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No Ecrã – Ana Luísa Melo

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Acabei de ver o vídeo. Um excerto de uma peça clássica tocada pela Orquestra Nacional de França. São trinta e cinco músicos que, cumprindo o isolamento que a pandemia a todos impôs, estão cada um em sua casa, com o instrumento em que são peritos. Todos distantes, todos separados mas, também, todos juntos, todos sintonizados. Um encanto!
Percebemos, sem palavras, que todos se conhecem. Pelos sorrisos, pela atitude descontraída, pela sonoridade concertada, por todo o conjunto. Veem-se e ouvem-se uns aos outros através do mundo digital que os aproxima, sem a presença física.
Certamente que temos visto vários registos do mesmo género. Coros e orquestras em concertos diversos do mesmo tipo. Separados e, no entanto, conjugados. Sintonizados numa afinação que parece fácil. Não será assim tão simples. É certo que não se apreende a sonoridade perfeita que se consegue quando, em presença, ouvimos o mesmo concerto. É verdade. Mas o que vemos é que funciona.
Nas últimas semanas do segundo período letivo e perante a inevitabilidade de cumprir distância social, os professores foram postos perante um desafio semelhante. Trabalharem com os seus alunos sem estarem todos juntos nas salas de aula. Com constrangimentos, com experiências variadas que correram, umas melhor, outras menos bem, mas fizeram-no. Quase intuitivamente, quiseram manter com os alunos o vínculo que a presença física não permitia. Foi, seguramente, uma situação que levou a reflexões mais ou menos profundas e, pedagogicamente, proveitosas.
Na situação de confinamento a que todos estamos agora obrigados, os professores continuarão, no imediato, a trabalhar à distância com os seus alunos. É uma outra vivência do ensino e da aprendizagem. Para a maioria, será uma vivência estranha à profissão que tanto preza a relação pessoal. Os professores gostam dessa relação pessoal e não seriam professores se assim não fosse. Gostam da proximidade, confiam na relação entre interpessoal, creem nos alunos com a boa fé que os faz estarem abertos ao Outro. Esse será um traço pessoal que marca, também, a profissionalidade docente, um traço identitário de uma profissão humana e humanitária, uma condição da docência. O professor é e será sempre insubstituível, alguém cuja presença será essencial ao “fazer aprender”. Por isso, é algo estranho ensinar e fazer aprender à distância.
Em todo o caso, é uma oportunidade para os professores pensarem no que podem fazer. Centrados nos conteúdos, nas competências, nos domínios de aprendizagem e alicerçados em eixos metodológicos para o ensino presencial, não será imediata a alteração para se ser professor à distância. Habituados a adaptar-se, confiam na sua adequação a um novo papel. E o apelo da humanidade também se fará sentir, apesar da distância. O aluno que se conhece em presença, continua a conhecer-se à distância. Existirá um outro contexto de aprendizagem, mas o professor conhece-o, é certo que imagina e poderá facilmente prever a sua lógica de ação. Na sala de aula, controlam-se algumas variáveis que não existem nesta nova situação, mas princípios e hábitos de trabalho ajudarão a que todos se orientem. Perder-se-á a espontaneidade que a presença física sempre oferece, aquele olhar, aquele gesto, aquele tom; aquela atitude, atenção e disponibilidade. Mas será o possível e talvez venhamos todos a valorizar ainda mais o contexto de uma sala de aula.
Todos aprenderemos nesta conjuntura.
Hesito em rever o pequeno vídeo do concerto. Olho para o maestro imóvel na imagem, no meio do ecrã. Toco na tecla do computador e a imagem anima-se. Deixo que os sons me envolvam.

Fonte: CatolicaPortoEducacao

 

 

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