar.

Ana Sousa

Fátima Costa é verdade o que diz, eu bem o sei, não sendo diretora de turma navego entre as turmas tentando timonar pequenos barcos com dificuldades acrescidas e tantas vezes mal compreendidas. Canso-me todos os dias de ver cada vez mais miúdos a atravessar o limiar do razoável, com vidas tão estranhas, tão fora do vulgar mas cada vez mais vulgarizadas. Pais ausentes porque trabalham para além do que devem, com tempo a menos para os filhos, pais de fim de dia, de fim de semana desde que não haja matéria para trabalhar para os testes ou algum trabalho pedido, porque por vezes se tornam professores, sentados nas mesas das cozinhas entre uma batata descascada para a sopa e a tentativa de acompanhar a matéria dos miúdos que está sempre a mudar, isto quando instruídos o conseguem fazer, as demais vezes sem o serem, também eles já desistentes da escolas, se limitam a berrar para que os miúdos cumpram numa tentativa vã que esse berro essa insistência faça deles pessoas diferentes com futuros diferentes do seu, quem sabe mais promissores.

E depois existem os outros os tais de que se fala que não querem andar na escola que mais valia andarem a trabalhar, que são perfeitos delinquentes e para esses as soluções tardam sempre, entre burocracias e a inoperatividade do sistema para tentar perceber o que se passa e agir em conformidade. O meu comentário foi apenas um desabafo, quem sabe um alerta até para mim mesma. Quero para o meu o que quero para os outros, não igualdade, porque quero que respeitem a sua e a individualidade de todos, mas um sistema justo, com regras claras e precisas, estendíveis. Por muito que me custe dizer o que agora vou afirmar, quero professores que o queiram ser., que não desistam, que não arrastem consigo para os corredores e para as salas de aula a arbitrariedade, o berro fácil, a sua delinquência e a sua marginalidade. Esses estão numa posição de poder e muitas vezes o exercem de forma muito pouco ética. Resumindo que o desabafo vai longo, a escola precisa de ser repensada e nem todos os males estão no mesmo cesto existem falhas em ambos os lados da barricada, e quer queiramos quer não por vezes é necessário admiti-lo. Não gosto de ver generalizado o que é particular nem particularizado o que é um problema geral e é cada vez mais fácil cair em comentários de um lado só, como se fosse necessário andar sempre a defender ou a acusar este ou aquele lado para que nos sintamos melhor. No fim do dia, quando chego a casa cansada dos filhos dos outros (sim porque também me canso dos filhos dos outros), muitas vezes dou comigo sentada na fina camada do muro e custa-me perceber e faço por não atribuir culpas mas para tentar arranjar soluções para o dia seguinte quer com alunos quer com pares quer comigo mesma porque não somos perfeitos e falhas acontecem em todo o lado, e lá no fundinho da minha cabeça, quando ás vezes a lágrima rola fácil pergunto: quem deu hoje a mão ao meu? quem berrou e foi injusto porque não perdeu dois segundos para avaliar melhor a situação? quem olhou para ele e o viu com os seus defeitos mas soube enaltecer as suas qualidades? quem? e…. quem dos meus pares chegou hoje a casa cansado dos filhos dos outros onde o meu está incluído e se sentou no muro a tentar arranjar soluções para o dia seguinte ou quem já desistiu dos filhos dos outros onde o meu também está incluído.?

Pedro Santos

Uma utopia quando a escola se tornou um espaço mais do que uma Universidade.
A escola perdeu as referências, os professores estão exauridos, as direções tornaram-se prepotencias persporrentas, a sala de aula um marasmo de experiências fúteis de ideias peregrinas de combate ao insucesso escolar e os alunos seres sem limites. Eu quero ensinar porque me tiraram as horas para educar com reuniões e reuniões, horários miseráveis de sol nascer a sol por, de discriminação horária em relação a alguns ciclos de ensino ou disciplinas, de órgãos que não possuem verdadeira representatividade, de uniformizar o que deveria ser diferente e diferenciar o que deveria ser igual.
Se me respeitarem como educador, assim o assumo; se me tratam e destratam, quero ensinar, para poder dormir descansado sem imaginar o carro riscado, os vidros partidos ou a segurança pessoal em risco.
Quem quer um educador, e não um professor, para o filho, é porque já se demitiu da função de educar em casa.

*Podem opinar e ler a restante conversa aqui

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