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Ninguém Me Pediu Uma Opinião

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Se me pedissem – o nosso ministro e os que lhe são próximos – uma opinião sobre a organização do próximo ano letivo, estou certa de que ficaria num estado de nervos tal que talvez, no imediato, não fosse capaz de proferir uma palavra; porém, entre as ansiedades e as angústias que vou vivendo neste longuíssimo confinamento, alimentadas pelas muitas leituras de notícias e de opiniões, arquitetei um plano para que o próximo ano letivo pudesse ser vivido com alguma segurança e estabilidade e, mesmo sem me terem pedido uma opinião, gostaria de a partilhar.

Perguntar-me-ão: quem és tu, simples professora contratada, que agora deveria estar apenas preocupada com mais uma manifestação de preferências e que nem sabe se estará colocada em setembro ou onde, para pensar na organização do ano letivo? Ora, eu respondo: sou professora (desde o século e o milénio passado), vou dando azo aos meus sonhos (e o de lecionar é um deles, que, felizmente, se vai concretizando), preocupo-me sincera e comprometidamente com o meu país e com o mundo e tenho o direito de pensar e de expressar o que sinto e penso.

Já sabemos que, entre 14 e 17 de setembro, professores e alunos estarão nas escolas. Já sabemos que se pretende que o ensino seja presencial. Já sabemos que estão preparados vários cenários – ensino presencial, ensino misto e ensino a distância. Já sabemos que os alunos deverão manter uma distância uns dos outros de, pelo menos, um metro dentro da sala de aula, sem prejuízo das atividades letivas (ou seja, custe o que custar e doa a quem doer, terá de se fazer tudo na escola). E já sabemos também que outro confinamento não será suportável, que se prevê que a pandemia se agrave em outubro e que não haverá desdobramento de turmas, porque isso seria demasiado dispendioso. Portanto, já sabemos que estamos com o menino nos braços e que pouco podemos fazer.

Mas não me conformo com isto e considero que deveriam ser tomadas decisões sensatas e atempadas. Na verdade, estamos a dois meses do tal “14 a 17 de setembro” e, em vez dos vários cenários, poderíamos ter um só, exequível e que transmitisse estabilidade e segurança. Cá vai: seria necessário reduzir substancialmente os programas e as aprendizagens essenciais das disciplinas e, consequentemente, reduzir o tempo semanal das mesmas, garantindo o desdobramento das turmas, com os mesmos recursos docentes (se a disciplina dispõe de quatro tempos semanais, passaria a dois tempos para cada metade da turma, pelo que o professor manteria o seu horário de trabalho, mas estaria com meia turma de cada vez), e, assim, o distanciamento social dentro das salas de aula; haveria turmas que só estariam na escola no turno da manhã e outras apenas no turno da tarde; e os restantes serviços dos professores seriam feitos a distância (como já se verificou ser possível e eficaz). Dir-me-ão que esta gestão seria difícil para as famílias, mas talvez não fosse, já que são muitas as vozes que se levantam para defender as vantagens do teletrabalho e, além disso, muitas pessoas poderiam assegurar trabalho misto, combinando tarefas presenciais e teletrabalho, de forma a estar presentes em casa quando os filhos também estivessem. Creio que, com alguma facilidade e alguma flexibilidade, as famílias se organizariam, sem se fazer das escolas um permanente serviço de ocupação de tempos livres e de restauração.

Se me pedissem uma opinião sobre a organização do ano letivo, diria que é fundamental que alunos, pais, professores e restantes funcionários sintam que na escola estarão seguros e que o regresso não é tão só um plano traçado no éter, mas um projeto a erguer com base na garantia do distanciamento social, no cumprimento das medidas recomendadas internacionalmente, na sustentabilidade económica e no respeito por todos os envolvidos.

Ninguém me pediu uma opinião, mas está dada.

Rita Mendes

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